RATHBONE ZEPPELIN

Homicidios, critica social, literatura.
E casos.

Bennett e o indigente

 

Para Julia. Prazer, Bennett.
Para Bruna e Lorena. Desde o Natal que não nos vemos. Saudades, Bennett.  


I. 

Ela entrou no meu escritório vestindo jeans e camiseta branca, meio foda-se para o mundo. Os lábios carnudos cobertos por uma tinta vermelha que ela chamava de batom. Meu escritório ficava na avenida Rio Branco, comprado às custas dos assassinatos alheios que eu resolvia. 
- Sente-se - falei, apontando para a cadeira forrada de couro, design moderno, preço: olhos da cara, armação de metal. 
Ela sentou. 
O nome era Eleanor Batista, filha do Felipe Batista, o advogado dos corruptos. Assim que Adriana, a secretária, disse que ela estava na porta querendo falar comigo "urgentemente", senti um frio na espinha. Odeio corrupção, mas o ar do Rio de Janeiro anda tão sujo que aprendemos a chafurdar na sujeira como se fosse normal. 
- Boa tarde, detetive - falou. A voz macia, suave, como se realmente tivesse algo interessante a me dizer. 
- Boa tarde. Então, Felipe Junior, o que te traz ao meu humilde escritório sem um dedo de propina? 
- Fique sossegado, detetive, eu não costumo ser que nem meu pai. Pelo contrário. 
- Bom saber. Prossiga. 
- Um amigo meu foi baleado. 
- Espero que esteja bem - respondi, um sorriso de peixe morto no rosto. 
- O caixão pelo menos é estofado. 
Começamos bem, pensei. Era melhor deixar as piadinhas de lado e partir para o que interessava: la plata. 
Falei: 
- Prossiga e me conte os detalhes do assassinato. Se for divertido, eu aceito. 
Ela suspirou e disse: 
- Ele é travesti. Trabalhava na Atlântica. Eu sei que não é lá grande coisa, e tampouco ele deveria ter o naipe para ser do meu círculo íntimo, mas era boa pessoa. 
- Acredito que seja. Digo, era. Continue, Junior. 
- Como eu dizia, ele era travesti. Estava subordinado ao cara conhecido como Serjão. O nome dele é Sérgio. 
Eu sabia do Serjão, mandava e desmandava na prostituição carioca há quase cinco anos. Gente fina, pelo menos comigo. 
Falei: 
- Como e onde o corpo foi encontrado? 
- Pouco antes das dez da noite eu telefonei para o Gilmar. Esse era  onome dele. Gilmar. Disse que começaria um programa em quinze minutos, que depois ligava. Não ligou. Fiquei preocupada e resolvi telefonar. Não atendeu. Ele tinha um apartamento em cima de uma galeria na Nossa Senhora de Copacabana, coisa pequena, um conjugado, o pessoal ia, fodia e dava no pé. Pois bem, a porta estava encostada. Gilmar na cama. Quatro tiros. O lençol vermelho. Não chamei a polícia. O corpo está lá até agora. Deve estar fedendo, mas preferi te procurar antes de tomar uma atitude. 
Meditei durante alguns instantes. 
Disse: 
- Meu bolso agradece, mas precisarei de pulmões novos. Aquele quarto deve estar um fedor do caralho. Mas vamos lá. 
Ela sorriu e falou que eu não me arrependeria. 
Sorri em retribuição e rezei para realmente não me arrepender. Enquanto isso, meu nariz criava um imã e desejava sair dali o mais depressa possível. 
Merda. 


II. 

O prédio ficava em cima de uma galeria famosa pelas sapatarias, lan houses, lojas de adereços carnavalescos e, sobretudo, por abrigar em seu topo um edifício cuja principal finalidade era ser o prostíbulo gratuito da cidade. Alguns apartamentos permaneciam estrategicamente vazios para usos sexuais. Eu mesmo, nos tempos da fuzarca (ver Irmãos Marx) dera umas fodas lá. Agora o capitão Bimbão estava aposentado das DSTs. 
O corredor era frio, das quatro lâmpadas, três estavam queimadas e a única que funcionava dependurava-se em um fio cortado. 
O fedor começava nos primeiros passos. 
Quando Eleanor abriu a porta, quase vomitei. Cheguei a sentir o pão com queijo do café-da-manhã chegar à garganta e descer. Obrigado Newton. Obrigado maçã. 
Gilmar estava deitado na cama. Lençol vermelho-escuro, endurecido pelo sangue seco. Era negro, tinha uma cicatriz embaixo do mamilo direito. Pele porpurinada. 
A cama era de casal e ficava em um canto do apartamento. Um armário embutido vazio e uma escrivaninha completavam o cenário. Em frente à escrivaninha, uma cadeira de madeira com as roupas dele arqueadas sobre o encosto. Vestido azul com um decote curto para os peitos inexistentes; calcinha rosa e salto preto. 
Eleanor tapava o nariz com um lenço branco. 
- Precisamos chamar o IML com urgência - falei. - Me dá o celular. 
Ela deu. Telefonei para o Odair, um amigo meu do IML especialista em remoções sigilosas. Em quinze minutos, tempo suficiente para Eleanor falar que não havia parentes conhecidos do morto, ele chegou. 
- Caralho, isso aqui tá fedendo muito - disse, a voz esganiçada. 
- Cala a boca e faz teu trabalho. Quem fala aqui sou eu. 
Odair calou-e. Embrulhou o presunto em um saco plástico preto e desceu com ele até o furgão branco com o logotipo do IML no canto. 
- Amanhã você me liga que eu te digo onde ele vai ser enterrado. 
- Enterra em Jacarepaguá - falei. - É um indigente. 
- Me liga assim mesmo. 
- Tranquilo - virei para Eleanor. - Já pode ir embora. Deixa que daqui em diante eu assumo. 
Ela sacou um envelope branco e me entregou. 
- Faça bom proveito. 
Abri. 
Quinhentos reais de adiantamento. Tirei o dinheiro, guardei no bolso da calça, separando-o para o caso de ser roubado, e entrei no prédio.
Com a remoção do cadáver, era evidente que o cheiro diminuísse, mas nem tanto assim. Curvei o braço no nariz e examinei o local. 
Embaixo da cama, uma agenda preta. 
Abri. 
Folha de débitos. Muitos débitos. Alguns quitados, outros nem tanto. Os quitados tinham um OK ao lado do valor; os parcialmente quitados tinham um 1/2. O único não quitado era no valor de dois mil reais. Estava escrito em vermelho. Embaixo do valor, um nome conhecido. 
Fodeu. 


III. 

Serjão se escondia do mundo em uma cobertura na República do Peru, a alguns quarteirões do apartamento onde Gilmar morrera. O porteiro, um portuga de bigodinho branco e sotaque acentuado, já me conhecia. Eu estivera com Serjão há três semanas para bater um papo. Mandou que eu subisse direto. 
O elevador do prédio era bonito, fiquei me olhando no espelho. Eu não era tão bonito assim, infelizmente. Estava ficando velho. Ninguém gosta de ficar velho. Menos a galera do formol, tipo Oscar Niemeyer, Paula Toller e Dercy Gonçalves, só que não. 
Saí em um corredor. A porta era de vidro laminado detrás de uma grade curvilínea e retorcida. Ouvi gemidos femininos. Serjão dando no couro. O bom senso mandava retornar outra hora, mas o senso ruim, o da justiça, mandava tocar a campainha. 
Puta que pariu! - Serjão, esbravejando, profundamente irritado, de dentro do apartamento. 
Serjão era uma versão modernizada do Tim Maia, só que sem o talento musical, graças a Deus. 
Abriu a porta. 
- Caralho ,na hora que eu estou fodendo, Bennett? Sério mesmo? 
- Caso de vida ou morte - falei, e já saí entrando no apartamento. Uma mesa baixa, quase tocando o chão, recheada de pó e uma balança de precisão. Saquinhos transparentes em cima da mesa. - Negócios? - perguntei. 
- Sempre. Fala, que que tu quer, a mina tá esperando lá no quarto. 
- A mina que se exploda - falei. Ele não entendeu o sarcasmo. Era burro. 
- Fala logo. Caso de vida ou morte, você disse. 
- Nesse caso, morte. 
- Quem morreu? 
- Gilmar. Traveco. 
- Mentira... 
- Não vem de gracinha pra cima de mim - comentei. - Sei muito bem que ele tava te devendo dois mil contos. 
- Não mato gente por isso. 
- Que seja, quero o motivo. 
- Que motivo? 
- O motivo pelo qual ele estava te devendo dois mil contos. 
- Um vestido e cinco gramas de pó. 
- Um vestido? - indaguei, rindo. 
Serjão se deixou cair em um sofá de couro rasgado e separou com uma lâmina (surgida sei lá da onde) uma carreira na mesa. Comprimiu a narina esquerda e mandou ver. 
Me olhou, estalando os dedos com pressa, e disse: 
- Olha só, cara, eu ganho dinheiro com o trabalho deles. Se eles precisam comprar um vestido pra dar mais o cu, eu compro, sem problemas. Mais cedo ou mais tarde a grana entraria. 
Tirei o caderninho do bolso e mostrei a ele. Página marcada. 
Falei: 
- Está no vermelho. 
- Dívida contraída semana passada. Sexta-feira. Não sou tão mercenário e/ou desesperado por dinheiro assim. Tenho compaixão. E se você me permite, Bennett, vou lá ter compaixão com a Rose, ela está perdendo a umidade. E vamos combinar: eu odeio clima seco. 
- Faz muito bem. 
- Se quiser dar uma cheiradinha, pros amigos é de graça. 
- Já almocei - respondi. 
Ele desapareceu no corredor. Sentei no sofá. A lâmina estava em cima da mesa. Separei uma carreira e fitei o pó. Melhor não. 
Então Serjão surgiu novamente e disse: 
- Procura no banco dele. Tem uma poupança gorda. Ele estava querendo largar essa vida. 
Touché. 
Ele apanhou um papel onde lia-se o nome completo de Gilmar, sua conta corrente, entre outros dados.
Saí do apartamento. Em vinte minutos cheguei ao banco. Era uma agência em Ipanema. 


IV. 

Pobre que é pobre guarda dinheiro em agência de bairro nobre. 
Um homem de gravata azul-marinho, alto, cabelinho preto e muito bem aparado, meia-idade, bonito, vestindo camisa branca com listras finas e vermelhas, aproximou-se de mim. 
- Pois não? 
- Meu nome é Bennett, sou detetive particular. Estou investigando um caso de assassinato. 
- Assassinato? 
- Podemos conversar em particular? 
- Sim, lógico. 
Ele foi comigo até uma área vazia do banco. 
No trajeto eu havia parado em um anotador do jogo do bicho e pedido uma caneta e um pedaço de papel. Anotei só o nome, a conta corrente e a agência. Foi esse papel que eu estendi para o gerente. 
Ele leu com atenção, provavelmente umas quatro vezes, e disse:
- Esse dinheiro foi sacado hoje de manhã. 
- Como assim? - perguntei. 
- Foi sacado hoje de manhã, oras. Eu mesmo acompanhei a transação. Não é todo dia que se deixa quinze mil sumirem da sua frente. 
- Quinze mil? 
- Sim. 
Como diabos um traveco junta quinze mil, meu Deus? 
Pensei nisso em voz alta. 
O gerente respondeu: 
- Conferi a conta dele, naturalmente. Foi aberta há doze anos. O restante foi depositado há duas semanas. Acompanhei também. Cinco mil reais. 
Estimei quanto o traveco cobrava por programa. Certamente não era pouco. 
Filho da puta, pensei, dessa vez em silêncio. 
- Quem depositou o restante? - indaguei. 
- Ele mesmo. Mas não me pareceu muito feliz, não. Olhava para os lados a todo momento. 
- Seria demais perguntar pelos vídeos de segurança? 
- Consigo para você. Mas só amanhã. Já estamos fechando. 
- Ok. 
Agraceci e disse que passaria ali no dia seguinte. 


O dia seguinte surgiu nublado. Nuvens carregadas grafitavam o céu e aproximavam a ideia de apocalipse. Delícia. 
Cheguei ao banco depois do almoço. 
Eleanor Batista telefonara. Disse que não tinha novidades. Ela mandou eu ligar assim que tivesse alguma. Respondi que o faria. 
O gerente, agora vestindo gravata vermelha e camisa azul, me acompanhou até o mesmo canto do banco e fez com que eu contornasse o pequeno balcão. Mexeu no computador e passou o vídeo daquela tarde. 
De fato, Gilmar estava preocupado. Olhava para os lados a todo instante. 
Então, eu vi. 
Eu vi com toda clareza e percebi uma pista. 
Uma mulher de cabelos ruivos parada em frente a um caixa. Olhava para Gilmar discretamente a cada trinta segundos. Trocavam olhares tímidos, porém reveladores. 
Uma mulher como Eleanor metida numa peruca. 


V. 

Sim, pensou. Havia roubado o dinheiro do traveco. E que mal tinha aquilo? Que mal tinha em sabotar todo um plano complexo? Nenhum. Não se fosse em próprio benefício. Não caso se tornasse uma pessoa mais rica. 
Disparara quatro vezes contra ele sim. Quem mandou? Uma vez que o plano está concluído, todos os dados são preenchidos, acabou. Acabou de vez. 
E todos que colaboraram merecem morrer. 
Pensou na próxima vítima e sorriu. Seria muito fácil. 


VI. 

Apareci na casa de Eleanor naquela noite. Ela morava em uma casa numa ruazinha estreita e arborizada de Botafogo. Era uma casa de dois andares. O muro tinha dois metros de altura e era pintado de cinza com detalhes brancos. 
Toquei a campainha. Ouvi latidos. 
Eleanor abriu o portão. Um poodle branquinho avançou em minha direção. Fiz carinho debaixo de sua boca e ele sumiu, graças a Deus. 
Estava de vestido. Dois carros na garagem da casa. Um sedã preto e uma perua vermelha. 
Entramos. 
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou ela. 
- Estive no banco. O dinheiro do Gilmar. 
Percebi sua pele ficar branca feito porra. 
Continuei: 
- Acho interessante você me contar o que realmente aconteceu. Eu percebi quando você disse que não era igual ao seu pai. 
Ela suspirou fundo e disse: 
- Ok, você venceu. O real motivo de eu ter te procurado não foi o assassinato. Foi o dinheiro. Gilmar queria fugir. Serjão não se opôs. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você acabaria descobrindo. Mas não fui eu quem matou ele. Na verdade, eu não sabia que... 
Senti uma porrada na nuca. 
A última coisa que me lembro ter visto antes de fechar os olhos foi a bala arremessando Eleanor contra a parede. 


VII. 

Acordei zonzo. Um cheiro pungente de morte avançava sobre mim. Tentei me localizar. Estava amarrado a uma cama. Estava amarrado a uma cama no conjugado do Gilmar. 
Merda. 

VIII

Felipe Batista. Sessenta e oito anos. Advogado durante quase toda a vida. Criara a filha com amor e carinho. E agora era queria fugir. Fugir com um AMIGO travesti. Não fizera faculdade; não quisera sua riqueza. Era definitivamente bastante diferente dele. E única herdeira de um escritório famosíssimo. A morte seria melhor do que continuar com aquela desonra toda. 
Agora mantinha a arma apontada para o detetive Bennett. A ponta do cano encostada em sua testa. 
O medo estampado em seu olhar. 
Se livraria do corpo com a mesma habilidade que se livrara da filha: ácido. 
Os homens já estavam esperando por ele lá embaixo. 

IX. 

- Não vamos prolongar o momento assassino-encontra-vítima-faz-discurso-e-ponto-final. Vamos ao que interessa. A sua morte. 
Fechei os olhos. 
Adeus mundo. 
Então o ruído. Senti algo gosmento na minha pele. Escorria da testa para os olhos. Em poucos segundos alcançaria o nariz. 
Então o peso. Senti o corpo de Felipe Batista tocando meu rosto. Ensanguentado. 
Na porta, Serjão. 

X. 

Serjão sentiu a dúvida. Serjão joga a mulher para fora da cama e telefona para um contato. 
- Altamirando, meu querido, é o Serjão. Preciso de um favor teu. Seguinte, segue um camarada meu, acho que ele vai se meter em roubada. Não interessa, porra. Passa aqui depois e apanha sua grana. Só faz o que eu tô pedindo. Porque se não o cara vai morrer, porra. Cala a boca, Altamirando. Tchau. 
E desligou. 
Altamirando tinha 38 anos e dedicava-se a cumprir tarefas freelancers para os mandatários do submundo. Uma espécie de faz-tudo. Seguia alguém ali, envelopava um pó ali, descarregava um armamento ali. 
Era um faz-tudo famoso. 
Naquela segunda noite de perseguição, Altamirando telefona para Serjão. 
- Ele está entrando em um carro. Tão subindo o edifício do Gilmar, doutor. 
- Aguenta no corredor e não faz merda - diz Serjão. - Tô chegando aí. 
A porta do apartamento está encostada quando Serjão chega. Altamirando está parado à porta. Ele vê um velho apontando uma arma para Bennett e saca a sua. 
Aproxima-se da fresta e dispara. O tiro pega na cabeça. 


XI. 

Dois dias depois. 
Serjão salvou minha vida, puta que pariu. 
Estou sentado no meu escritório. 
Adriana abre a porta e diz: 
- Desculpa incomodar, seu Bennett, mas eu tenho uma dúvida. 
- Diga lá. 
- A solução do caso.
Minha vez de suspirar. Nem eu sabia o caso inteiro, mas a vida tem dessas coisas. O importante é solucionar algumas coisas, não tudo. Saber o motivo total, não importa. Mas eu fazia uma ideia do que ocorrera. 
Falei: 
- Felipe Batista. Advogado. Homem famoso. Adriana, se você tivesse uma filha que rejeitasse tudo que você é, que se declarasse assumidamente diferente de você. O que você faria? Não precisa responder, é retórico. A questão é: Eleonor não era que nem o pai, provavelmente renegava tudo. Pelo visto curtia frequentar a roda gay da cidade, normal. O pai desaprovava. Ela pretende fugir com Gilmar, travesti cansado de dar a bunda em troca de dinheiro. Felipe Batista descobre o plano dos dois. Não pode permitir uma coisa dessas. Sente vergonha da filha. Prefere conviver com a dor da morte à dor da vergonha. Gilmar não conhece Felipe, por isso aceita dar a bunda para ele. Pensa que já está acabando o sofrimento, que é uma das últimas fodas. Mas não é isso o que ocorre. Felipe quer o dinheiro. Sabe que eles têm uma conta juntos até hoje. Acredito que perseguia a filha secretamente. Então Gilmar, acuado, fornece alguns dados. E acaba morto. Felipe vai ao banco e manda um capanga tirar a grana. Recupera os quinze mil, uma parte destes depositada por sua filha, e tudo bem. Não fosse pelo tiro do Serjão ter estourado seus miolos. 
Adriana me olhou. 
- Obrigado - disse. 
E saiu da sala. 
Gargalhei. 
Girei a cadeira no ar. 
Pelo vidro, o grafite no céu vira chumbo. 
Chumbo. 
Chuva. 
O telefone toca. 
Adriana. 
- Senhor, tem uma pessoa aqui querendo te ver. 
Caso novo. 
Essa é minha vida, esse é o meu clube. 
Dessa vez, um homem maltrapilho. 
Mando ele sentar, nunca o vi na vida. 
Abro os ouvidos e ouço sua história. 

 

Cidade Alta

 

Para um panda, uma história de caçadores impiedosos. 


Bati a porta com força, ouvi o estalo atrás de mim e olhei na cara do filho da puta. 
- Cadê o dinheiro? 
-  Já depositei. Agora some da minha frente, tô esperando uma ligação importante. 
Encarei-o. Tinha bigode ondulado, feito uma onda escrota do Arpoador. Era baixinho, gorducho e havia me contratado há duas semanas para fazer um trabalho. Eu tinha de executar uma mulher. E só isso, nada mais. O nome dela era Albertina e tinha 35 anos. Não foi difícil. Sou mestre nessas coisas, trabalho com isso há quase vinte anos. Aqui na cidade rola muito dessas coisas. Mas não sou daqui. 
Nasci em Minas Gerais. Meu nome Maria, mas aqui na cidade sou conhecida como Escarlate. As pessoas não têm audácia de me olhar torto. Sabem que quando a noite cai eu fico perigosa. 
Bati com a mão na mesa. 
- Falei que queria o dinheiro vivo, aqui na minha frente, porra. 
- Você fala muito e pouco faz. 
- Ah, é? - fuzilei-o com o olhar. - Então vai lá ver se Albertina não está enterrada como você pediu. 
O gordo safado coçou o bigode e deixou-o ainda mais escroto. Ele disse: 
- Estou aguardando uma ligação de Brasilia, um deputado. Depois falo contigo. Volte aqui lá pelas cinco horas. 
Saí do escritório dele e fui até a praça. 
Cidade Alta foi construída no interior do Mato Grosso como refúgio de traficantes de drogas. Dizemos que aqui não há lei. Foi no final dos anos 70. Cheguei dez anos depois, junto com a energia elétrica. Até hoje não temos cinema, mas não ligamos muito para isso. É uma cidade passageira. Todos vão, ficam no máximo três meses e caem fora. Aqui é chumbo grosso, não dá pra dar mole. As exceções são eu, o gordo e o Preto, que executa as mesmas coisas que eu: pessoas. Não somos rivais. Maior prova disso é que assim que sentei na praça ele veio ao meu encontro. 
- Tão dizendo na cidade vizinha que a internet tá vindo aí. 
- Duvido - falei. - Eles não têm coragem. Acredito que nem no mapa estamos. Gente como nós não vale a pena. 
- Mas Brasilia sabe que estamos aqui. 
- Brasilia sabe de muitas coisas. A questão não é saber, a questão é lidar. Eles sabem mas não divulgam. Não interessa pro loirinho do Rio Grande do Sul saber que Escarlate e Preto matam pessoas no interior do Mato Grosso. Isso não existe. 
- E o gordo? 
- O gordo que se foda - respondi. - Quero meu dinheiro. 
- Calma, calma... paciência. Você sabe que ele sempre atrasa. 
- Justamente. Sabe, Preto, quero deixar essa vida. Quero seguir, ir embora. Já matei quase duzentas pessoas nesses vinte anos. É muita coisa. Não aguento mais sangue, não aguento mais as súplicas deles. Não aguento mais os marginais me prensando contra a parede querendo comer minha boceta e meu cu. Não quero mais a violência. Vou seguir viagem, sabe? 
- Eu não faria isso. 
- Por quê? 
- Você sai do sangue, mas o sangue não sai de você. Não adianta. Um dia você vai olhar para trás e vai ver que precisa matar alguém. Que precisa satisfazer seu ego. 
- Meu ego está bastante satisfeito. Almocei bem hoje. 
- Você entendeu. 
- Você também - falei. 
Ficamos quietos. Um moleque negro, a pele toda riscada de fuligem, passou com a bicicleta enferrujada na nossa frente. O cabelo estava raspado e ele tinha um rombo branco no couro cabeludo. Provavelmente levara um tiro quando pequeno. O pneu riscou o chão e formou um sulco profundo na terra. O vento soprou forte e tentou arrancar meus cabelos. Preto suspirou. Estava cansado, só não queria demonstrar. Ele chegara a Cidade Alta antes de mim. Chegara com os primeiros homens e mulheres. Chegara sem intenção de ficar, confessaria alguns dias depois, no leito de morte. Mas já chego lá. 
Preto levantou e disse que iria para casa. A lua se erguia nas últimas pinceladas de azul no céu. Quando a noite chega, invariavelmente Cidade Alta vira uma praça de guerra - iluminada, devo dizer, apenas pelo brilho dos tiros. 
Fiquei sentada na praça. A praça é um círculo cujo lado esquerdo é coberto de terra, e o lado direito é coberto de paralelepípedos. Acredito na selvageria como forma de conter o ímpeto destrutivo dos homens. Quanto mais mortos, menos futuros mortos.
Fui para casa quando já não enxergava quase nada. 


Um rojão rasgou meus ouvidos de madrugada. Era o sinal da guerra. Levantei. Apanhei o carro, uma velha caminhonete capenga, e fui até a praça. Conforme me aproximava, via as janelas sendo fechadas. 
Um homem estava parado no centro da praça. Segurava uma peixeira. O sangue brilhava, iluminado pelos meus faróis. Ele veio até mim pronto para acertar. Saquei a arma e disparei. Ele era ruim. Caiu no chão. Pisei em sua bochecha e disse: 
- Cadê teu chefe. 
Com o último suspiro, apontou para o gordo. Eu não tinha visto ele. Estava sentado no banco da praça. A garganta cortada, pescoço dobrado sobre os ombros. Sangue empapando a camisa. 
Quando voltei, o homem da peixeira já estava morto.
Ouvi um barulho pesado ao longe. Um carro potente. 
Preto chegou em seguida. 
- Isso não é carro simples - falou. 
- Vai dar merda - completei. - Se prepara. 
O carro, um blindado negro e fosco, entrou na praça à toda. Das janelas, balas saltavam. Eram fortes, pesadas. Acertaram Preto. Ele caiu no chão inconsciente. Consegui resistir por mais um tempo. Desceram dois homens do carro. Vestiam máscaras. Eu sabia que eram de Brasilia. Sapatos caros, calças sociais. Usavam casacos para se protegerem do frio. Filhos da puta. Caí no chão. Escarlate com os dias contados? 
Os homens circularam a praça a pé. Dispararam para o alto. As únicas luzes ali eram a do meu carro e o farol do blindado deles. Dispararam contra mim. Erraram por centímetros, mas fiz pensarem que tinham acertado. Foram embora. 
Cidade Alta estava perigosa demais. Coloquei Preto no banco de trás e deixei-o no hospital. 
Era hora de recomeçar. 



Preto morreu uma semana depois. Estava velho demais, o médico me disse que se fosse mais jovem teria sobrevivido facilmente. 
Não sinto mais saudades daquela vida. O que tinha de ter ficado para trás, ficou. 
Estou sentada na areia do Rio de Janeiro, contemplo o mar e penso em Cidade Alta. Agora tem lei. A lei dos homens de terno. Algum dia, talvez, quem sabe, pode ser que eu retorne para tirar os sujos de lá. Mas por enquanto estou bem aqui. 
Ontem à noite foi bom. 
Preto estava certo. Você sai do sangue, mas o sangue não sai de você. 
Deixei-o no quarto do motel. Não tenho problemas com isso. Homem é que nem biscoito, sai um e vem dezoito. 
E ele fodia mal. 
Uma pena ter deixado a água da banheira vermelha. 

 

Filme mudo

 

- Me disseram que era aqui. 
- Aqui o quê? 
- Não sei. Só me mandaram vir aqui. Disseram que aqui vocês resolveriam meu problema. 
- Resolvemos muitos problemas aqui. 
- É? E o meu pode ser resolvido? 
- Faremos o possível. Sente-se naquela cadeira. 
Olhou. Era uma cadeira de couro marrom, tinha outras quatro à direita. As pessoas liam revistas. Pareciam apreensivas. Sentiu medo. 
- Anda, senta na cadeira. 
- Eu tenho medo... 
- Do quê? 
- Das pessoas. 
- As pessoas são boas. Ninguém vai fazer nada com você. Pode sentar. 
- Mas... 
- Sente-se! 
Sentou. Caminhou até a cadeira dando pequenos passos, não queria arriscar. Olhava para os lados, as mãos nos bolsos da calça. Quanta gente, pensou. Será que elas têm o mesmo problema que eu? Ou seriam esses problemas coisas um pouco mais graves? Ou só estivessem aguardando? Brrr, tremeu, não queria pensar nisso. Apanhou no revisteiro um periódico amassado, cheio de dobras brancas. Correu o olho pelas páginas. A toda hora olhava para a porta de entrada. Haveria porta de saída? Saberia em breve. 
- Cadê sua mãe, garoto? - perguntou uma senhora de sorriso simpático. Ela tinha um copo d'água numa mão e uma bengala gasta na outra. - Você não pode ficar sozinho aqui não. É perigoso. 
- Ela está estacionando o carro. Já está vindo. 
- Aceita companhia? Estou um pouco solitária também. 
O menino fechou a revista. A senhora tinha cabelos quase roxos. Achou estranho, quem tinha cabelo roxo era a irmã mais velha, Alessandra. Mas os amigos chamavam de Alê. E não davam bola para ele, preferiam fechar a porta do quarto, e quando finalmente de lá saíam estavam rindo e comendo alimentos estranhos, como sorvete misturado com geleia. O menino não compreendia. E talvez, lá dentro, não quisesse compreender. O pai sempre dissera que tudo tinha sua hora. Esperaria. Um dia saberia o que fazer. O que esperar. O que acontecia no quarto. Um dia saberia muitas coisas. 
- Sabe, quando eu era mais jovem eu tinha muitos amigos - disse a senhora. O menino parou para prestar atenção. - E agora estou sozinha. 
- Está? 
- Estou. Hoje, aos 95 anos, eu já não sei nem por que Ele me mantém aqui. 
Ele? Ele? O que é Ele? 
- Você tem 95 anos? Puxa, não parece.
A senhora riu. 
- Tenho. E você? Quantos anos tem? 
- Nove. 
Ela riu novamente. 
- Quando eu tinha a sua idade os filmes ainda eram mudos e as pessoas ainda cobriam os tornozelos. 
- Filme mudo? 
- É. Mas você ainda é muito novo para compreender essas coisas. 
- Como assim, filme mudo? Se é mudo não é filme, cinema só com fala. Sabe, senhora, eu gosto do barulho. 
- Não me chame de senhora. Me chame de Lina. 
- Lina? 
- Sim. Enfim, você disse que gosta do barulho. Pois saiba que naquela época os filmes eram acompanhados por um pianista. Ele ficava num canto escuro da sala e fazia a trilha sonora na mesma hora em que a cena acontecia. Era maravilhoso. Mas eu só fui saber disso aos doze anos, quando fui ao Odeon com papai ver um filme de Carlitos. Era maravilhoso. Acredito que você nunca ouviu falar de Chaplin. 
- Já ouvi falar de Chapolim. 
Ela riu. A inocência do garoto era bonita, dava-lhe um aperto gostoso no peito. O contraponto da juventude, pensou Lina. Disse: 
- Não é a mesma coisa. Sabe, um dia você vai crescer e vai descobrir o mundo. Vai conhecer um montão de coisas novas, vai perceber que o cinema só retrata elas. 
- Com som. 
- Sim, com som haha. Mas você vai ver filmes mudos também. Vai ver várias outras coisas, vai conhecer pessoas que farão a diferença na sua vida. E tome cuidado, não vá terminar sozinho que nem eu. 
- Por que você está sozinha? Você é tão legal... 
- Oh, querido, não se iluda. Ser legal não ajuda muito. Você precisa se render às exigências das pessoas se quiser terminar acompanhado. Bom, e eu não atendi. E cá estou eu. Sozinha. 
- Você tem marido? 
- Tinha - respondeu Lina, uma ponta de saudosismo na voz. - Ele morreu há mais de trinta anos.  Desde então não consegui achar ninguém. E também não quis achar ninguém. 
O garoto refletiu por um instante. 
- Quanto tempo vocês ficaram juntos? - perguntou. 
- Ah, meu filho, eu casei mocinha. Com vinte anos já estava com aliança no dedo. Acredito que uns quarenta, cinquenta anos. Acredita que conforme o tempo passa a memória vai ficando fraca? 
- Que triste. 
- Não - disse Lina. - A gente tem que ver o lado bom das coisas. Acho que eu esqueci muitas coisas boas, mas com certeza esqueci muito mais coisas ruins, que se eu lembrasse agora me fariam sofrer. 
- Entendi. Desculpa perguntar, mas o que a senhora está fazendo no hospital? O que você tem? É grave? Você vai morrer? 
Lina riu mais uma vez. 
- Hahaha! Estou com uma dorzinha na barriga, sabe? Não consigo comer direito, sinto muita dor. Espero que eu não morra, mas se morrer, tudo bem. Já vi tanta coisa dessa vida... 
- Vai morrer não. Ainda tem muito tempo pela frente. 
- Haha, eu espero. 
- Você estava falando sobre os filmes mudos. Agora fiquei curioso. Pode me contar mais? 
- Posso, claro. Os filmes eram marcados por não ter fala, por isso mudos. Mas as falas eram compensadas com as expressões. Nós tínhamos as expressões. 
- Nós? Você era atriz de filme mudo? 
- Oh, não. Quem dera. É uma fala de um filme. Crepúsculo dos Deuses, de um diretor chamado Billy Wilder. Você ainda verá esse filme. 
- Verei? 
- Verá. Ah, verá. 
Lina continuou falando para o garoto. Ele sorria a cada movimento de seus lábios. Quanto conhecimento. Queria ser que nem ela quando crescesse. E queria entrar em contato. Tinham muitas coisas para conversar... 
- Rafael! 
Ele olhou. Era sua mãe. 
- Desculpa a demora, tá cada vez mais difícil de achar vaga nessa cidade. Esse prefeito estúpido acha que está tudo muito bem, mas não está. Ele só quer saber... 
- Mãe, essa é a Lina, ela estava me falando sobre filmes mudos. 
- ... de roubar, de corrupção, de matar gente honesta e acalentar as desonestas. A política desse país está uma droga, mas quem se importa? Eu me importo, mas eu sozinha, eu por mim não posso mais fazer coisas que... 
- Mãe! 
-... eu gostaria de fazer, como por exemplo dar um tiro na cara das crianças desse país. Enfim, o médico já te atendeu, meu filho, ou ele vai ficar demorando pra cacete que nem foi da última vez? Tem capítulo inédito da novela, quero chegar a tempo de assistir e... 
Lina permaneceu calada. Seus bracinhos finos moldavam quase um século de História. Um século. 
O garoto parou de prestar atenção na mãe quando percebeu que ela falava demais. E não tinha conteúdo. Mas isso ele só foi saber depois, bem depois, quando percebeu que, realmente, não era preciso falar para transmitir emoção. 
Chamaram Lina. Acenaram um para o outro. 



O carro era preto. Um sedã europeu. Chovia forte. 
O motorista estacionou o veículo na entrada, bem em frente ao pórtico. Leu as palavras douradas no topo do arco. Era ali. 
Desligou o motor e desceu do carro. O pé afundou numa poça gigante. Os pingos formavam bolhas no solo. O barulho e o cheiro eram inconfundíveis. 
Trocou duas dúzias de palavras com o senhor uniformizado, que lhe indicou a direção a seguir. 
Já haviam se passado vinte e cinco anos. 
O homem caminhava com uma das mãos dentro do casaco, como protegesse algo. E protegia. 
Após vinte minutos de caminhada ele achou a lápide. Era branca. Os pingos batiam ali quase invisíveis. Splish, splash, splish, splash. 
O garoto, agora um homem, tirou o filme do casaco e colocou em cima do mármore. 
- Desculpe não ter entregue isso antes - disse. - Espero que goste. 
Girou nos calcanhares e voltou para o carro. 


E o filme de Chaplin ficou ali, tomando chuva. Lina teria gostado, pensou o homem, já no trânsito. Ah, como ela teria gostado... 

 

O tradutor

 

Para todos aqueles que sofreram (e ainda sofrem) com a ditadura. Meus sentimentos.


Estou sentado em um corredor frio. A fiação está completamente gasta e corre pelo chão perto de um fio de água. Há risco de explosão, tem um botijão de gás no fundo do corredor. As paredes escondem as marcas da tragédia, contam para nós, prisioneiros dos uniformizados, o drama de cidadãos tão comuns quanto eu mesmo. Há marcas de unhas e sangue pelas paredes. Elas são desbotadas, cheias de furos onde é possível perceber o cimento e as vigas. O edifício já não é o mesmo. A iluminação é feita através de lustres pendurados ao teto de forma arcaica, presos a cordas e os fios de energia. 
Um guarda se aproxima e aponta para mim. Mudo, obedecendo a regra implícita do lugar, levanto-me. Sou conduzido a uma sala quadrada com um círculo no meio. O chão também possui marcas de sangue. Somos todos condenados e prisioneiros. O guarda me larga, algemado, no centro do círculo. Um flash de luz pisca continuamente. Provavelmente é o único aparelho iluminador que não cai aos pedaços. Um homem de máscara no fundo do cubo ajusta puxando uma corda a luz de modo que eu não enxergue os interrogadores. Eles estão sentados ao meu redor, fazem anotações e buscam evidências contra os terroristas. Subitamente, minha mente é tomada de assalto pela fala de um homem que chegara na véspera. Ele dissera que o Brasil havia goleado a Tchecoslováquia na Copa do Mundo. Tão rápido quanto chegou, o homem partiu. Duas balas. 
- Nome? - pergunta uma voz fria, tímida, porém pesada. 
- Augusto. 
- Nome verdadeiro - frisa a voz. 
Fico calado. 
- Nome verdadeiro - repete. 
Não abro a boca. 
Algemado fica difícil de me defender. Sinto o golpe no meio da parte posterior do crânio. 
- Nome verdadeiro. 
- Paulo - respondo, a voz fina. Sinto medo. 
Ouço o ruído do grafite no papel. O homem anota a lápis. 
O interrogatório continua. Me chamam de terrorista, pedem esconderijos. Não sou nada disso. Apenas estou cadastrado no Partido Comunista. Falta sensibilidade a essa gente. Minha história é triste, devo dizer. Fico pensando nela durante o interrogatório. 


Nasci no Rio de Janeiro no ano de 1943. Meu pai era contador de um escritório de advocacia lá no Centro, e minha mãe não fazia nada. Tenho um irmão mais velho, mora em Londres, o nome dele é Rubens. Estudei nos melhores colégios, foram dois. Fiz faculdade de Filosofia na Universidade do Brasil. Mudei-me para São Paulo para lecionar em um colégio de freiras. Voltei dois anos depois, em 1967. Meu pai morreu há dois anos, vítima de um câncer. Minha mãe continua viva, está internada em um asilo, sofre de demência. Rubens está em Londres há três meses, foge da perseguição. Espera por uma Anistia, a qual nunca ocorrerá. 
Atualmente sou tradutor. Traduzo obras de Freud, Marx e Simone de Beuvoir, além de Sartre e alguns textos de Brecht. Todos eles chegam às minhas mãos por meio de Iara, dona de um sebo. Iara tem cabelos lisos e macios. Insiste em culpar o Jânio pela atual condição do país. Respondo que trata-se de uma situação inevitável. 
Fui pego enquanto caminhava pela avenida Presidente Vargas. Vendado, não tenho a menor ideia de onde estou. Acordei já amarrado e no meio do corredor. Assisti à morte do homem que me contou do jogo de futebol com o coração palpitando. Medo. 
Penso nisso enquanto estou jogado no chão do círculo, apanho bastante. O homem que me bate usa luvas grossas de cor azul e utiliza uma barra de ferro. Percebo manchas de sangue nela. A dor não permite meus olhos de olharem para o local dolorido. Apenas sinto minhas costelas se quebrando, meus rins e pulmões doem. Tusso. Cuspo sangue. 
Uma voz diz: 
- Chega! 
O homem para de me bater. 
Viro a cabeça. O homem no fundo do cubo não consegue acompanhar meu gesto, ou seja, a luz não esconde o rosto das pessoas. São três caras fardados. Um deles aparenta ser bastante velho. Tem um bigode vasto e branco. Os outros dois são praticamente iguais: mesmo uniforme, cara amarrada, queixo triangular, barba crescendo e vincos profundos no rosto. A luz se ajusta. Não os vejo mais. 
Ouço novamente o grafite no papel. Um zumbido invade meus ouvidos. 
- Levem-no para fora daqui - diz um dos três. 
Seguram-me pelo punho e me arrastam. O sangue vai trilhando um caminho de dor e horror. 


Hoje é o terceiro dia aqui. Estou no corredor. Dois caras novos apareceram e desapareceram. Sou o mais antigo. Um dos soldados me trouxe uma compressa e umas bandagens. De vez em quando ainda cuspo sangue. Ofereceram um cigarro. Recusei. Não quero arriscar meus pulmões. As algemas machucam meus punhos. Não consigo respirar direito. 
- Socorro! - grito. Arfo. Tusso. Sangue. Bloody sangue. 
Um soldado aproxima-se depressa. Manda chamar a ambulância. Desmaio. 


Não sei quanto tempo se passou. Estou de volta ao corredor frio e gelado. Ele está mais cheio. Escuto uma vibração. Soldados correm, disparam tiros. Gol do Brasil. Se hoje é o dia do jogo contra a Inglaterra, estamos em 7 de junho de 1970. Não visto camisa, apenas uma calça surrada de sangue e poeira e terra. Tenho bandagens pelo corpo todo. Os homens do corredor me olham. Um deles chora sem parar. 
- Que foi? - pergunto. 
Ele me olha. 
- Medo - responde. 
- Não vai acontecer nada, relaxa. 
- Você não tem como saber. 
- Verdade, não tenho. Mas posso arriscar. Se fossem nos matar, já teriam feito isso. Há quanto tempo você está aqui? 
- Um dia - responde ele. 
- Então pronto. Relaxa. 
O homem para de chorar. Um soldado se aproxima. Agarra o homem pelos braços e o conduz à temida Sala VII, onde ocorrem as torturas. A Sala VII tinha toda uma mitologia em torno de sua construção. Diziam que os corpos do complexo eram desovados lá. Nunca acreditei nisso. O mesmo soldado volta alguns minutos depois. 
- Sua vez - diz ele. 


Estou pendurado aqui há cinco horas. Uma barra de ferro no teto serve de apoio para algemas que descem até meu tornozelo. Estou de ponta-cabeça. Já enfiaram uma estaca de madeira no meu cu umas três vezes. Em todas elas o meu ódio só aumentou. Estou criando a expectativa para a morte. Sinto dor. Interna e externa.


Ao final do dia 25 de Junho, o terrorista Paulo Landau foi assassinado dentro das dependências do Forte. Ele estava na Sala VII, e há mais de oito dias não ingeria nada. Os soldados relataram que ele chorava e urrava de dor e fome. Davam-lhe um pouco de água. Como ele não tinha previsão de saída, foi morto a tiros no peito, no tórax e no crânio. O corpo foi desovado no quebra-mar da avenida Niemeyer na madrugada do dia 26. 
A mãe de Paulo faleceu dois dias depois. Ela não soube da morte do filho. 
Rubens Landau permaneceu em Londres até 1982, quando finalmente retornou ao Brasil. 
Paulo foi só mais um dos milhares de terroristas torturados no período da ditadura. Paulo foi só mais um dos milhares de terroristas mortos e desaparecidos no período da ditadura. 
E assim como todos os outros milhares, Paulo não era terrorista. 

 

Bennett e o Papai Noel que morreu

Para Mia, feliz ano novo. 

 
"Suck my dick, oh yeah" 
Oscar Wilde


Dois dias para o Natal

Essa história aconteceu quando eu ainda era detetive da polícia carioca, o que significa que eu não era dono do meu próprio nariz, obedecia ordens de pessoas mais escrotas que eu (até hoje não sei como isso é possível) e resolvia casos com certa facilidade. Hoje em dia eu estou velho, acabado, destruído, mas ainda resolvo casos. 
Foi no dia 23 de dezembro que tudo começou. 
Brasileiro tem essa mania escrota de colocar papai-noel em tudo quanto é praça, shopping center ou esquina. Se o critério fosse por esquina tenho certeza de que Brasília seria uma cidade mais alegre, porém igualmente corrupta. Enfim, é de lá que vinha o meu salário, olha como eu sou grato por tudo que o Senhor me deu até hoje. 
Eu estava na minha sala desagradável na delegacia ainda mais desagradável quando o delegado Funchal bateu na porta. Na minha mão direita, um bilboquê tentando ser jogado. A bola de madeira vagava no ar tentando entrar na haste. Sacanagem lúdica, que delícia. 
- Bennett! 
- É o meu nome. 
- Acho que temos uma vítima. Vai lá conferir. 
Guardei o bilboquê. A cara do delegado Funchal escorria um suor cinzento, muito erótico. Arqueei a sobrancelha e comprimi os lábios. 
- Você fala com uma autoridade... 
- Talvez porque eu seja seu chefe, não? - disse ele, rindo. Ride, ridentes, derride, derridentes. 
- Ok, ok, já entendi. Depois dizem que esse país é uma democracia, não entendo isso. 
- Não é pra você entender, basta seguir - respondeu Funchal. - Enfim, vai lá. É na São Clemente, nada muito longe. 
A São Clemente ficava a duas quadras da delegacia. Era uma rua que ia até a puta que pariu, diga-se Humaitá. E começava na praia de Botafogo. Grandes merdas. Meti a arma no coldre, que por sinal estava preso na minha cintura, e fui até o local da tal denúncia. 


Era um prédio bege com varandas de grades de ferro batido. Algumas delas possuíam redes, outras, cujos proprietários certamente tinham tendências suicidas, não. A portaria era cheia de espelhos, acho que as madames gostavam de se olhar ali. Ajeitariam os penteados antes das festas, passariam batom antes de beijar trilhardários com dentaduras e bafo de onça. 
O porteiro, seu Geraldo, foi quem me recebeu. 
- Detetive Bennett? 
- É o meu nome. 
Apertamos as mãos. Ele era mais baixo do que eu, tinha um bigodinho de porteiro pintado com tinta guache pra esconder os pelos brancos. Cabelo de sobra, raridade nas portarias de hoje.
Ele disse: 
- A vizinha do apartamento 903 interfonou pra portaria há uma hora, disse que sentiu um cheiro podre muito forte vindo do apartamento do lado. Achei melhor chamar a polícia, o Edmilson não sai de lá há dois dias.
- Quem é Edmilson? - perguntei. 
- O morador. Ele se veste de Papai Noel, sabe como é, Natal todo mundo fazendo bico pra ganhar uns trocados. 
Grunhi qualquer coisa. 
- Me leva até o apartamento - falei. 
Ele sorriu e me levou até o elevador, também espelhado. Essa burguesia narcisista me dá nos nervos. 
O corredor era estreito, cabia uma pessoa e meia postas lado a lado. O cheiro era deveras desagradável, um odor de putrefação que indicava, sem sombra de dúvidas, morte. Corpos. Argh. 
Uma porta abriu-se atrás de nós. Era a moça do 903. 
- O senhor é o policial que veio ver o Edmilson? - perguntou ela. A pele era fina, escorrida, os olhos tinham bolsões debaixo dos cílios. Triste. 
Falei: 
- Detetive, minha senhora, detetive. Bennett é o meu nome. 
- Que nem o colégio? - indagou ela. 
- Talvez. 
- Meu nome é Marlene - disse ela. 
- Que nem a cantora? 
Não obtive resposta. Nós, pessoas com nomes similares a coisas e/ou pessoas famosas odiamos nossos pais. Malditas homenagens. 
Geraldo me deu autorização para arrombar a porta. Com um movimento brusco, leia-se pontapé, rompi a fechadura. Chuck Norris que me aguarde. O cheiro ficou mais desagradável. Avancei com cuidado, queria vasculhar o apartamento atrás do possível corpo, buscar cada evidência. Mas isso era coisa pra sonhadores, o presunto estava jogado no meio da sala.
Vestido a caráter pro Natal, Edmilson jazia no tapete. Duas baratas se aproveitavam de sua carne. Nas costas, o buraco da bala. Ele estava deitado embaixo do saco. Triste. 
Emilinha Borba, digo Marlene, deu um berro e virou a cara. Subitamente eu me via metido num noir dos anos quarenta. Triste. Socialmente deprimente. 
Esperei a poeira baixar - e o cheiro passar - para falar com a vizinha. Seu apartamento era decorado com várias réplicas de quadros de pintores famosos. Tinha Monet, Debret, Da Vinci, Michelangelo, etc. 
Marlene pousou a xícara de café na bandeja e me olhou. 
- Ele era um bom homem. Nos últimos anos, nessa época de Natal, ele ia até um orfanato se fazer Papai Noel. 
- Que orfanato? 
- É na Tijuca, fui lá ano passado. É algo bonito mesmo de se ver, sabe? 
- Ah. Você tem o telefone desse lugar? 
Ela respondeu que sim. Pediu licença para procurar no quarto o número. Voltou em seguida. Anotei num papel e voltei para a delegacia. 


Funchal estava em sua sala quando eu cheguei. 
- E aí, conseguiu alguma coisa? 
- Papai Noel morto - falei. - Parece que ele ia a um orfanato na Tijuca levar presente pras criancinhas. 
- Bonito. 
- Ainda há esperança no mundo - respondi. - Vou dar uma ligada pra lá e ver se consigo alguma coisa. 
Funchal consultou o relógio e disse: 
- Espera. Por que você não vai lá amanhã? Agora já está tarde, acho difícil conseguir alguma coisa. Façamos assim: liga, pergunta sobre as visitas de amanhã e pronto. 
Ordens superiores são ordens superiores. A dois dias do Natal o sentimento geral era de anarquia. Viva Rufus T. Firefly.


 Véspera de Natal 

Véspera de Natal. Tios paveoupacomê invadindo as casas, presentes trocados antes da hora e muita comida. As academias vão entrar o ano seguinte cheias de lucro. Ótimo. Viva o capitalismo. 
O orfanato São Sebastião ficava numa ruazinha estreita da Tijuca - se bem que ruazinha estreita da Tijuca é pleonasmo. Tratava-se de uma casinha azul e vermelha com balões coloridos pendurados na entrada. Da rua eu conseguia ouvir um ruído estridente de crianças correndo. Por um momento eu cheguei a me perguntar se não era uma casa de festas. 
Parado no portão, mão no ouvido segurando um celular, um rapaz negro e alto vestindo camiseta branca e jeans. Usava óculos de aro. 
- Edmilson, sou eu, de novo. Tu sumiu ontem, não deu as caras hoje... Qual é, vai furar mesmo? Vem logo, porra! 
Decidi me aproximar. Sorriso no rosto, roupinha alinhada, sentimento falso de compaixão-eba-finalmente-é-Natal. 
- Boa tarde, companheiro. 
Ele me olhou. Botou um sorriso no rosto. Pelo visto não era só eu o falso da história.  
- Pois não? 
- Detetive Bennett, 10ª DP. Escuta, você tava falando ao telefone com um tal de Edmilson? 
- Talvez. 
- Sejamos objetivos, facilita o meu trabalho. Estava ou não? 
- Sim e não - respondeu ele. - Deixei mensagem na caixa postal. Por quê? 
- Desista, ele não vem. 
- Como assim? - indagou ele. 
- Seu coleguinha foi encontrado morto esta manhã. 
O homem levou a mão à cabeça e começou a dar umas voltas de desespero. Acho que quando ficamos desesperados fazemos isso automaticamente, é meio que um sentimento de Thriller/Michael Jackson que nos invade. Tocante. 
Encostei a mão em seu ombro. 
- Se quiser eu posso me vestir de Papai Noel, depois a gente conversa. 
Ele mordeu o lábio. 
- Oscar Lemos, prazer. 
Apertamos as mãos. 


Nunca pensei que eu fosse fazer isso. Botei piolhentos no colo, disse hohoho e me fingi de dócil. Algumas crianças são capazes de despertar o meu amor. Ou o que restou dele. Ou ainda nem mesmo isso. 
Oscar pegou um copo d'água, estávamos do lado de fora sentados no degrau que separa o chão e a casa. 
Ele disse: 
- Conheci o Edmilson há cinco anos. Cara gente boa, era pedreiro, ficou desempregado. Chamei ele pra trabalhar aqui no Natal, pagava mil reais pelos dois dias. Não me importo em gastar dinheiro, essas crianças são a minha vida. Só que é a velha história, o cara tinha problema com bebida - nessa parte Oscar fez um gesto com a mão levando o polegar até a ponta da boca. - Avisei tanto a ele, avisei tanto. Um dia eu sabia que ia dar em merda. 
Franzi o cenho. 
Falei: 
- Ué, tem gente que bebe pra caralho e não morre assassinado. 
- Só que o Edmilson era pobre - respondeu Oscar. - Ele vivia me pedindo dinheiro, eu sempre negava. Só cedia, e ainda assim muito pouco, quando ele entrava em abstinencia. 
- Entendo. Alguma ideia de quem pode ter sido? 
- Não. Olha, eu tenho que entrar, mantenha-me informado. 
Nos despedimos. 
Caminhando pela rua, o telefone tocou. 
- Bennett? 
- Eu. 
- Aqui é o Funchal. Escuta, fizeram uma limpa no apartamento dele. Encontraram tabletes de maconha e meio quilo de cocaína. Nosso Papai Noel era traficante. Tinha um caderninho com cinco nomes, quatro deles riscados. Anota aí o endereço do último. 
Parei numa banca de jornal e pedi um papel e uma caneta. Anotei. Era uma mulher. Morava em Ipanema. Puta que pariu. 


Giovanna McDonald. Nunca me esqueço desse nome. Era baixinha - parecia um anão de jardim -, tinha cabelos lisos na altura do ombro e falava grosso, com imposição. Me recebeu com um cigarro na mão. Voz rouca. 
- Sim? 
- Detetive Bennett, 10ª DP. 
- Olha aqui amigo, já fizeram limpa no meu apartamento, tô respondendo processo em liberdade, relaxa aí. Tem nada pra procurar aqui não. 
A vadia foi fechando a porta na minha cara. Botei a mão e saquei a arma. 
- O nome Edmilson te diz alguma coisa? 
Giovanna Hambúrguer deixou o cigarro cair no chão e abriu a boca. Se eu fosse um pervertido teria mandado ela abaixar o pescoço e brincar com o mini-Bennett. 
Estamos na varanda dela. O vento bate no meu rosto e brinca com o meu cabelo. Estou apoiado na grade. Embaixo de nós as pessoas passam carregadas de sacolas. Ah, a pressa natalina. 
Hamburguer tira um cigarro do maço e me oferece. Eba, ano-novo, tempo de renovação, decido que posso começar a fumar. Fumo. Tusso. Não é pra mim. 
- Ele andava me cobrando muito - disse ela. - Falou que o fornecedor tava pedindo pelo dinheiro, que ele tava sendo ameaçado de morte e os caralho. Não dei muita bola, achei que era papo de vendedor. 
Ela soprou a fumaça na minha direção. Que cheiro ruim. 
Continuou: 
- Não era má pessoa. Eu comprava maconha com ele, nunca quis pó nem nada. Gosto do meu corpo, sabe? 
- Que delícia - falei. Mordi o lábio de sacanagem, ela viu algum duplo sentido nisso. 
- Você está indo com muita sede ao pote, vamos com calma - respondeu. 
- Mas eu não fiz nada. 
- Ok. - ela deu mais uma tragada. - Tenho uma coisa que pode te ajudar. 
- O quê? 
Giovanna segurou na minha mão e me levou pra sala. 
- Lembrei agora. O Edmilson mencionou uma certa Operação Barba de Pó amanhã, no dia de Natal. Acredito que é o dia do pagamento, algo assim. 
- Vou verificar isso, pode deixar. 
Olhei no relógio. Sete da noite. 
- Tenho de ir - falei. 
E fui. 


Dia de Natal 


Acordei cedo. Minha ceia limitou-se a um pão com mortadela. Zero presentes. Zero ligações. Nove horas da manhã, um filme idiota passava na televisão aberta. Estava zapeando com o controle quando o telefone tocou. 
- Feliz Natal! 
- Quem é? - perguntei. 
- Franco, porra. 
- Ah, sim. Feliz Natal pro senhor também. 
- Ih, que baixo astral é esse, meu chapa? Tem que comemorar, porra! Ganhei uma bolada agora. Tá vendo, ser informante tem lá seus lucros. 
- Aleluia. 
- A Operação Barba de Pó foi um sucesso pros caras - disse Franco. 
Dei um pulo do sofá e desliguei a televisão. 
- O que foi que você disse? - indaguei. 
- Ganhei uma bolada... 
- Não, Operação o que? 
- Barba de Pó. 
- Me encontra daqui a quinze minutos na minha portaria. 
- Tudo bem, mas... 
- Anda! 
E desliguei. 


Franco chegou metido num short vinho e camisa cinza sem manga. Fumava um Marlboro e tinha os olhos inundados com alegria. 
- Preciso dos detalhes dessa operação aí - falei. 
- Por quê? 
- Seja um bom informante e fala logo, um cara morreu por causa dela. 
- Não sei muita coisa, só que é uma coisa pequena, um círculo fechado. Mas eu conheço alguns caras, e pelo meu silêncio eles me deram três mil. Tá bom, né? 
Perguntei: 
- Quem são esses caras? 
- Pequenos traficantes. Conseguem as drogas comprando pra consumo próprio nos morros. Nenhum deles fuma ou cheira, é mais pra vender, lucro extra. Um deles faz ponto lá na Lapa, de vez em quando encontro com ele. 
- Quem é o cara? 
- Não sei seu nome verdadeiro. A gente chama de Gerente Aldo das Cavernas, ele tá sempre usando uma mochila com formato de balaclava. Figuraça. 
- Obrigado. 
- Já? Acabou? Mais nada? Sério mesmo? 
- Você é um gênio, Franco! 
E saí em disparada atrás do primeiro ônibus que me levasse até o assassino. 


Aldo das Cavernas estava sentado na portaria ouvindo rádio. Um forró tocava de fundo, saudades da tua terra, traficante de merda? 
Tirei a arma e apontei pra ele. 
- Responde o que eu perguntar e acho bom ser bem direto. Não vou hesitar em te matar, seu merda. 
Geraldo ergueu as mãos, ensaiou uma resposta. Minha raiva começou a subir, atingiu o pico. Dei um tiro na parede. Ele se contorceu todo, bonito de se ver. 
Falei: 
- Seu filho da puta, foi tu que matou o Edmilson, não foi? 
- Não, eu... 
Avancei nele e segurei-o pelo colarinho da camisa. 
- Fala! 
Geraldo começou a chorar. 
- Foi - disse. 
Pra mim bastava. 


Funchal telefonou por volta das quatro horas. 
- O delegado do plantão me telefonou, soube que você prendeu o assassino do Papai Noel... Parabéns, detetive Bennett, cada vez melhor. 
- Só faço o meu trabalho. Quer os detalhes?
  - Por gentileza. 
- Todo mundo sabe que o Edmilson era um pobre, nunca tinha grana. Há um grupo na cidade que vende drogas em pequenas quantidades para um pessoal específico, ou seja, não tem erro. O porteiro do prédio era um desses traficantes, só que conciliar portaria com droga fica difícil. Ele disse pra mim que entrou pro tráfico quando já era porteiro, que não queria sair, coisa e tal. Enfim, sentiu pena do Edmilson e botou ele pra trabalhar como revendedor. Acredito que ele tenha se perdido na grana que ganhava, gastado o dinheiro com bebidas e aí fodeu. 
Funchal disse: 
- O cara não teve outra saída, matou pra conseguir a grana. 
- É o que eu acredito - respondi. 
- Parabéns, detetive, mais um caso fechado. 
- Obrigado. 
- Feliz Natal, Bennett. 
- Foda-se. 
Clique. 

 

Cinquenta e quatro fotos

Para Marta, que possui a habilidade de escrever textos tão bons quanto os meus. A diferença 
é que ela é modesta. 

Tem dia que de noite é foda. 
Pornopopeia. Ou KSis 

O telefone tocou por volta das cinco da madrugada. A mulher deitada do meu lado, cujo nome eu não me lembro, tampouco faço questão de, deu um ronco e mergulhou de vez no sono profundo. Tirei o trambolhão do gancho e disse, alô. 
Porra, já era pra tu tá na rodoviária, maluco! 
Foi mal, respondi. Saí pra pensar na vida e vim parar no motel Coração com uma dona que eu nunca vi na vida. Pelo menos ela se depila. 
Deixa de conversa e vem pra cá, o ônibus sai em meia-hora. 
Porra, meia-hora é impossível, só se meu nome fosse Superman. 
Clique. 
Dei um pulo da cama, joguei uma nota de vinte em cima da mesa do quarto e desci às pressas a escadinha que dava na recepção, um lugar fedorento cheio de moscas tsé-tsé voando e zumbindo na porra do meu ouvido. A mulher da recepção perguntou pela minha acompanhante. Falei que quando ela acordasse era pra me ligar, tudo mentira, não dei meu número pra ela. 
Chamei o primeiro táxi que vi pela frente. Era um Santana velho caindo aos pedaços. O taxista, um mulato igualmente velho e barbudo, disse que eu suava, ele riu, a noite foi boa pelo visto, hein? 
Ô, nem te conto, respondi. 
No meu tempo as donas gostavam era de balançar o sovaco pra cima, elas têm medo de mostrar a xoxota e mostram o sovaco. 
Já ouvi isso em algum lugar, falei. 
É de um livro dum cara famoso, disse ele. 
Não conversamos mais. A rodoviária era sempre lotada de muambeiros que compravam passagem em doze vezes sem juros e se mandavam pro Paraguai atrás de mercadoria barata. No geral são pessoas simples que possuem orgulho demais pra comprar no Saara e revender nas areias. Filhos da puta. 
Porra, finalmente tu apareceu. 
Pois é. Estamos prontos pra luta? 
Que luta, porra? Vamos fazer o combinado e depois cada um prum lado, beijinho beijinho pau pau. 
Andou vendo Xuxa, porra? 
Não passa nada de bom na televisão, eu acordo cedo, só me sobra esta merda. 
Você é deprimente. 
Ele sorriu e não falou mais nada. 


A primeira parte da viagem - eram três -, consistia em nos metermos dentro de um ônibus furreca que partiria da rodoviária e trafegaria durante três dias e duas noites por estradas barrentas. No caminho, várias desistências e uma parada no hospital pra galera que passou mal. Continuamos nós dois, firmes e fortes. A segunda parte foi a mais foda de todas. Foi chuva, vendaval, ar-condicionado desligado e frio durante uma semana. Acampamos numa cidade cheia de mato e gente que anda de bicicleta como se andasse de Bentley. O diálogo a seguir foi travado nas últimas horas do penúltimo dia da segunda parte da viagem. 
Essa cidade me dá arrepios, disse ele. Acho que a qualquer momento as pessoas vão surtar e virar zumbis. 
Isso é coisa de cinema, falei. Relaxa aí, vira pro lado e dorme. Amanhã vai ser foda. 
Tem dia que de noite é foda. 
Nem te conto. 
Uma trovoada cortou os céus e fez a gente se borrar de medo. Acordamos com os primeiros raios de sol que conseguiram fugir da teia da aranha, digo das nuvens. 
A terceira e última parte da viagem consistiu em duas horas a bordo de um teco-teco que subia e despencava feito uma parábola de minuto em minuto. Uma montanha-russa altamente mortal. Pousamos no meio da clareira aberta especialemente para este fim. O solo era arenoso, de terra batida e improvisada. A marcação da pista era feita com estacas de madeira cujas pontas eram pintadas com tinta fosforecente verde-limão comprada no Paraguai. Duas demãos de quinze em quinze dias. Descemos do Gigante de Aço, nome do aeroplano, e sentimos a terra na sola dos pés. Falei, e agora? 
O sol está se pondo, disse ele apontando para o brilho do sol se esvaindo. Gigante de Aço taxiou na pista e levantou vôo. Aquela clareira nunca poderia ser descoberta. Cruzamos a pista até chegarmos à cabana. Dentro dela, as mercadorias que tanto esperávamos. Uma delas me olhou e tentou dizer algo, a mordaça impedia que o som saísse claro. Preferi não dar bola. O resto das mercadorias tentava se desvencilhar do brilho do meu relógio, que refletia com violência a luz solar. Fechei a cabana e disse, cadê o facão? 
Deve estar no matadouro, respondeu ele. 
Vamos até lá, falei. 
Caminhamos depressa até chegarmos a uma choupana de quinze metros quadrados. No centro dela, uma mesa retangular de aço inoxidável. Ao longo da choupana, algumas bancadas de madeira acomodavam bandejas de aço esterelizado envolvidas com um pano branco. Em cima do pano, acumulavam-se facas, cutelos, tesouras, armas de pequeno calibre e tranquilizantes de animais, além de algumas substâncias como cocaína em pasta, maconha e venenos para ratos, venenos de cobras e estricnina. O facão estava, como sempre, pendurado na parede. Com cuidado, retirei-o e disse, vamos até a cabana. Àquela hora já estava escuro, apertei o interruptor e algumas lâmpadas postas no solo se acenderam, iluminando nosso caminho. 
Ele disse, o que vamos fazer? 
Colocar em prática o meu plano. 
E qual é o seu plano? 
O choque. 
Hã? 
Meu plano é mostrar para a sociedade o quão degradante ela pode vir a se tornar. É uma espécie de crítica social. Entretanto, de maneira prática. 
Como assim? 
Espere e verás, respondi. 


Escolhi um garoto. Devia ter no máximo doze anos. Os dentes estavam amarelados, podres. Arrastei-o pela terra até o matadouro. Prendi seus punhos e pernas com tiras de couro e apanhei as drogas. Disse, apanha aí a câmera. Câmera na mão, tirei fotos. Com a mão direita, injetei cocaína na veia do garoto. Com a mão esquerda, fotografei. Cinco fotos do processo. Utilizando um martelo, quebrei todos os seus dentes. Ele urrava de dor. Olhei para trás. Meu assistente só faltou vomitar. Não dei bola. Continuei torturando o moleque até ele perder as forças e só me restar uma alternativa senão matá-lo. Antes disso, porém, apanhei uma filmadora e, vestido com uma máscara que eu mesmo fiz, gravei o vídeo. Matei o moleque. Seu corpo foi cuidadosamente colocado dentro de uma caixa de papelão cheia de bolinhas de isopor e plástico bolha. No dia seguinte o Gigante de Aço viria nos levar até o Rio para que eu pudesse deixar na sede do conglomerado da mídia. No total, foram contabilizadas cinquenta e quatro fotos e um vídeo. Era hora do show. 
Viajar no Gigante de Aço sempre foi muito desconfortável. Pousamos no aeroporto de Jacarepaguá. Fui acordado por meu ajudante. Chegamos, disse ele. Tomamos um táxi, caixa de papelão na mão, e paramos em frente ao hotel Epopeia, no Centro, um daqueles hoteis de merda onde você paga a mais se quiser a cama feita ou ter ar-condicionado no quarto. Paguei em espécie. No dia seguinte fui até o conglomerado da mídia num carro alugado pelo meu assistente em nome de um laranja. Usei um disfarce. As câmeras nunca me pegariam. Joguei na calçada a caixa e arranquei com o carro. Fui até um retorno e, pela pista inversa, encostei a cinquenta metros da entrada. Vi quando um funcionário uniformizado apanhou a caixa. Um sorriso se abriu no meu rosto. 
Seis e meia, disse meu ajudante. 
Eu sei, falta uma hora pro jornal começar. 
Vai dar tudo certo, disse ele. 
Eu espero. Fomos bastante cuidadosos. Depois disso, continuei, nos separamos, não podemos correr riscos. 
De fato. 
Fui para o banho. Me masturbei pensando em antigas namoradas. Na volta, encontrei meu ajudante assistindo televisão. Um boletim especial denunciava minha entrega. Abri uma champanhe vagabunda que encontrei no frigobar e brindamos. 
Ao sucesso, dissemos. 
Escutei o tilintar das taças de plástico. 


Tenho uma faca afiada e curta na mala. Apanho-na e surpreendo meu assistente. Corto sua garganta. Uso luvas cirúrgicas de látex. Quando faço isso são quatro da manhã, a recepção está fechada e o hotel Epopeia não possui câmeras. Maltrato o corpo. Tranco o quarto. Levo todos os documentos comigo, faço uma limpa geral. Não serei pego. Pelo menos não tão em breve. 
Não sou um assassino, mas também não sou um inocente. Não sou culpado, mas também não sou um mártir. Sigo na vida fazendo minha história e expondo à sociedade o que ela mais odeia, a crueldade. Exponho o medo das pessoas. Não fiz isso pela fama, não. Quero ver o medo se espalhar. Eu sou ninguém e sou tudo. Eu sou nada e todos. Eu sou mistura, eu sou homogêneo. 
Eu sou O Corte da Navalha. Eu sou aquele que todos temerão, mas que não teme nada. Vocês ainda ouvirão falar de mim, ah, se ouvirão! 
Ouçam-me, crianças da noite! Ouçam o despertar das trevas! 
É agora que nossa opereta começa e se encerra; é agora que nós brindamos ao futuro com ecos do passado. Reverberamos nos corredores da sociedade em busca do conhecimento infindável dos antepassados. 
O Corte da Navalha, para o bem e para o mal, está entre vocês. 
Passarão por mim na rua e não me reconhecerão. 
O fogo, senhores, o fogo sobe. O circo, senhores, o circo está em chamas. 
As labaredas já não se contentam com o céu. 

O Atalante do Deserto

 

  De um escritorzinho prepotente para uma leitora (sexualmente) voraz. Com Nutella, faz favor.  
 
São 06:03 da manhã. O sol ainda não nasceu por entre as árvores já-nem-tão-verdes-assim. Daqui a pouco ele sai do meio das nuvens e bombardeia nossas vistas com seus jatos de luz alaranjados, criando uma estética meio impressionista. Monet misturado com Dalí, assim dizendo. 
Meu nome é Carlos, sou escritor. Carlos Lima. Mas você deve me conhecer pelo meu pseudônimo, aquele que estampa nas livrarias as capas de livros como O Atalante do DesertoA Promessa de Vilma LundTrilogia do Fogo, entre outros. Sou daqueles relativamente famosos, escrevo sobre o que me vem à cabeça, não fico meses planejando uma história certinha. A graça é deixar fluir. Logicamente, com os romances eu devo começar as primeiras linhas já tendo uma ideia geral. Se tem algo que eu detesto são histórias policiais. Considero-nas uma afronta à boa literatura, uma vez que não há uma interação leitor-personagem. O nível de penetração na trama é mínimo, de envolvimento. Escrevo sobre o amor. Escrevo sobre coisas fantásticas, como a Trilogia do Fogo, cujos três livros tratam de um mundo futurista onde uma juventude neonazista toma o poder. 
O primeiro livro chama-se A Cruz Inclinada, e mostra a ascenção dos neonazistas ao poder - desde o golpe que lhes deu o poder da Europa, passando pelo caos econômico por eles provocado, até o surgimento, numa pequena cidade no interior do Rio de Janeiro, do homem que viria a ser o líder do movimento internacional contra os neonazistas. 
O segundo livro, O Homem Que Desafiou Hitler, ambienta-se vinte e sete anos após o primeiro livro. Nele, Charles já está alistado no exército Nazista. Durante uma confraternização entre amigos, quatro soldados da NSS - Nova SS - invadem o bar e matam todos. Saem rindo. Charles é o único sobrevivente. Inicia, então, um movimento nos subterrâneos do Brasil, um movimento que rapidamente se alastra pelos corredores do mundo. O final do livro apresenta ao leitor o início da Batalha de Berlim. 
O terceiro e derradeiro livro, O Fogo Sobe, trata do desfecho da Batalha de Berlim e da reorganização do mundo após tantos anos de domínio nazista. 
Não sei por que estou escrevendo isso, me pareceu uma ideia bastante vália. Ah, o tédio da madrugada. No momento, trabalho num quarto livro da série do Fogo. Nele, Charles, já aposentado de suas atividades, casado e com dois filhos, se envolve num jogo de espionagem quando sua mulher é assassinada. No começo desse texto comentei minha repulsa aos livros policiais. Entretanto, O Canto do Guerreiro, título provisório do volume, não será uma história comum. Pretendo dar ao leitor a possibilidade de interagir com os personagens. Criarei uma revolução estética. 
Entretanto, considero O Atalante do Deserto minha obra preferida. Trata-se da história de um mercador que sonha em construir um barco inspirado no Atalante do filme homônimo de Jean Vigo, rodado em 1934. O problema, porém, é que o barco deve voar. O mercador consegue construir o barco. E então, numa tempestade monstruosa, é jogado no meio do deserto. Sozinho, ele não só deve reconstruir o barco e voltar para sua terra, como também sobreviver no ambiente aberto mais claustrofóbico já criado. Levei quatro anos escrevendo ele - mas sem me dedicar em tempo integral, ou seja, a escrita ia e voltava. Escrevia quando tinha vontade. 

Aos poucos o sol se atreve a sair. Entretanto, as nuvens impedem um vislumbre total de sua luz. Cortam-na rapidamente, resta ao brilho do sol ficar enclausurado na solidão gelada do espaço sideral. Abarco o sol no meu corpo, sinto seu calor. A ponta da caneta corre pela folha, algumas trovoadas acompanham relâmpagos intangíveis na imensidão do céu. Uma garoa fina molha as plantas e renova as esperanças de vida. A vida é curta. A vida é rara. Virei a noite acordado, escrevendo feito louco o quarto livro. Minha esposa, Louise, diz que eu tenho de ser menos workhaholic. Não tenho mais idade para isso, segundo ela. As tramas começam a ficar mais pesadas. Tenho várias ideias para livros. Minha mente pulsa a mil por hora. Rabisco freneticamente, minha gaveta está lotada de rascunhos, pena que quase nenhum deles será aproveitado por mim. Tenho setenta e cinco anos, os cabelos estão brancos como neve e os olhos cada vez mais fundos, depositados na vastidão de meu crânio. Costumo sair pouco de casa. Louise sofre de osteoporose, estamos os dois condenados à cadeira de rodas e ao tédio eterno. A solidão não nos atinge, temos o amor. O amor é inatingível. O amor, melhor dizendo, torna tudo inatingível. Uma brisa calma me acolhe. Sinto a vista pesar. Louise já está dormindo. Farei o mesmo. 
Então, num único movimento, pendo minha cabeça para o lado e deixo a mão Dele me conduzir.  Chegou a hora. 
Cuida-te, Louise. Cuida-te, Charles e todas as minhas criações. 
Meu legado é para a eternidade. 

 

Vermelho presunto-cru

 

Era um, era dois, era cem. Não, na verdade não era ninguém, só eu cantarolando enquanto esperava pela Silvia. Silvia tinha trinta e sete anos, já havia sido casada e tinha um filho pequeno, Gabriel Augusto. Conheci a Silvia num bazar beneficiente que o banco promoveu pro Natal. Ela desfilou pelo salão com um decote em V e os peitos quase saltando. Ok, tinha umas estrias e uns riscos vermelhos - rawr -, mas não era nada que fosse capaz de me repelir. Não sou mosquito pra ser repelido. 
Era o nosso terceiro encontro. Terceiro encontro significa sexo. Sexo. 
Ela veio de longe, desengonçada no salto. As pernas estavam depiladas. Sexo. 
- E ai, gatão. 
Silvia me deu um beijo na boca. Sexo. Tinha mania de me chamar de gatão, acho que é isso o que ocorre com as mulheres ao chegar perto da fronteira dos quarenta anos, aquele lugar que é pior que o dos trinta (enquanto os trinta anos declaram o início oficial da vida adulta, adeus bebedeiras, os quarenta são a porta de entrada pra velhice. Os cinquenta anos são praticamente um atestado na sua testa: VELHO). Como eu dizia, acho que chamar as pessoas de gatão te torna um pouco mais jovem. Whatever. 
- Tudo bom? Pedi uma porção de fritas, achei que você fosse demorar e... 
- Está bem - disse ela. Estava tudo muito bom, tudo muito bem, muito bem. Me senti no clipe da Blitz. Sério. 
As batatas chegaram com uma fumaça quase branca subindo - um novo papa foi eleito! Joguei sal por cima e comi a primeira. E a segunda. Silvia tentava me acompanhar enquanto podia. 
- Você come muito rápido. 
- Só a comida - falei -, as mulheres eu degusto como se fossem um charuto. Ou uma maçã gourmet, se é que existem maçãs gourmets. 
- Eu não vou dar hoje pra você, João Alberto. 
Little John se encolheu nas calças. Mas ok, eu sou um guerreiro, não me rendo por nada nesse mundo. Para o alto e avante. Merda, Little John, se tu for voar avisa antes, não te quero dando porrada na calça. Relaxa aí. Isso, garotão. 
Silvia me olha. Diminuiu o decote, usa uma camisa branca e jeans. Tem um colar seguro entre os dois montes também. Viu, pseudo-jovem-velha querendo ser jovem. Triste. Socialmente deprimente. 
Eu digo: 
- Tem um filme no cinema que eu tô doido pra ver. 
- Qual? 
- Esqueci o nome, tem a revista lá em casa. Se você quiser, quando sairmos daqui a gente passa lá e pega. 
- Espertinho... 
Sempre. 
- Espertinho nada, você já disse que não vai dar pra mim, respeito isso. 
- E não vou mesmo - ela se inclina, está vindo em minha direção. - João, eu sou psicóloga, entendo seu jogo. Não vai funcionar. 
Merda. 
Chamo o garçom, peço a conta. 
- Desistiu? - pergunta Silvia. 
- Desisti. 
Apanho o casaco em cima da cadeira e jogo uma nota de cinquenta. Não tenho medo de ser escroto. Não ia mesmo chupar aquele peito cheio de estrias. Cmon, eu consigo coisa melhor. 



As pessoas têm a mania de achar que eu sou lesado. Penso nessa mania da sociedade enquanto dirijo. Uma chuvinha fina cai sobre a cidade. Ser humano é foda, uma gotinha e pronto, o trânsito para. Talvez isso seja coisa de nós, cariocas mesmo, sei lá, vai saber. A Suzi Cavala, a atriz pornô, me dizia que tudo não passava de uma ficção para os deuses. Será? Não quero estar metido num show de Truman. Ah, o show da vida. Fantástico. Doutor. Estou ficando maluco. Céus. 
Paro no sinal. Vermelho. Mesmo com chuva e a lua encoberta pelas nuvens, um moleque se atreve a subir no caixote de madeira e fazer malabarismos com três limões. Passa pelo meu carro e pede dinheiro. Não dou. O carro do lado, um sedã vermelho de gente rica, baixa o vidro. Não quero olhar. Tenho ódio de gente rica, principalmente se for mauricinho que toma leite longa vida pra achar que vai renovar o sangue pseudo-azul deles. Essa gente é tudo nova-rica, não se fazem mais Monteiro Aranha como antigamente. A sociedade está cada vez mais down, já dizia Elis Regina. Caímos vertiginosamente rumo ao limbo dos esquecidos. Daqui a mil anos seremos nada mais, nada menos que maias, silvas, astecas e incas venusianos terrestres lembrados mais por teorias do caos e pirâmides de pedra do que pela babaquice de sempre. O ser humano é babaca. 
Chego no prédio. Estaciono o carro na garagem. Estou esperando o elevador. Uma loira alta, metida num salto agulha (só faltava a linha de costura) para do meu lado. 
- Por que você não deu dinheiro pro garoto? 
- Oi? 
Ela estende a mão. 
- Marie Claire, prazer. 
- Playboy, nice to meet you. 
Ela ri. 
- Haha, é sério. Meus pais são franceses, mas eu nasci aqui. 
- Ah, ja te la pla pli blu. 
Marie Claire ri alto. O elevador chega. 
- Vamos começar de novo - diz ela. - Marie Claire, prazer. 
- João Alberto. 
- Então, por que você não deu dinheiro pro moleque? 
O elevador começa a subir. 
- Não sigo convenções sociais - respondo. - Acho elas babacas demais. 
- O mundo em si é babaca. 
- Finalmente alguém que concorda comigo! 
Rimos. Ela está na minha. Ela está na minha fita. Digo, ela está no meu blu-ray. 
Marie Claire salta no sétimo. Antes de se despedir, diz o apartamento. 707. Chego em casa, disco pra ela. 
- Alô. 
É uma voz de velha. 
- Oi, sou eu. 
- Eu quem? 
- Marie? 
- Quem? 
Engano. Ligo do 701 até o 706. Nenhuma Marie Claire. Filha da puta. Tudo bem, tudo bem, eu ainda cruzo com ela novamente. Ah, cruzo. 



Garagem. Dia seguinte. O carro vermelho dos ricos está parado ao lado do meu Volkswagen. Entro no carro. Marie Claire surge e sorri. 
- Você não me ligou. 
- Liguei sim - respondo. - 707, oras. Uma velha atendeu e disse que não tinha ninguém com esse nome. 
Ela dá um tapa na cara. 
- Foi minha mãe, ela é super ciumenta. 
- Triste. Socialmente deprimente. 
- Pois é. Então, vai fazer alguma coisa hoje à noite? 
- Nada em mente - digo. - Por quê? 
- Meus pais vão viajar, se você quiser passar lá em casa... 
Levanto o vidro do carro, ligo o motor e sorrio. Ela sabe que eu vou. 
Noite. 
Tlim-tlom. 
- Ah, você veio. 
- Eu vim. 
Marie Claire. Está metida num vestido vermelho-sangue, unhas vermelho-presunto-cru. Sem decote. Pernas de fora, alguns pelos crescendo. 
- Escuta, você gosta de ouvir o quê? - pergunta ela. 
- Coloca um jazz, um blues, sei lá. Confio no seu taco. Resta saber se você confia no meu. 
Louis Armstrong tocando. What a fucking wonderful fucking world. 
- Assim, tão direto? Bacana, João Alberto. 
- Eu sou todo bacana. 
- Vamos com calma. 
- Mais calmo que isso só meu pai louco tomando viagra. 
- Você é uma peça. 
- Macbeth me adorava. 
Marie Claire avança. Monta em mim. Não tento nada arriscado. Minha árvore verde procura a rosa vermelha dela. Estamos nos abrindo um para o outro. Ok, ela se abre pra mim, não curto essas coisas. 
Terminamos. Foi uma verdadeira aula de História, constatei que Hitler é melhor que Mussolini. 
- Já vai? - pergunta ela. 
Respondo que sim. Tento dar uma de rico e um conto do Rubem Fonseca me vem à mente. 
- Amanhã vou ter um dia terrível no banco. 

 

Raspão

 

Outro dia viraram pra mim e perguntaram, você gosta de mulher? A princípio fiquei desconcertado com a pergunta, não esperava isso, mas respondi, por convenção social, sim, gosto de mulher. Mas não sei quem foi que falou que a gente tem que se apaixonar por homem ou mulher. Acho isso uma piada um tanto quanto perigosa imposta por padrões religiosos. A mesa se calou e passou a olhar pra mim. Achei engraçado. Meu amigo,  o mesmo que fez a pergunta, disse, continua, Carlos. Continuei. Falei, vocês acham engraçado, mas eu não; gosto de mulher sim, adoro mulher, adoro comer uma boceta, mas acho que no fundo não queria ser imposto a isso. É forçar demais. Meu amigo ficou calado. Uma garota que estava perto de nós com a namorada, disse, gostei do seu ponto de vista, é muito maduro. Respondi, obrigado, fico feliz. Ela disse, no início eu sofri, não queria gostar de mulher, sei lá, vai que é algo psicológico. Achei que fosse doença, continuou ela. A namorada segurou seu braço. Cumplicidade. Dei um gole no meu chope. A garota falou, você já ficou com homem? Respondi que não. E tem vontade? Ela tinha um sotaque meio paulista, forçando os r's e os s's. Respondi que também não tinha vontade de pegar homem, que não era minha praia. Ela se apresentou como Camila, e a namorada chamava-se Albertina. Como eu havia julgado, elas eram de São Paulo, mais precisamente Campinas. Campinas me lembra campos, campos verdes cheios de amor. Albertina brincava com seu cabelo enroscando alguns fios em seu indicador da mão esquerda. Meu amigo àquela altura já não entendia mais nada. Vou pegar uma bebida, disse ele. Respondi que tudo bem. Albertina tomou o lugar dele, Camila não quis sentar. O que vocês estão fazendo aqui no Rio?, perguntei. Albertina respondeu, matamos o ex-namorado dela, estamos fugindo. Eu ri. Ela disse, mas é verdade, não é meu amor? Camila sacudiu a cabeça em aprovação. Elas realmente haviam matado o cara? Não é possível. Meu amigo voltou em seguida e eu fiquei com medo de perguntar novamente. (Abrindo um parênteses aqui, estou escrevendo no formato de um parágrafo só porque estou cansado, cheguei tarde do trabalho e estruturar um texto costuma ser difícil, sabe como é. Pelo menos vocês sabem que não morri). As duas foram embora logo em seguida. Meu amigo perguntou, e aí, conversou com elas? Conversei, falei, elas mataram o ex da Camila. Quem é camila? A mais gata. Ah. Ele não ligava. Tá vendo, é disso que eu falo, essa tendência social a desprezar fatos importantes e relevantes. É por isso que ocorrem tantos assassinatos e crueldades no mundo de hoje, falta as pessoas ligarem mais um pouco para o que ocorre no mundo que as cerca. Voltei para casa. Eram duas da madrugada, o garçom disse que o bar já estava fechando. Apanhei o telefone e liguei para um bordel perto de casa. Quero a Maria Luisa. Maria Luisa tinha olhos verdes, cabelos ondulados com mechas loiras e uma voz meio rouca, estilo femme fatale de filme noir dos anos trinta. Algo como uma Lauren Baccal. Maria Luisa chegou. Fodemos. 
Você é muito distante da sociedade, disse ela. 
Talvez, respondi. Ultimamente eu havia respondido muitas coisas. 
Não gosto desse seu talvez, ele expressa que você é inseguro. 
Virou quiromante? 
Talvez. Estou mais para aqueles pais de santo que vão em programas de fofoca falar sobre as celebridades. 
Talvez. 
Olha a gente falando talvez toda hora, disse ela rindo. Eu gostava de Maria Luisa. Ela foi embora logo em seguida, tinha de voltar pro bordel e eu estava duro. Cheguei na janela como sempre fazia quando ela deixava o apartamento. O carro veio à toda, acertou ela de raspão com o espelho lateral e jogou Maria Luisa no chão. Sua cabeça ricocheteou no asfalto e sangrou. Cerrei as cortinas e fechei a janela. Apaguei a luz e fui dormir. Pela manhã, uma multidão em volta do corpo. Fora encontrado às seis e dezessete por um idoso que caminhava na rua. Ele chamou a polícia. Maria Luisa estava seminua. Diziam que era um ultraje. Calcei meus chinelos e desci à rua para ver o ocorrido. Sangue seco em volta de sua cabecinha linda, a mesma que abrigava a boca que acolhera meu membro tantas vezes antes. Triste. Socialmente deprimente. Voltei para o apartamento quando a polícia chegou com o rabecão e levou o corpo embora. O show terminou, disse o policial. Dois dias depois, o motorista que a atropelou se entregou. Tive vontade de matar o filho da puta, mas não o fiz. As pessoas merecem o que merecem. Quem sou eu para duvidar da justiça? Ninguém. Mas que o sistema precisa melhorar, ah, isso precisa mesmo. Não é anarquismo, é senso de política, chame-se lá como isso se chamar. 
A luz pressiona minha vista contra o computador. Coloco os óculos, mas não adianta. Estou ficando velho. Será? Clique. Escuridão total, só enxergo a tela e as palavras. Letras que formam um texto que vai sendo construído a cada segundo, a cada palavra escrita. Metalinguagem nível asiático. Talvez. Ou não. Ou sim. E pensar que tudo começou  com um papo de bar. Talvez Maria Luisa não tivesse morrido se o bar não tivesse existido. Mas aí várias vidas se alterariam por causa de uma. Por isso não gosto dos seres humanos, essa complexidade e o senso de coletividade pregado por muitos - e não só os socialistas - me irritam. É preciso ter liberdade de escolha, uma coisa bem sartreana. Enrolo muito, pode falar. Mas é verdade. Enfim. A verdade não é única, assim como eu também não sou. Um dia todos nós viraremos pó metidos em caixões escuros debaixo da terra, comunicação zero com o mundo exterior. Um dia. Até lá eu pretendo viver o máximo possível. Pii. Isso foi o barulho do café, ou melhor dizendo, da cafeteira. Um dia tudo vai mudar. No final, tudo fica bem. Enquanto não estiver bem é porque não estamos no final. No final. Bem. Não fica. Fica. Vou pegar o café antes que esfrie. 
Câmbio. 

 

Text Socialisme


A ambulância parou em frente ao portão principal da clínica. Alguns pacientes se arriscavam a sair de seus quartos para ver a cena. Coberto por um pano branco, estendido numa maca verde, o corpo era carregado para dentro do veículo. Alguns choravam, outros tentavam pensar que sua vez tardaria. Tentavam. O sentimento geral era sabido: a morte viria para todos eles. 
Ana entrou no quarto do homem que havia acabado de morrer. Era a enfermeira mais velha daquela clínica. A pele enrugada no rosto deixava seus olhos meio saltados da órbita. Estava tudo ali, da mesma forma que o morto conservara nos mais de vinte anos de internação. Todas as roupas dispostas no armário, as cuecas e meias organizadas na gaveta, os porta-retratos na estante. A estante. 
Ana estacou defronte à estante enquanto observava os retratos e as esculturas minúsculas que ele colecionava. Um troféu dourado. Ana apanhou a peça com as mãos em concha. Na base do pedestal estava escrito RUBEM - CAMPEÃO DO TORNEIO DE BURACO. Rubem. Sentiria falta dele. Colocou o troféu no lugar. Assim que a base do objeto tocou a prateleira, ela sentiu um estalo. Algo impedia o encaixe. Apoiou o troféu no chão e ficou na ponta dos pés para tentar enxergar o que era. Tateou a superfície até sentir o caderno. 
Ana sentou-se numa poltrona com o caderno negro apoiado no colo. Algumas folhas se lançavam para fora do bloco, outras se retraíam. A borda das páginas estava amarelada. Ana olhou para a porta trancada. Abriu a primeira folha e começou a ler. 


As pessoas escrevem diários porque gostam da sensação de finalmente serem donas da verdade. Nessa porra de diário você conta toda a sua vida - ou o seu dia - e ninguém tem o direito de ler, tampouco duvidar da sua versão dos fatos. Por isso decido escrever nessas páginas a minha vida. Nada muito extenso, tentarei ser o mais direto possível. Se você, filho da puta arrombado, está lendo isso, é porque eu morri. 
Meu nome é Rubem, sobrenome dispensável. Estou há um ano e meio nessa clínica pra gente velha. Meu filho morreu há dois anos num acidente de automóvel - esses jovens adoram correr, aí batem e morrem. Depois não adianta dizer que eram boas pessoas quando em vida. De que adianta serem boas pessoas se não têm capacidade de guiar a porra de um carro? 
Vim parar nesse lugar após me sentir muito solitário. Ninguém gosta da solidão. Por mais que eu seja um misantropo, não posso me dar ao luxo de ficar cultivando essas coisas que cabem aos jovens. Os jovens é que gostam de bancar os solitários. Puro chamariz pra conseguir atenção de uma sociedade cada vez mais burra. 
Aqui na Clínica eu sou conhecido como Rubem. Na vida, eu sou O Socialista. Não, nada a ver com política anti-militar, etc. Os militares nunca me perseguiram. Na verdade, a história da minha vida é uma ironia. Eu sou todo irônico. 
Me lembro como se fosse ontem. Enterro do meu pai, o grandioso Giovanni Coppola, típico caso de italiano que veio pro Brasil fazer fortuna. E conseguiu. O velório foi uma desgraça só, todo mundo chorando e eu sentado na escadaria da mansão sem poder fazer nada. Só me restava a lembrança do velho bigodudo atrás de uma mesa. Você, corno que está lendo esse diário, deve pensar que eu não tenho respeito pelo meu pai. Mentira. Eu tenho. Mesmo tantos anos após sua morte, eu tenho. 
Após o enterro voltamos para casa. Eu tinha quinze anos. Enquanto minha tia, o motorista, minha mãe e meu irmão iam para casa, pedi dinheiro para comprar uma daquelas revistas para crianças. Precisava de algo que me distraísse. 
Minha mãe mandou eu ir rápido e voltar mais rápido ainda. No caminho, coisa de duzentos metros, um rapaz vestindo vermelho entregou-me um folheto.  

GRANDE CONVENÇÃO COMUNISTA. VENHAM CONHECER OS ABUSOS 
DA MÁQUINA DO PODER. SEJA COMUNISTA. 

Embaixo do chamariz - todo em letras vermelhas -, o endereço da palestra. Meti o negócio no bolso, comprei minha revista e voltei pra casa. 
A palestra ocorreu no sábado. Todos vestindo vermelho. Parecia que o Jack tinha benzido todos os cornos marxistas com o sangue de suas vítimas, as putas asquerosas. Mas eram putas londrinas. Putas londrinas são as melhores. Aquelas piranhas. Odeio o Jack por isso. Enfim. 
Conforme o tempo passava, os ideais marxistas dentro de mim começavam a se formar. Escrevi aos dezessete anos as Teses de Novembro, um conjunto de cinquenta páginas onde detalhei de forma bem elaborada o conceito de Capitalismo Marxista, um sonho que me move por dentro até hoje. Mas não quero falar sobre ele. Não agora. O ódio contra o Capitalismo também aumentava. Meu pai morreu de ataque cardíaco. Muitas preocupações com a empresa, muitos lucros, muitas perdas em igual proporção. Muita destrução. O Capitalismo é o lobo do homem. O homem é o capitalismo. Homo homini lupus. Hobbes estava certo. 
Conheci aos vinte e dois anos o cara que ia mudar minha vida. Não, eu não sou viado, não troco baba com homens. Não sou um beija-rapazes. Enfim. Henrique Buarque. Estudante de Direito na Universidade do Brasil. Homem culto. Promovia algumas corridas clandestinas de carro na Barra da Tijuca. Naquela época a Barra da Tijuca era deserta, quem ia pra lá era maluco.
Henrique dizia que eu tinha capacidade pra fazer o que eu bem entendesse. Tomamos um drinque e entramos no carro. O vento batendo na minha cara, Henrique achando que tava tudo muito bom, estilo filme americano. Pra mim tava uma merda. 
Perguntei pra onde ele estava me levando. 
- Relaxa - disse ele. - Você não vai se arrepender. 
Grunhi qualquer coisa, meio que um tá, foda-se. 
O lugar era deserto. Deserto pra caralho. Fiquei pensando se o Orson Welles não podia alugar aquele terreno pra filmar alguma porra de deserto do Saara. Cidadão Saara. Macbeth no Saara. Alguma coisa assim. 
Henrique desceu do carro e me mandou fazer o mesmo. A uns dez metros de distância, dois carrões importados - um amarelo e outro vermelho. Encostados no capô fumando cigarros, dois caras. 
Henrique cumprimentou cada um deles. Os homens vestiam terno, coisa chique. Reconheci um deles. Lobo da Costa, o nome dele. Senador. Todo político é corrupto. 
Lobo disse: 
- Porra, Ique, tu vai ficar trazendo esses caras pra cá? 
- Confio nele. 
- Por quê? 
Lobo da Costa parecia exaltado. Mas prefiro acreditar que ele era moderado. Viu, meu sarcasmo me comove. 
Henrique respondeu que eu serviria para alguma coisa. Comecei a ficar confuso. 
- Afinal, o que eu tô fazendo aqui? - perguntei. 
O outro homem, que até então estava calado, jogou o cigarro no chão e pisou em cima. Esmigalhou o pobre coitado. Senti minha espinha tremer. Ele veio na minha direção. 
- Qual o seu nome? 
- Rubem. 
- Rubem de quê? 
- Não interessa. 
O filho da puta tirou uma pistola do bolso e encostou o cano na minha barriga. Permaneci impassível. Henrique afastou ele. Lobo da Costa não disse nada. 
- Senhores, sejamos sensatos, estamos aqui para nos ajudar - disse Henrique. 
O homem guardou a arma. Henrique me puxou e me levou para um canto. 
- E então, dá pra você me explicar que porra é essa? - perguntei. 
Henrique coçou a cabeça e disse: 
- O Lobo você já conhece. O outro é o Dinheiro, um dos maiores matadores de aluguel do Rio. 
Pausa na narrativa. Preciso explicar. 
O Dinheiro era super conhecido. As autoridades temiam ele. Tinha um golpe certeiro, usava um facão de churrasco que trouxera do Sul, onde nasceu. Nome verdadeiro desconhecido. Fumava sempre um cigarro. Essas informações eu fui saber depois, pois como falei antes, não o conhecia naquele encontro na Barra. Entretanto, o que fazia o Dinheiro ser O Dinheiro, era o método de matar. Ele sempre abria um buraco na barriga das vítimas e sempre puxava uns dois metros de intestino pra fora do corpo. As cenas eram bizarras. 
Fim da pausa na narrativa. 
As pessoas não gostam de serem contrariadas. Henrique era assim. Foi preciso muita psicologia para eu conseguir tomar coragem. O caso era esse: o Dinheiro ia entrar de férias, excesso de serviço. Lobo da Costa precisava de alguém pra eliminar os inimigos. Henrique sabia que eu tinha uma veia exaltada, uma veia que pulsava contra as pessoas. Uma veia misantropa. 
- Qual o preço? - perguntei. Lobo da Costa riu. 
Henrique respondeu que iam me pagar em dólar. Coisa de mil por serviço. 
- Quando eu começo? - perguntei. 
- Hoje mesmo. O Dinheiro vai pegar o Pan Am das nove, vou ficar sem ele durante um mês. Marquei um encontro com o Cordeiro Lima, o bicheiro. Preciso dos seus serviços. 
Sorri. Dinheiro pareceu não gostar da situação. Ficou puto e entrou no carro. Arrancou. Lobo da Costa não fez objeções. 
Puxei Henrique pro canto. 
- Que foi? - quis saber ele. 
- Preciso de um instrumento de trabalho. 
O senador ouviu minha fala e disse que já havia providenciado tudo. Apanhou na mala do carro um estojo. Dentro dele, uma faca brilhante. Percor. 
Segurei a belezinha com as duas mãos, depois empunhei com a esquerda ela no ar e corri dois dedos pelo gume. Gelo. Frio. Espinha tremendo. Orgasmo não sexual. 
O sentimento de ódio marxista foi crescendo dentro de mim. A raiva se acumulava. Senti meu pau subindo dentro da cueca. A visão ficou clara feito leite. Clara. Leite. Eu era praticamente um bolo sendo formado. Aliás, ótima metáfora para orgasmo, essa. Quando voltei ao normal, Lobo da Costa estava caído no chão, ensanguentado. Henrique me olhava com medo. O sangue do senador espirrara no rosto dele, manchando por tabela a camisa branca. Lobo da Costa escorregara pela lataria do carro. O vento da Barra soprava no meu rosto. Olhei a faca. Estava ensanguentada. Ajoelhei e fiquei fodendo aquela barriga gorda de senador com a faca. Enfiava e tirava. O sangue jorrava. Era bom. Eu sentia que era bom. Filhos da puta não sentem dor. Os olhos do senador estavam abertos, me encaravam como se disessem, seu filho da puta, você vai pagar caro por isso. Henrique continuava perplexo. Percebi que ele ensaiou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O corte na barriga do senador devia ter o tamanho de uma laranja pequena. Enfiei a mão e tirei o intestino cheio de merda pra fora. Henrique vomitou e desmaiou. Afogado no próprio vômito. Senti meu pau ficar duro e gozar. Passada a raiva, veio o êxtase. Sentei ao lado do senador e observei seu pescoço pender. Filho da puta não sente dor. Olhei Henrique. Voltava a si. A boca cheia de vômito e sangue. Fuzilei ele com os olhos e disse, avisa que o Socialista está pronto. 


Horrorizada, Ana fechou o caderno amarelado. Foi até a cozinha da clínica e apanhou uma xícara de café. Precisava ler o resto.

Aos pássaros, meu canto

 

I. A questão dos hábitos


Meu primeiro almoço de família, e isso eu me lembro muito bem, foi quando eu tinha seis anos. Naquela época minha avó ainda era viva, os tios criticavam o regime militar e a comida era bem servida. Talvez por causa dos comentários mordazes tecidos durante as refeições, meu pai sempre adotava uma postura reticente antes de me levar aos festivais de comilança. 
Os almoços de família aconteciam na casa de Itaipava, construída pelo meu bisavô Reinaldo no início dos anos vinte. Era um espaço amplo, todo decorado com espelhos e cristais. A comida era preparada pela minha avó. Na mesa, vinte pessoas loucas por bons pratos, assuntos e dinheiro. Dinheiro, principalmente. 
Quando vovó morreu, há mais ou menos vinte anos, houve uma pausa nos encontros. Dois meses após o enterro, ele inventou de fazer um revival. Justo. Um almoço único em lembrança de vovó. Todos foram. Nenhuma lágrima foi derramada. Hoje em dia, porém, os almoços estão cada vez mais raros. Os tios já não criticam mais o Sistema; as vinte pessoas se reduziram a dez e o almoço é feito de má vontade pela esposa do meu tio Gérson. 
Os anos passam para todos nós. 
Virei cantor. Vivo fazendo cover nos bares do Leblon e da Gávea nos finais de semana em busca de uns trocados. A barba é sumariamente raspada, a pele fica lisa feito a bunda de um neném. Hoje em dia eu não sou mais aquele moleque que os tios costumavam fazer brincadeiras politicamente incorretas. Tio Gérson, por exemplo, não olha mais no meu rosto. Mamãe disse-me que ele ficou extremamente deprimido pela vida ter ficado comum e boa demais. Tio Gérson diz que falta algo para lutarmos. 
Não discordo. 

II. Almoço 

O último almoço se realizou na casa do meu outro tio, Danilo, que é um velho decadente morador do Leblon. De vez em quando ele me vê cantando em algum bar, mas nunca para pra escutar. Sinto que ele tem vergonha de mim, assim como o resto da família. 
Comíamos um ensopado de carne com batatas douradas. 
Tio Gérson me olhou, deu um gole no vinho e disse: 
- Você está mudado. 
Tirei o garfo da boca. Mastiguei rapidamente o bolo alimentar e engoli. Respondi: 
- Eu? Eu não estou mudado. 
Minha mãe, que nunca falava nada durante os almoços, herança dos tempos áureos de repressão feminina, se manifestou. 
- Seu tio está certo. Você realmente está mudado. Se produz todo, não fez faculdade... Boa observação, Gérson. 
- Obrigado, Diva. 
Diva é o nome da minha mãe. Acho que antigamente as pessoas não tinham muita decência na hora de escolher os nomes. É um pior que o outro. 
Tio Gérson deu mais um gole no vinho. A mesa havia parado de comer, agora era eu contra nove. Ele continuou: 
- Não estou gostando disso. É olhar os retratos antigos e ver que você não é mais o meu sobrinho, aquele que eu brincava, aquele que ouvia tudo o que eu dizia sem compreender nada. Aquele que, com sete anos de idade, me pediu para explicar o que era um torturador! 
Aquela fala deixara o jantar tenso. Agora tudo se voltava contra mim, eu era o grande vilão da história. Com o tempo aprendi a refratar críticas e botar pra dentro só as coisas positivas de cada situação. Aquele almoço não tinha nada de bom. 
Dei uma garfada, demorei bastante para engolir. Queria que a tortura e a raiva se acumulassem neles. Babacas. 
Falei: 
- E daí se eu mudei? Vocês deixam de viver por causa disso? Altera algo se eu estou mudado? Convenhamos, há vinte anos almoçamos pra cumprir tabela. Vovó deve estar se matando há vinte anos lá no céu... 
Tio Danilo deu um soco na mesa. 
- Moleque! Tenha respeito pela sua avó! 
- E vocês tinham? - retruquei. - Vocês tinham algum respeito por ela? Invadiam a casa dela só pra comer, a velha ficava fazendo comida que nem uma louca e vocês só queriam saber de política, dinheiro, futebol, política, dinheiro, futebol, política, dinheiro, futeb.... 
- Você não sabe o que diz!  - falou mamãe. - Sua avó tinha prazer em fazer os almoços. 
- Ela tinha esperança, isso sim! 
Tio Gérson deu um gole no vinho e disse: 
- Esperança? Esperança? Ela tinha prazer nos almoços, sorria pra todo mundo! Esses moleques... 
Eu ri. 
- Tio, faça-me o favor. Ela ria, fazia de tudo pra ter um, só um mísero agradecimento. E vocês agradeciam? Não. Uma vez, depois de um dos almoços em que dormimos em Itaipava, acordei no meio da madrugada. Encontrei vovó chorando no sofá com o livro de receitas na mão. Quem pegou o livro de receitas quando ela morreu? Eu! E sabe por quê? Porque ali ela anotava os dados de cada almoço. Pensamentos que ela tinha! E sabe o que vovó dizia? Que todos vocês, sem exceção, não valem nada! 
Olhei o rosto de cada um. Nove pessoas me crucificando mentalmente, me metralhando mentalmente, me tirando a vida mentalmente. Pontencializar a raiva alheia da pior forma possível. 
Tio Gérson pediu licença, arrastou a cadeira no chão com aquela bunda gorda e foi para a cozinha. Minha mãe fez o mesmo. E o resto. Fiquei sozinho com o filho pequeno do meu primo Robson, o Miguel. Miguel tem cinco anos, ainda não entende as nuances da vida. Ficava me encarando com medo. Seus olhos são negros como petróleo. Imbecil. Estou cercado de imbecis. 

III. Consequências 

Depois do almoço. 
Saio andando pelas ruas do Leblon em busca de algo que me tire desse monstro interno que insiste em mandar pra longe o resto de vida que eu tenho. Acho que não falei, mas sofro de Esclerose Lateral Amiotrófica. Não dou dois anos para morrer. Prazo de validade. Todos nós temos um. 
Não encontro nada nas ruas do Leblon, apenas famílias sorridentes voltando dos almoços típicos de domingo, aquela coisa bem cínica que as pessoas fazem para amenizar o sofrimento da segunda-feira. 
Volto para casa. 
Apanho na estante o caderno de receitas. Abro numa página aleatória. 

Hoje aconteceu mais um almoço. Não sei o que está acontecendo, todos eles estão cada dia mais infelizes e ingratos. 

Volto para o início. 

3 de Maio de 1941. 
Comprei este caderno na saída da Colombo. Mamãe achou que eu precisava anotar receitas em algum lugar. Espero que este caderno me dê muitas alegrias. 

Última folha. 

3 de Maio de 1991 
Cheguei, enfim, à última página deste Caderno de Receitas. Estive fazendo um recapitulamento de tudo o que aconteceu nas últimas décadas. O Caderno não me deu alegrias. Alguém ainda vai me dar alegrias? 

Duas semanas depois ela morreu. 


IV. Considerações Finais 

Não sei o que pode ser feito. Os almoços nunca mais devem ocorrer. Creio eu que seremos jogados ao limbo, como vovó disse em uma das anotações. A humanidade tem um problema constante de memória, é como se estivéssemos em um Alzheimer eterno. Daqui a mil anos nossa família não saberá o que acontecia nos almoços. Mas e daí? Que importância algumas dezenas de almoços têm? Zero. As pessoas deveriam ter mais compaixão com as outras. Se você estiver lendo isso, não dê atenção à minha palavra, estou ficando todo atrofiado e posso ser considerado um indivíduo de caráter duvidoso. Já não canto mais. Deixo essa tarefa para os pássaros. Eles conseguem entreter muito mais do que um cara barbudo numa cadeira de rodas. Outro dia eu estava pensando no porque de não fazer mais a barba. Pra quê gastar espuma e tempo, este ultimamente tem estado bastante curto, para uma coisa que não consigo mais tocar? É, não toco mais meu rosto. Uma enfermeira (pega mal chamar de babá), cuida de mim. Me dá banho, troca minhas roupas e lê histórias policiais. Nessas histórias a morte é uma constante e, invariavelmente, ocorre de maneira rápida. Mas elas são parte de romances. Romances são ficcionais. Não existe possibilidade de minha morte ser rápida. Será lenta. Estou morrendo a cada segundo, nunca por inteiro, sempre por frações. Busco na leitura recuperar, pelo menos por um instante, a habilidade de dividir parágrafos. 
Será que algum dia conseguirei? 
Não sei. 

 

Bennett e o médico na chuva


Cintia trouxe o macarrão na bandeja, bastante fofinha e muito mais cheinha. Mas eu não ligava. Nossa amizade bizarra havia se tornado mais que amizade, ou seja, nós nos encontrávamos para foder de vez em quando. Cintia não queria o meu amor, e tampouco eu fazia questão de emaná-lo. A única coisa que nós exigíamos era sexo. 
Ela disse: 
- Vê se come essa porra toda, não sou sua escrava. 
- Sim, mamãe - respondi. 
Cintia não respondeu. Falei de sacanagem, sabia que ela ficava puta. Era uma sexta-feira à noite e chovia bastante. 
Falei que tinha de ir jogar poquer com uns amigos. 
- Porra nenhuma - disse ela. - Se você sair por essa porta eu nunca mais te vejo na vida. 
Terminei de comer a macarronada, vesti minha roupa e saí. Cintia estava no banho e só deu tempo de ouvir seus gritos insandecidos. No corredor, eu morria de rir. Por dentro, sabia que ela iria voltar, mas uma ponta de razão ecoava falando que não poderia ser assim tão fácil. 
Ah, a razão, sempre fodendo com as nossas vidas. 


Eu costumava me reunir com uns amigos para jogar poquer uma vez por mês. Os encontros aconteciam na casa do Armando, único solteiro da turma que se disponibilizava a ceder sempre o apartamento. Era um lugar amplo, de frente pra rua barulhenta, vulga rua das Laranjeiras. Naquela noite os ônibus passavam mais barulhentos que o normal, talvez porque o ponto ficasse a poucos metros do prédio e o trânsito ficava cada vez mais engarrafado. 
Armando morava no décimo primeiro andar. 
Abriu a porta e me indicou o caminho que eu já conhecia. 
Sentados à mesa, meus outros três companheiros de jogo me saudaram erguendo os copos de uísque. Tínhamos, acima de tudo, bons hábitos tabagistas e beberrões. Seja lá o que isso signifique. 
- Estamos esperando pelo Oswaldo - disse Armando consultando o relógio, um Rolex. Armando era médico de high society, o mais fodido dali era eu. Nasci com a bunda virada pra dentro mesmo, a lua sempre foi um sonho distante. 
- O Oswaldo nunca se atrasa - falei, acendendo um cigarro em seguida. 
- Pois é, mas dessa vez se atrasou. Em uma hora, por sinal. 
Pausa de apreensão. Todos nós começamos a ficar preocupados. De fato, o Oswaldo era um cara muito metódico, aquele sumiço estava estranho. Esperei três trovoadas e apanhei o telefone em cima da mesinha. Era hora de falar com  dona Lurdes, esposa do Oswaldo há mais de trinta anos. Rico que é rico se fode cedo. Não bastava o Oswaldo ser gordo, tipo um Nero Wolfe. Ele tinha de ter se casado aos vinte anos. Tem doido pra tudo. 
- Lurdes, aqui é o Bennett. Escuta, seu marido sumiu. 
- Eu sei - respondeu ela com a mesma voz rouca de sempre. - Não ligou até agora, imaginei que vocês estivessem jogando. 
- Estamos esperando pelo gordo. 
- Já tentei o celular, ele não atende. 
Comecei a ficar preocupado. Detetive particular tem esse sexto sentido, é foda. 
Falei: 
- Ele saía do consultório direto pra casa? 
- De vez em quando, Bennett. Tinha dias que ele preferia dar uma volta na Lagoa, ficar parado ali perto do Parque dos Patins.
- Está chovendo à beça, duvido muito que o Oswaldo tenha ido pra Lagoa. 
- Qualquer coisa, então, te mantenho informado - disse Lurdes, desligando em seguida. 
Meus amigos davam goles longos no uísque enquanto embaralhavam pela milésima vez as cartas. Eu estava ficando sem paciência. Um trovão cortou nossos ouvidos. 
Armando disse: 
- Conheço essa sua cara, Bennett. Quer ir lá fora ver se encontra ele? 
Mais uma trovoada. 
- Quero - falei. - Meu sexto sentido não falha. 



Levei meia-hora para chegar ao Parque dos Patins. Em dias de chuva o entorno da Lagoa fica alagado, a travessia de pedestres é quase impossível. Oswaldo costumava ficar no estacionamento fumando um charuto Corona e tomando uma cerveja. Naquela sexta-feira o estacionamento estava vazio. 
Voltei para o carro. Cintia telefonou. 
- Você é um filho da puta. 
- Também te amo. 
- Não ama. E continua sendo um filho da puta, talvez ainda mais por ter falado isso. Não use a palavra do Amor em vão. 
- Amor. Te amo. 
- Babaca. 
- Linda. 
- Para de mentir. 
- Adeus, tô no meio de uma investigação. 
Desliguei e joguei o celular no banco do carona. 
O próximo passo seria visitar o consultório do doutor Oswaldo. Sim, ele também era médico. Armando lidava com bocetas e crianças, ou seja, obstetra; já o Oswaldo era mais burro, preferia lidar com aquilo que ninguém entende, o coração. A sorte é que ele era bastante respeitado naquela área. Ainda bem, pois lidar com coração e se foder na vida é dose. 
Parei o carro no estacionamento do prédio. Esses estacionamentos andam cada vez mais caros, dez reais a hora é um absurdo. O prédio ficava aberto vinte e quatro horas, tinha doutor que dormia no próprio consultório. Como o regulamento interno não proibia essa prática, um segurança ficava dando expediente na portaria madrugada adentro. 
Subi de escada os cinco lances até chegar ao consultório. Toquei a campainha duas vezes. Uma luz fraca vinha lá de dentro. Fiquei esmurrando a porta até cansar. De vez em quando uma trovoada invadia meus ouvidos. Uma merda. 
Arrombei a porta. 
Sala de espera revirada, revistas no chão, sofá rasgado, televisão quebrada. A única luz daquele consultório vinha do interior da sala do doutor Oswaldo. 
- Oswaldo? - indaguei, recebendo como resposta uma voz invisível e inaudível. Bacana, eu estava lidando com fantasmas. 
Empurrei a porta com cuidado, sempre tive medo em encontrar cidadãos pelados em momentos de self-pleasure. 
A sala estava vazia. Entretanto, parecia estar na mais perfeita ordem. Abri as gavetas e os armários, não havia nada além de recibos, cheques, envelopes de pagamento e pastas coloridas. Oswaldo era um homem organizado. 
Em cima da mesa, receituários, papeis, o computador e uma garrafa de vodca.Sorri. Eu tinha acabado de encontrar a causa da quebradeira da sala de espera. 
Liguei o monitor. O e-mail estava aberto. 

Consegui a transferência. Nosso ônibus é o 0430 saindo daqui a meia hora da Novo Rio. Te espero lá, beijos L. 

L. Luiza. Letícia. Lorena. Lorna. Lollobrigida. 
Tirei o celular do bolso e liguei para o Armando. 
- O safado fugiu com uma amante. 
- Mentira. 
- Juro. Recebeu um e-mail de uma certa madame L. dizendo que o ônibus deles parte da rodoviária daqui a meia hora. 
- Lê esse e-mail pra mim. 
Eu li.
Silêncio. 
- Bennett, você ainda está no consultório? - indagou Armando. 
- Estou. 
- Sai daí agora. 
- Por quê? 
- Sai daí, tô falando... Vem pra cá, eu já sei o que aconteceu. 
Voltei pela Lagoa. O trânsito havia melhorado consideravelmente. Quando estava passando pelo Parque dos Patins, vi o carro do Oswaldo estacionado. Luz interna acesa. Estacionei no meio das vagas, de qualquer jeito mesmo, e saltei. Em dois segundos eu consegui ficar mais molhado que a Cintia com lubrificante. Uma beleza.
As vidraças estavam embaçadas. 
Dei duas batidas na porta. Sem resposta. 
Coloquei a mão na maçaneta e puxei. Com um pequeno clique, a porta se abriu. Sentado no banco do motorista, mão esquerda no volante, Oswaldo jazia morto. Na têmpora, um buraco de bala. No banco do carona, sua mão desfalecida com a arma e o dedo no gatilho. 



Os legistas chegaram mais mau-humorados que de costume. Sexta-feira chuvosa, nada melhor que fazer exames em mortos. 
Um policial cujo nome eu não me lembro tomou meu depoimento. Falei que era detetive particular, mas fiz questão de pontuar que o Oswaldo era meu amigo. 
- Isso aí foi suicídio - disse ele.
- Não precisa me dizer - falei.
Um barulho extremamente agudo se fez ouvir. Lurdes havia parado o carro de forma brusca no meio da chuva. 
Veio correndo até mim. 
- Bennett, cadê meu marido! Bennett! Diz que ele não... diz que... diz... 
Baixei a cabeça e disse um sim lacônico. 
Lurdes me abraçou. 
Choramos. 
Voltei para casa. Cintia me esperava deitada na cama assistindo a um vídeo pornô no DVD. Mais uma coisa que eu gostava nela: desinibição total. 
- E aí, jogou seu truco? 
- Poquer. E não, não joguei. 
- Ótimo - ela mordeu o lábio inferior. - Agora vem aqui descontar essa raiva em mim. 
- Não posso. 
- Por quê? 
- Meu amigo, o Oswaldo, acabou de se suicidar.


Eram três horas da manhã, eu já estava no décimo sono, quando o telefone tocou.
- Bennett, aqui é o Costal, do IML. 
Eu conhecia o Costal de vista, era um dos melhores peritos, adorava um caso de assassinato. Ou morte. Tinha cabelos e bigode brancos feito neve. Usava óculos de aro com um grau alto. 
- Diga lá - falei. 
- Seu amigo tem um buraco no peito. 
Não precisa ser nenhum adivinha pra saber que o Oswaldo havia sido assassinado, então. 
- Como assim? 
- A arma é a mesma - disse o perito. - Acredito que o primeiro tiro tenha sido dado no peito, à queima roupa. Depois fizeram parecer que foi suicídio... 
O que é uma imbecilidade, pois a perícia ia descobrir os dois buracos. Esses assassinos de hoje são tão burros. 
- O resto eu já sei - falei. - Tenta rastrear o dono da arma. 
- Isso aí é com o delegado Barreto, ele está encarregado das investigações. 
- Costal, o Oswaldo era meu amigo. Quebra esse galho, vai. 
- Vou ver o que eu posso fazer. 
Desligamos. 
Cintia havia acordado no meio da conversa, seus olhos pareciam duas figuras ovais negras e gordas de tanta maquiagem. Cintia era branca, parecia um panda naquela situação. 
 - O que aconteceu? - perguntou. 
- Mataram o Oswaldo. Tiro no peito, não foi suicídio. 
- Ah. Agora me deixa dormir. 
Virou para o lado. Não preguei o olho durante a noite inteira. Será que minha indiferença para com os seres humanos estava chegando ao fim? 



Sábado, quatro da tarde. 
A chuva havia dado uma trégua, mas as nuvens permaneciam carregadas. Alguns pontos da cidade permaneciam alagados, como informou a repórter do telejornal. 
Cintia havia voltado pra casa. Retornaria à noite para mais uma sessão de antropofagia. 
O celular tocou. 
- Bennett, é o Armando. Estou tentando falar contigo desde ontem, mas tu não atende esse celular. 
- Você disse que sabia sobre o Oswaldo. 
- Posso passar aí? 
- Deve. 
Ele veio vinte minutos depois metido num suéter azul-escuro e calça jeans. O Rolex continuava a se sobressair naquele braço. Ricos... 
Ofereci um uísque, Armando recusou. 
Sentamos de frente um pro outro em poltronas separadas. 
- Diga lá - falei. 
- Está bem. Ok, vamos lá: o Oswaldo me procurou há alguns meses para falar que estava saindo com uma menina mais nova chamada Luiza. A princípio eu condenei, mas depois percebi que ele nunca estivera tão feliz. A Lurdes e ele não andavam bem, sabe? O Oswaldo ia fugir com essa menina nesse final de semana. 
Fácil, porém complicado. Antítese perfeita. 
- Qual o sobrenome dessa garota? 
- Alencastro. 
Puta que me pariu, isso é praga, só pode. 
- Diz que é mentira. 
- Juro. 
A Luiza era filha de um velho conhecido meu, Rogério Alencastro. Certa vez eu dei uma investigada numas contas dele, Rogi acreditava estar sendo roubado. Se matou dois meses depois. Suicidas estavam virando uma obsessão na minha carreira. Ou no destino, não sei dizer. O fato é que a Luiza sempre foi muito mimadinha. Garota mimada tende a se apaixonar por homem comprometido, rico e mais velho. Combinação mortal. 
- Eu sei o endereço dela, pode deixar comigo - falei. 


O apartamento dos Alencastro ficava na Vieira Souto. A mãe da garota, Cida Alencastro, estava viajando a trabalho. A empregada me conhecia, me deixou entrar. 
- Eu lembro de você. Tu não é o... 
- Bennett - respondi. Ela tinha um sotaque agudo de nordestino, beirava o escatológico. Eu me divertia. 
- O que aconteceu? 
- A Luiza está por aí? 
- Lá no quarto - a empregada apontou para um corredor. - Anda ouvindo muita música, essas coisa de rock, sabe? 
Agradeci. Dei duas batidas na porta. 
Ela abriu rapidamente. Vestia uma calcinha rosa de renda e uma camisa amarela. 
- Ei, eu lembro de você. 
Os peitos haviam crescido, ela já devia estar toda arrombada. Uma delícia. Os olhos estavam inchados. 
- Preciso falar com você - falei. 
- Não quero falar com ninguém. Daqui a pouco a polícia vai chegar até mim e... 
- Relaxa aí, bonitinha. Coloca um short e vamos conversar. 
Ela pediu para que eu esperasse. Voltou dois minutos depois com um short mínimo. Não fazia diferença ter posto ou não a peça. Essa juventude de hoje...
Luiza disse:
- Eu já soube do que aconteceu. 
- Como? A imprensa ainda não divulgou. 
- Eu estava passando de táxi quando vi o carro dele parado lá. O Oswaldo estava na chuva discutindo com alguém, não sei quem. 
- Tem certeza? 
- Absoluta. Chegavam a quase se bicar. 
- Você disse que passou de táxi. 
Ela mordeu o lábio e disse: 
- Exato. Pedi pro taxista dar uma parada e saltei. Olhei a cena e vim embora. 
- Não ajudou por quê? 
- Me pareceu perigoso. 
Falei: 
- Você é uma puta ladra de velhos carentes. 
- Talvez. 
Fui embora em seguida, odeio gente cínica. De babaca na minha vida já basta eu. 


O perito Costal me ligou no domingo de manhã. 
- Virei a noite tirando digitais da arma. A maioria é de traficantes, é uma arma rodada. Mas não pertencia ao morto,  Bennett. 
- Não? 
- Não. Era da esposa dele. 


Lurdes me recebeu com entusiasmo. 
- Bennett! Que bom te ver! 
- Digo o mesmo. 
- Aceita um cafezinho? 
- Pode ser. 
Voltou dez minutos depois. Sentei no sofá, ela permaneceu me encarando. 
- Que foi, você está estranho, Bennett. 
- Por que você matou o Oswaldo? 
- Hã? 
- Vou repetir: por que você matou o Oswaldo? 
- Ficou maluco, Bennett? 
Tirei minha arma do bolso, uma 38 que comprei de um ex-traficante, e apontei na direção dela. 
Falei: 
- Tudo bem que ele quisesse terminar com você, mas... 
- Terminar comigo? Bennett, ficou maluco? 
Comecei a duvidar dos fatos. 
- O homem do IML me ligou ainda pouco, disse que a arma que matou seu marido era sua. 
- Impossível. 
- Você não tem uma arma? 
- Tenho, fica dentro do meu cofre. Não sai de lá há pelo menos dois anos. A última vez que eu e Oswaldo usamos foi com bala de festim, na casa de Itaipava. Tiro ao alvo. 
Lurdes não parecia estar mentindo. Mas ela era mulher, sempre desconfie das mulheres. 
- Alguma coisa está errada - falei. - Alguém matou seu marido, e a arma era sua. 
Antes que ela pudesse responder, Armando surgiu da cozinha e atirou contra o corpo frágil de Lurdes. 



- Eu deveria ter desconfiado - falei. 
Armando riu. O Rolex sorria para mim, preferi ignorá-lo. Estávamos os dois de pé na sala apontando nossas armas para o nariz alheio. Sangue frio. 
- O Oswaldo era um burro - disse ele mostrando os dentes amarelados. - Descobriu que eu comia a esposa dele, aí já viu. 
- Te ameaçou, chantageou. Tu ficou puto, foi tirar satisfação, enviou um e-mail falso dizendo que ia fugir com a esposa dele... 
- Matar ele foi fácil. 
- Pra quê o segundo tiro? Digo, você não é burro de achar que a polícia não iria fazer autópsia e ver o buraco no coração. 
- Lógico que não, foi por puro capricho. Deixar o feio ainda mais feio, você sabe. 
Minha mão começou a coçar. Era meu dedo querendo pressionar aquele gatilho. Qualquer resquício de amizade que eu pudesse ter tido com o Armando havia desaparecido. Me sentia como César sendo apunhalado por Brutus no senado romano. 
Falei: 
- Achei engenhoso você ter usado a Luiza como pista. 
- Ela tentou me chantagear, vai ser a próxima a morrer. Fui otário de cair na lábia dela, a garota é safada. Dá como ninguém. 
Caso eu fosse sobreviver, precisava de um espaço pra Luiza Alencastro na minha agenda de comidas futuras. Ela parecia ser um ótimo restaurante. 
O corpo de Lurdes começava a parar de escorrer sangue. O carpete estava empapado de hemoglobinas e plasma. Argh. Uma pena ela ter morrido, caiu nas graças do Armando e escorregou pra morte. Ficou claro que morreu pra que ele ganhasse a grana dela. Deve ter rolado algum esquema de testamento, não é possível. 
- Acredito que você queira tanto me matar como eu quero fazer contigo. 
Armando sorriu. 
Falou: 
- Só você largar a arma. 
Lentamente, baixei a arma. Um sorriso foi-se formando naquela boca feia dele. Quando cheguei a poucos centímetros do chão, joguei meu peso para o lado e disparei. Uma bala acertou em cheio o ombro direito. A outra cruzou os ares. Armando caiu atrás de uma mesa, a qual ele tombou e usou de escudo. 
Trocamos alguns tiros. 
Num descuido dele, acertei seu queixo. Ainda não estava morto, mas se a ambulância não chegasse, estaria. O tiro pegou de raspão, entrando pela boca e saindo pelo final da bochecha. O sangue jorrava. 
Disquei para a ambulância e apanhei o carro. Tinha de ir para o hospital o mais depressa possível.
A chuva voltava a cair forte e eu queria distância da polícia. 
Quando cheguei em casa, Cintia havia ido embora. Deixou um bilhete em cima da mesa. 

Não vou ficar te esperando. Não sou sua escrava, já disse. Quando quiser passar um final de semana decente comigo, me liga. Você tem meu número. 


Mulher é foda. 
 
 

Bennett e o manuscrito


Prólogo 

Bennett acordou com a parte de trás da cabeça bastante dolorida. A pancada que levara havia aberto um rombo em seu crânio, jorrando sangue pra tudo quanto era lado. Sentiu o pedaço de pano que fazia as vezes de bandagem, contribuindo para estancar o líquido. Os olhos não processavam imagens, ou seja, não conseguia enxergar com clareza; compreendia apenas algumas manchas no campo visual. Nenhum sinal de som. Então, um ruído abafado vindo de cima reativou toda sua memória. Deitado no chão, sentiu o corpo entrar em estado de suspensão, batendo com as costas no que parecia ser um teto. Caiu em seguida, sentindo o rosto molhado e o chão virando água. 


Um 


Cintia me olhou e disse: 
- Você precisa botar anúncio no jornal, que é para as pessoas saberem que você existe e quer cuidar dos problemas idiotas delas. 
Respondi que aquilo não era minha praia. 
- Deixa o orgulho de lado - disse ela. - Você é um imbecil, vai acabar morrendo de fome debaixo da ponte porque não colocou a droga do anúncio. 
- Vou virar mendigo só porque não coloquei um anúncio no jornal? 
- É o que eu estou dizendo. 
Virei pro lado e dormi. Não estava afim de libertar meu orgulho às duas da manhã. 
Acordei por volta das nove horas. 
Cintia havia voltado para o trabalho, aquela loja de discos imunda em algum lugar do Centro, frequentada especialmente por velhos e colecionadores metidos a besta. Preparei um café com leite, comi um pedaço de pão e decidi ir até o escritório de um desses jornais meia-boca pra colocar meu anúncio nos classificados. 

DETETIVE BENNETT 
Resolvo crimes, mistérios, roubos e furtos. Não trago pessoa amada. 


Embaixo deixei meu telefone. 
O escritório ficava numa ruazinha estreita, na parte velha do Centro. A mocinha que me atendeu parecia ser bastante solícita - digo parecia porque não prestei atenção nas atitudes dela, sabe como é, fica difícil quando há um par de peitos deliciosos saltando pra fora de um superdecote. 
Ela tinha voz macia. 
- Os classificados só saem semana que vem - disse, apoiando aquelas duas belezinhas em cima do balcão. Entregou uma folha cheia de formulários pra eu preencher e agradeceu. 
Antes de sair, porém, decidi dar uma investida. 
- Escuta, você costuma comer aonde? 
- Tem um restaurante a quilo aqui perto, muito bom. Por quê? 
Sorriso na boca. Vai que é tua, vai que é tua. Mire a presa, Bennett, mire a presa e dê o bote. 
Falei: 
- Quero comer contigo. 
- Achei que ia trocar o contigo por você. 
Levei um tempo pra entender a piadinha. 
- Não que seja má ideia - respondi. 
Papo vai, papo vem, descobri que o nome dela era Miriam, tinha vinte e dois anos. Ao que tudo indicava, meu jantar estava garantido. 
Saí do escritório e passei na loja de discos. Cintia estava sentada atrás do balcão falando com o colega de trabalho, um magrelo com jeito de viado que usava aliança. As pessoas têm medo de sair do armário, aí não dá. 
- Você por aqui? 
- Coloquei anúncio no jornal - falei. - Vai que você tá certa, sua macumbeira. 
- Deixa de drama, rapaz. Ó, vai dar tudo certo, confia na Cintia, mizifio. 
- Piadista, você. 
- Leio pé, mão, faço cutícula e trago a pessoa stalkeada em três links. 
- Por isso que eu te amo. 
O viadinho, que olhava uma coleção lacrada do Led Zeppelin no fundo da loja, tossiu alto. Meu tempo tinha acabado. Antes de sair, olhei pra trás. Cintia sorriu e fez um gesto com a mão. Definitivamente, eu não queria tomar. 

Dois 

Aldebaran Rebelo tinha setenta e sete anos, duplo sete. Cabelos aparados, brancos e penteados, vestia um paletó à moda antiga quando veio me procurar. 
- Vim por causa do anúncio - disse ele com a voz rouca. Velho é foda, não quero ficar rouco assim quando estiver pra morrer. Sei lá, não me agrada. 
Peguei meu bloquinho branco, uma caneta bic e mandei ele soltar o verbo. 
- Basicamente, detetive, a história é a seguinte: eu tenho um manuscrito raríssimo, o qual comprei em um leilão. Trata-se de uma história inacabada de Machado de Assis. 
- Leilão informal, o senhor quer dizer. 
- Sim, lógico. Atualmente, no mercado negro, conseguiria uns 35 mil por ele. 
- São muitos reais - falei. 
- Dólares, detetive. Dólares. 
Nós tínhamos um problema. 
Olhei o Aldebaran. Estava arrasado. 
- Quando foi que o manuscrito sumiu? - perguntei. 
- Semana passada, acredito que na quarta-feira. É, isso, há uma semana que o manuscrito sumiu. 
- Circunstâncias, doutor Rebelo. 
Ele pigarreou e disse: 
- Eu saí pra sacar dinheiro no banco, deixei o manuscrito em cima da mesa de jantar. Quando voltei, ele havia sumido. Sabe como é, estou de mudança, indo pro Mato Grosso, quero morrer em paz. 
- O senhor mora sozinho? 
- Bem que eu queria. Tenho um casal de filhos que vivem às minhas custas. Mas nenhum deles poderia ter pego o manuscrito. 
- Por quê? - perguntei. 
- Ambos estavam fora de casa. Meu filho foi pra Colômbia, ele é engenheiro, e minha filha trabalha em consultório. Excelente médica. 
- O senhor informou à polícia? 
- Não - respondeu ele, enfático. - Policiais só trazem problemas. 
Verdade. Até que pra um velho, o Aldebaran estava muito esperto. 


Na tarde de quinta-feira eu decidi começar os trabalhos. Antes, porém, todavia, mas, também, eu tinha que ligar pra Miriam. 
- Achei que não fosse mais me procurar, senhor detetive. 
- Acho errado. Escuta, que tal eu te levar pra uma degustação de comidas alemãs agora, no almoço? Uma deliciosa sausage do Tirol. Ou qualquer que seja a região onde fazem salsichas. 
- Eu acho ótimo. 
Decepção. A garota não sabia trepar, ou seja, fazia tudo errado. Dei sorte de não ter ficado com marcas de dente no pau. Essas mulheres de hoje andam muito relapsas. Por isso que eu gostava da Cintia, ela nunca me deixava na mão. Pelo contrário, sempre botava aquela mãozinha pra trabalhar. Enfim. 
O filho do Aldebaran Rebelo, José Henrique, já havia retornado de viagem. Morava em um agradável apartamento no Jardim Botânico. Nunca vi tanto verde na vida, talvez esse tenha sido o motivo de ter ido comer umas carnes depois da conversa. 
José Henrique tinha cabelos pretos, olhos castanhos e estava todo de azul. Gente supersticiosa é foda. 
- Seu pai me contratou pra procurar o manuscrito do Machado, não sei se ele falou. 
- Ah, então você é o homenzinho que ele ia chamar. Ele comentou sobre o ocorrido, sim. 
- Bennett, prazer. 
- José Henrique. 
A empregada trouxe um copo d'água. 
Falei: 
- Quando você chegou da Colômbia? 
- Há dois dias, portanto, na terça-feira. De manhã, bem cedinho, não devia ser nem oito horas. 
- E quando você foi? 
- Uma semana antes. 
Anotei as informações no bloquinho. 
- Você tem filhos? 
- Não. Não gosto, dão muito trabalho. Em compensação, tenho um cachorro. 
José Henrique bateu palmas e um yorkshire veio correndo na minha direção, latindo que nem um retardado. Lambeu meu sapato, deu uma volta ao meu redor e voltou pra cozinha. Odeio cachorros. 
Agradeci e fui embora. Aquela profusão de verde não ajudava no pensamento, e tampouco a conversa com o cara me era satisfatória. Ser detetive é uma merda. 

Três 

Doutora Angela Gouveia Vieira e mais dois nomes pregados na porta. Consultório 915, prédio desconhecido em Ipanema. Sala de espera lotada, duas secretárias e muitos telefonemas. A televisão estava ligada e passava um daqueles programas de fofoca, feitos única e exclusivamente pras madames das classes burras sem conhecimento. Mas também não faz sentido ser classe A, todos são intelectualmente medíocres. Somos uma sociedade burra, afinal. 
Fuzilei a recepcionista mais feia e disse: 
- Preciso falar com a dona Angela. 
Por trás da janela, o sol de sexta-feira iluminava minha cara. Resolvi dar uma folga de um dia entre um irmão e o outro. Cansaço é foda. 
A recepcionista olhou no computador e perguntou se eu tinha hora marcada. Falei que não era paciente, que queria ver a doutora porque o pai dela pediu. 
Ela remexeu uns papeis e conferiu um recado. Provavelmente o Aldebaran Rebelo devia ter dito que eu ia até lá durante os próximos dias. 
Angela Gouveia Vieira e mais dois nomes pregados na porta. Loira platinada, daquelas de farmácia mesmo. Vestia um avental e calçava luvas de látex. Era ginecologista, delícia de profissão, não fosse ter que assistir um dos melhores lugares que a natureza já fez ser arrombado por uma criatura que, em breve (coisa de quinze anos), virará um inferno. É foda. 
- Meu pai deixou o recado, já aguardava por você - disse ela, a voz parecendo com uma gralha. Virou pra secretária e disse: - Segura os pacientes, vou ter um assunto sério com o doutor Bennett. 
Algumas pessoas na sala riram, achavam que eu ia foder ela. Não, que é isso, sou um rapaz comprometido. E minimamente traidor. Depois da experiência com Miriam eu tava afim era de esquecer um pouco essa problemática toda das mulheres. Elas fingem orgasmo e depois reclamam que são traídas. 
Angela sentou, desligou o monitor do computador e disse: 
- Pode começar. 
- O manuscrito sumiu, isso você já sabe. 
- Sei. 
- Onde você estava quando o roubo aconteceu? 
- Aqui no consultório, você pode perguntar pras meninas da recepção. 
- Não precisa. Seu pai era muito apegado ao manuscrito. 
- Eu sei. 
- Dona Angela, como vão suas finanças? 
- Muito bem. Nunca tive tanto lucro, acho que foi por causa do anúncio. 
Bingo, Cintia. 
- Ah, você colocou anúncio também? 
- É um mal necessário. 
- Não vou mais tomar o seu tempo. 
- Eu agradeceria. 


Rua. Seis da tarde. 
Saí da livraria e puxei o celular. 
Clique. 
- Franco, sou eu, Bennett. 
- Puta merda. 
- Busca pra mim uma coisa aí. 
- Diga lá. 
Franco era um ótimo informante, por isso que eu não me cansava dele. 
- Procura com seus amigos da polícia as finanças da dona Angela Gouveia Vieira e de um certo José Henrique Rebelo. São irmãos. 
- Com nomes diferentes? 
- Família é uma merda, muda tudo conforme o tempo passa. Anda, procura. 
- Daqui a duas horas eu te ligo. 
Clique. 

Quatro 

Depois que Franco retornou a ligação, com um relatório minucioso das finanças dos dois - juro que não sei até hoje como ele faz isso -, liguei pro Aldebaran Rebelo. 
- Ah, Bennett! 
- Boa noite, doutor. Deixa eu te fazer uma pergunta: tirando seus filhos, há a possibilidade de alguém ter entrado no apartamento? 
- Só o porteiro, mas o Raimundo é gente boa, nunca leu Machado na vida, não reconheceria um manuscrito daqueles. 
- Ele trabalha amanhã? 
- Sábado? Trabalha sim - respondeu. - Por quê? Você acha que... 
- Ainda é muito cedo pra achar alguma coisa, doutor, mas espero que a conversa com ele revele alguma coisa interessante. 
Desliguei. 
O sábado amanheceu frio e gelado. Uma massa de ar provocaria uma chuva daquelas na parte da tarde. 
Raimundo trajava o uniforme padrão dos porteiros - camisa azul, nome do prédio bordado no peito e calça preta -, além do manjado bigodinho. 
- O doutor telefonou dizendo que o senhor viria. 
Sorri. Simpatia é a alma do negócio, propaganda é o cacete. 
Falei: 
- Sabe, a literatura é algo que me fascina. A possibilidade de criar personagens, mudar vidas, isso me deixa muito contente. É uma pena que eu não saiba escrever. Você acha que Capitu trau Bentinho? 
- Quem? 
- Esquece. 
É, ele realmente não havia lido Machado. 
- Você conhece Machado de Assis? - perguntei, efeito de confirmação. 
- É uma rua, não é? 
Ótimo. 
- Escuta, o aparetamento ainda está podendo ser visitado? 
Raimundo respondeu que sim. Apanhou as chaves dentro de uma gavetinha e me levou até o lugar. Era arejado. As janelas deixavam a luz entrar e encharcar a sala toda. Os quartos e os banheiros estavam limpos. O cofre onde devia ficar todos os documentos importantes do doutor Aldebaran escondia-se atrás do armário. Estava aberto. O apartamento estava vazio. 
Dizem que as coisas mais inesperadas ocorrem quando nosso corpo fala. Quem disse isso, se é que alguém já disse isso, está coberto de razão. 
Bateu uma vontade danada de ir dar uma mijada. Raimundo, solícito, liberou. Disse que aguardaria no corredor. 
Dentro da privada, um envelope inclinado escrito BENNETT. 
Abri. Mijei. Li. 

Marina da Glória. Seis horas. Não vá se atrasar. 

Quem quer que estivesse por trás do roubo do manuscrito, estava a par da situação, não ia deixar que eu, um detetive fodão, destruísse um trabalho e uma grana polpuda. Ser detetive é uma merda. 

Cinco 

Cheguei à Marina dez para as seis. O sol começava a se pôr, os postes acendiam suas luzes e os ventos aumentavam. Teríamos chuva e mar revolto. 
O carro contornou dois barcos e parou. O vidro baixou. 
- Bennett? Entre, temos de conversar. 
Arregalei os olhos. Tudo ficou claro na minha mente. Bom, nem tudo, mas grande parte da situação. 
- Tá achando que eu sou burro? 
- Então me encontra no barco. É o quinto, um iate. O nome é Riviera II. 


Seis 

A porrada foi forte. Assim que pisei no barco, levei um remo no crânio. Apaguei. 

Sete 

Cintia estava na loja quando o telefone tocou. 
- Alô. 
- Ei, sou eu, Bennett. Temos um problema. 
- Qual? 
- Recebi um bilhetinho intimidador. Tenho de estar na Marina por volta das seis da tarde. Se até as seis e meia eu não der sinal de vida, liga pro Franco. Ele vai saber o que fazer. Você tem o telefone do Franco? 
- Não. 
- Então anota aí. 
Cintia rabiscou num papel e guardou o número no fundo da calça. Rezou para não precisar dele. 


O barco cintilava. Estavam a cerca de setecentos metros da costa. Deixou o motor em ponto morto e conferiu o caixão de chumbo cheio de furos. Havia sido especialmente fabricado para aquele fim. Todo mês encomendava quatro deles, que abrigariam as vítimas dos próximos quatro meses. O fornecedor não apresentava resistência, o disfarce era perfeito. 
Com o uso de uma corda, manejada por uma alavanca, Aldebaran puxou o caixão. Com cuidado, deslizou-o pelo chão e deixou que tocasse a água. Foi com um sorriso que viu os olhos de Bennett se abrindo e afundando nas águas. 


O bote avançava rapidamente. Cintia e Franco vasculhavam com um binóculo o perímetro ao seu redor. 
Franco disse: 
- Ele me ligou mais cedo, disse que tinha recebido um bilhete, alguma coisa do tipo. 
- Pra mim também. Quando deu seis e meia e ele não avisou nada, te liguei. 
- Fez bem. 
Cintia perguntou quando ele comprara o bote. 
- Há dois meses. Estou pensando em abrir uma opção turística pra boate, sabe como é. Putas e strip de noite, ilhas e mergulho de dia. 
- Bom slogan. 
Riram. 
O bote avançou. Foi Cintia quem avistou o caixão de chumbo afundando. 


Epílogo 

Bennett acordou na cama do hospital. Uma bandagem bem mais segura e reforçada envolvia sua testa e os cabelos. Cintia estava sentada na poltrona lendo uma revista de celebridades. 
- O qu... 
Num salto, Cintia pulou da poltrona e parou junto a ele. 
- Shiu, cala a boca, você não pode falar. 
- O qu... 
- O Aldebaran morreu, não se preocupe. Dei um pipoco naquele filho da puta pra ele aprender a não machucar o meu neném. 
- Você é maluca. 
- Mandei você ficar quieto - disse ela, pousando o indicador sobre os lábios dele. 
- O que aconteceu? - disse Bennett, movimentando a fala devagar. 
Cintia suspirou e disse: 
- Depois que eu matei ele, um tiro muito foda, por sinal, chamei o Franco pra me ajudar a içar o caixão onde você estava. Em suma, o Aldebaran Rebelo era um serial killer. No antigo apartamento, o que ele vendeu, foram encontrados num cofre atrás do armário várias carteiras de identidade. A recordação do cara, do filho da puta. 
- E o manuscrito? 
Cintia riu. 
- Porra, vai ser foda te aturar agora, viu Bennett? Bateu com a cabeça e não se toca mais das coisas. Que mané manuscrito o quê, não tinha manuscrito nenhum. Ele só precisava de uma desculpa pra te arrastar e matar. Acho que quando as pessoas ficam velhas elas perdem a ginga, aí precisam desses artifícios. Ele tinha escrituras falsificadas das vítimas, todas elas muito solitárias. 
- Ele achou que eu era solitário? 
- Ele e os filhos. A mulher ajudava na falsificação, alguns mortos eram pacientes dela, o que explica muita coisa. E o cara viajava a trabalho e trazia instrumentos e presentinhos pro pai. Ele confessou que tinha colaborado com dois crimes. De forma direta, eu digo. Agora relaxa aí, você está há uma semana dormindo, tá pior que Bela Adormecida. 
Ele sorriu. Cintia voltou pra cadeira. 


Epílogo número dois 

O doutor Alexandre Cortázar, médico da clínica São Tobias, onde Bennett estava internado, apanhou o resultado dos exames neurológicos em cima da impressora. Um frio percorreu sua espinha. Seria uma notícia dura para aquele sobrevivente de uma tentativa de assassinato. 
Baixou os olhos e respirou fundo. 
No caminho para o quarto do detetive Bennett, Cortázar teve contade de sair correndo quando viu uma cadeira de rodas no corredor.  
 

João Alberto IV: Um novo político

Para Maria Clara. João Alberto de volta em grande estilo. Ou não. 


Já faz mais de três meses que tudo aconteceu. Estamos no bar da esquina, eu, o Gonçalves e o Silva. É triste dizer, mas eu voltei pro banco. A Safadinhas faliu, eu quebrei e minha mãe, gentil e graciosa como sempre, se negou a dar dinheiro. 
- Você traiu a aristocracia carioca! - disse. - Não vou sustentar um pornógrafo como você. 
Então foda-se, a sociedade feat. capitalismo haverão de me sustentar. Se nada mais der certo nós viramos mendigos. Hoje em dia tá na moda assaltar donas de casa desesperadas. 
Pedimos um chope. 
Silva me olha nos olhos, dá um gole. Ele diz: 
- Mas e aí, João, me conta como foi essa parada de filme pornô. 
- Foi gozado. 
Rimos. Não acho a menor graça. Gozo no olho dos outros é refresco, já dizia a finada Suzi Cavala. Daqui a pouco eu chego lá. 
Gonçalves é gordo e tem dois filhos. Diz: 
- Caralho, João, nunca pensei que tu fosse desses. Sua mãe deve ter ficado uma fera. 
- Ficou parecendo um monstro. Não que ela fosse desses cachorrinhos de madame que ficam roçando o pau na sua perna atrás de carinho, mas deu uma melhorada na Escala Pé Grande de monstros urbanos. 
- Tu anda muito filosófico - analisou Silva. - Tu não era assim não, ô João! 
- Foda-se. Eu perdi meu pai, perdi meus amigos e perdi meu trabalho fodão. O que é a filosofia quando já estamos fudidos? É tipo ler Marx chapado de maconha. 
Silva deu um gole no chope. Uma mancha branca ao redor da boca. Gozado. 
- João, já que tu falou aí do seu pai... 
Odeio quando tocam nesse assunto. Vamos lá: meu pai foi assassinado por um interno do manicômio. O cara se suicidou duas semanas depois, na minha frente. Deu um problema dos caralhos. O diretor disse que iam encobrir os acontecimentos, mas que eu deveria ficar esperto no futuro. Bullshit. 
- Não quero falar sobre isso. 
Gonçalves riu. 
- Porra, Silva, vai ficar incitando a mágoa alheia? 
- Olha quem está sendo filósofo aqui - retrucou Silva. 
Continuaram aquela boiolagem pseudo-filosófica. Meu ouvido não foi feito para ser estuprado. 


No caminho pra casa topei com uma velha conhecida. 
- João! 
- Marilia Soares! Não te vejo desde que... é... 
- Desde que você me comeu e me jogou fora? 
Sorri amarelo. 
- Mais ou menos isso. 
- Ainda dá tempo de consertar isso. O que você acha? 
Bancário. Fudido na vida. Pobre. Sem comer ninguém há dois meses. Ok, vamos lá. 
Clique. 
Abri a porta e veio aquele choro de criança. Marilia desapareceu como um raio. Filha da puta! 
Fui até o quarto e botei o Leonardo - vulgo Leo, Encosto, Saco de Merda, Casparento, etc. - pra dormir. Aquele moleque andava me tirando o sono. 
A história foi a seguinte: numa segunda-feira de manhã a Suzi Cavala foi achada morta. Na mesa, três linhas cocaína. Disseram que foi o estresse. Eu me ofereci pra tomar conta da criança, sabe como é. Uma semana depois a produtora fechou as portas, todo mundo no olho da rua. O rebento não tinha nome, mandei chamar de Leonardo, que é um cara capaz de dar vinte numa noite só e honra o passado da mamãe. 
O telefone tocou. Olhei no relógio. Três da manhã. 
- Alô. 
- JOÃO ALBEEEEEERTOOO!! 
Puta que me pariu. A própria. 
- Diga, mamãe. 
- MEU FILHO, EU TÔ CHAPADONA COM UM NEGÃO AQUI NA CAMA, PORRAAAA 
- A senhora tá gritando por quê? 
- PORQUE EU ESTOU COM VONTADE. ISSO, NEGÃO!! 
Desde que meu pai morreu minha mãe deu pra virar vadia de high society. Sai toda noite pra alguma festa, não dá satisfação. Minha vida é um fetiche: inversão de papeis. E eu estou amarrado sem direito a escolha. Vão se fuderem, não pago meu Imposto de Renda pra perder dinheiro e sequer decidir o que fazer. Vou virar político. É isso! 


Dia seguinte. 
O sol chegou iluminando o telhado das casas. Olha que introdução pica das galáxias, se liga no porte da criança. Eu estava, naquela manhã de sol, cheirado. Pra. Caralho. Pisei na sede do partido, ali no Centro. Quem me recebeu foi um velhinho. 
- Pois não? 
- Eu queria me filiar. Quero ser vereador. 
Ele riu. 
- Meu filho... 
- Eu sou cineasta, vovô. 
Seus olhos brilharam. Ou era só a farinha embaçando. Ligar pára-brisas. 
- E que filmes você já fez? 
- Lá fora tem um guarda com um cassetete, Meu vizinho tem uma vara de pesca, Sereias assassinas de salsichas, etc. 
- Ah, filme de porradaria? 
Muita porradaria, vovô. O senhor não tem ideia. Ao final de um dia de filmagem o set parecia a fábrica da Hipoglós. Puta que pariu. 
Lancei um papo de cineasta conceitual, estilo Scorcese querendo revolucionar a linguagem cinematográfica e levar cultura pro povão que toma trem da Central do Brasil pra Saracuruna amarradão ouvindo funk. Essa gente precisa de doses maciças de cultura. Ah, Brasil! 
Me registrei, fiz tudo como o vovô mandou e fui pro banco. 
Mesa. Eu. Sentado. Estava. 
Silva se aproxima. Abaixa no meu boxe e, apoiando aqueles cotovelos gordos no tampo da mesa, me fuzila com o olhar. 
- Aí, João: hoje à noite vai rolar festinha lá em casa. Topas? 
- Não sei... O Leo tem que... 
- O Leo tem que porra nenhuma, larga disso, João! Tu não deixa sua mãe com ele? 
Verdade. Mamãe apareceu falando que queria cuidar. Tadinho do Leonardo. Vai crescer ouvindo aquela voz de gralha no ouvido. Tomara que fique surdo. Mentira, ele tem que ouvir os gemidos da mãe. Aquela mulher era um espetáculo. Enfim. 
- Está bem. Que horas e quem vai? 
- Nove horas. Vai umas putas aí. 
Bacana, economizei a grana do jantar. 
Despachei o Silva e voltei pro trabalho. 
Onze da noite. Putaria comendo solta, balacobaco geral, animação mil. Estou no sofá. Uma moreninha com uma rachadinha que parece a falha de San Andreas se aproxima. Não posso nem dizer nua em pêlo porque ali não tinha pêlo. Montou em mim. Não neguei. Uhul. Isso, gatinha. Isso. De repente, o fim. PORRA, RAMBO, NÃO, RAMBO, CARALHO, RAMBO... 
- Acontece - disse ela, esfregando o Rambo com aquelas mãos. 
- Acontece porra nenhuma. 
Já repararam que só em situação importante o Rambo falha? Isso é sacanagem. Eu podia ter me tornado o novo Kid Bengala sem bengala. Já imaginou? Traçar as mais gostosonas... Mas a vida é feita disso. Tudo é desgraça, desilusão, todo mundo se fudendo. 
A morena, cujo nome eu só fui saber tempos depois, desapareceu. Apanhei o Johnnie Walker em cima do mezanino e mandei ver. Senti a descida ardida. Caralho, preciso de água. 
Cozinha. 
Uma loirinha peituda e peluda aparece. Está completamente vestida. Lanço um olhar de reprovação. Ela diz: 
- Que foi? Não posso ficar vestida? 
- Na verdade... 
- Olha, eu sei o que você está pensando. Eu... 
- Gatinha, se você trouxer a pessoa amada em três dias pra mim tá ótimo. 
Ela riu. Curtiu meu senso de humor inexistente que sempre cativa as mulheres. 
- Não. Eu só estou assim porque só tem homem feio nessa festa. 
- Gentil da sua parte. 
Olhei para baixo e acariciei o Rambo. Não levantou. 
- Meu marido é urologista, vai ver ele resolve isso aí. 
- A senhora trai o marido? Bacana... 
- Número um: não me chame nunca de senhora. Número dois: digamos que eu sou uma Capitu moderna, meu marido desconfia que eu o traio mas não tem como provar. Eu sou amiga do Silva há anos, cara. Só que hoje, sei lá por que, a menina não quis dar. Acontece. 
Olhei nos olhos dela e disse: 
- Dom Casmurro, prazer. 

 

O desafio do Comensal

Dos diários de Joaquim Diniz

Faz muito tempo que o meu último livro foi publicado. Eu me lembro do título do primeiro livro como se fosse hoje a festa de lançamento, na qual estiveram presentes as maiores personalidades literárias do país: O Desafio do Comensal. Eu era tratado como a maior revelação de um cenário dominado por figurões como Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Os editores todos queriam O Desafio do Comensal, uma obra escrita nos moldes de uma corrente que eu mesmo havia criado: Quadrinismo. Ou seja, meu personagem principal se deslocava em cada conto por um cenário ou tempo-espaço diferente, como nas histórias em quadrinhos. O Desafio do Comensal vendeu bem mais que o esperado. Logo em seguida, comecei o rascunho do segundo livro, publicado como Antologia dos Últimos Comensais, uma espécie de continuação do primeiro. Aí eu decidi escrever um romance, Comensais Não Dormem. Foi quando tudo aconteceu. Meu nome é Joquim Diniz, e um dia fui a maior personalidade desse país. 
No dia seguinte à decisão de escrever Comensais Não Dormem, um atentado à sede da editora Décio Romano, que me publicava, minou todos os meus planos. Não só o Décio Romano foi morto, assim como metade das pessoas que lá trabalhavam ( e aí inclui-se diagramadores, revisores, tradutores, tipógrafos, etc.). O atentado foi daqueles casos que nunca são resolvidos. Até que jogam a culpa em algum novato que rouba a cena, como fizeram anos mais tarde com o Simonal. Jogaram a culpa em mim. Logo em mim. O comissário responsável pelas investigações, senhor Alberto Aniceto, ou AA para os íntimos, forjou uma carta onde o Décio Romano dizia ser meu pai. O tipo de coisa que só os sujos e falsos fazem. Até hoje o caso fica nas minhas mãos. Tudo culpa do AA. Eu já não sou mais reconhecido, o que é uma pena. 
Outro dia minha filha veio até mim: 
- Papai, falaram do senhor hoje na faculdade. 
Ela faz letras, é uma belezinha. Lucilia o nome dela. 
- É? - indaguei. - E o que falaram? 
- Que o senhor era um larápio, desses bastante idiotas. O professor lhe chamou de maluco pirado. Eu não acreditei, obviamente. 
Em toda família existe aquela história que os pais deixam para contar aos filhos quando eles crescerem; o tipo de história cujo dia da devassa nunca queremos que chegue. A minha é a da culpa pelo atentado. Fui condenado a vinte anos de cadeia, cumpri quinze. Lá dentro todos me apoiaram. O AA tinha fama de traidor lá dentro. Não me surpreende que ele tenha sido encontrado morto em casa. Dois tiros no peito, o vagabundo. 
Sentei minha filha na ponta do meu joelho, botando força na perna para não sentir dor, e contei. Contei tudo. Durante o relato nós dois chorávamos, coisa de louco. Mas sabe como é, hoje em dia a esperança é curta, vivemos literalmente na corda bamba. Nossa sombrinha é o ar. Temos que moldar o ar a cada instante para sobreviver. Uma hora nosso ar é um gancho que nos prende à corda; um segundo depois o ar é uma vara de dez metros na horizontal, equilibrando-nos no abismo infinito. 


Das anotações do doutor Laurencio Cruz, cardiologista e poeta.

21 De Maio de 1976. 

Hoje, finalmente concluí algumas análises de dados que meu cunhado, sr. Lucio Quintanilha, do DOPS, fez o favor de conseguir nos Arquivos. Durante a última década eu tenho investigado, conforme escrito nas primeiras páginas deste Caderno de Anotações XXIV, o Caso dos Comensais. Trata-se de uma investigação sigilosa acerca da vida e da identidade de Joaquim Diniz, um antigo escritor bastante famoso. Não havia a menor dúvida, uma vez que se fizeram presentes as anotações do caderno do comissário AA, de que Diniz era o responsável pelo atentado à Editora. Mentira. Entretanto, conforme concluídas as análises, fracassei em minha missão. Não há registros suficientes nos Arquivos da República. O que é uma pena, pois o Diniz está para sair da prisão daqui a dois anos, acredito que seria de bom tom dar-lhe algum tipo de assistência. O câncer progrediu. Estou deitado na cama do hospital anotando neste caderno. Meu filho deve aparecer daqui a pouco. Não creio que terei muito tempo. Caso alguém venha a ler este caderno, rogo-lhe para que não mate a memória de Joaquim Diniz. Em algum lugar dos Arquivos há a magnífica obra literária dele. 

Laurencio Cruz faleceu no dia seguinte à última anotação do caderno. Não sei o motivo, alguém do DOPS, provavelmente o próprio Lucio Quintanilha, teve o cuidado de destruir os arquivos dele. Venho buscando as explicações do Caso dos Comensais há anos, sem sucesso. 


Sumário de O Desafio do Comensal 

Cardiopatias
Desde Que Ela Desapareceu 10 
O Mimeógrafo Esquecido 20 
Relatório Semanal 30 
O Desafio do Comensal 50 
Redações, Súplicas e et cetera 93 
Gran Pequeno Finale 129 
21-90-9877 145
Post Scriptum 160


Como pude perceber, os títulos dos contos não revelam a menor ligação com o conteúdo dos mesmos. Talvez trata-se de um recurso linguístico pessoal do Joaquim Diniz. Ressalto, também, que meu conto preferido é Cardiopatias , um registro único da ansiedade crônica e da incerteza dos anos sessenta, em meio a cigarros Hollywood, Marilyn Monroe e uma mulher misteriosa. Decidi abandonar esta noite o caso. Espero não morrer amanhã. Sei lá, ainda tenho muita coisa para viver.  Este arquivo, no entanto ficará salvo em meu computador. Quem sabe quando eu for um velho gagá não retome este HD e veja as minhas brincadeiras de criança.  Ou adolescente. 


CARDIOPATIAS 

Levei o Hollywood à boca. O disco da Maysa tocando sem parar na vitrola. Meu nome é Augusto, tenho 17 anos e não sei fazer contas. Minha mãe me chama de burro, mas sei que não sou. Escrevo de forma brilhante, segundo dizem, e busco sempre a perfeição enquanto monto origamis, que não são nada mais que figuras feitas a partir de dobras do papel. É uma arte japonesa milenar. Ou secular. Ou coisa de décadas. O importante é que eu gosto. 
Meu peito anda estufado, mas não como o da Marilyn Monroe. Ela é uma lenda viva, adoro ela. Outro dia no colégio falaram que ela dá pro Kennedy, mas isso eu já não sei dizer. Vivemos em um Brasil que, apesar dos militares fazerem pressão, não sofre de muitas mazelas, mas sou muito jovem para compreender essas coisas, segundo diz mamãe. Discorro sobre ela porque nunca vejo seu rosto. Estou sempre usando a máscara que o doutor Venceslau Cunha, um conhecido da família, recomendou. Quando era pequeno, sofri uma queimadura gigantesca no rosto, a última coisa que vi foi o fogo me incendiando. Desde então nunca mais usei roupas normais. Minha escola tem sido um colégio montado no fundo do quintal de casa, onde os garotos da vizinhança vêm brincar comigo. Eles me acham retardado, mas um dia vou lhes mostrar toda a minha vingança. 
Mamãe não sabe que eu fumo. E não vai saber. Se souber, dane-se. Ando com o peito estufado, creio sofrer de uma cardiopatia aguda: ou é amor ou é Chagas. Viram como eu sou inteligente? Talvez seja os dois, o que desconfio muito. Quando se ama, perde-se a racionalidade. Racionalidade pra mim sempre foi matemática. Talvez por isso, agora que sou deficiente físico, não consigo não amar a vida. Perdi minha racionalidade. 


Clínica de saúde São Tomé. 

Lucilia correu pelos corredores. O médico responsável, doutor Cortázar, telefonara: seu pai havia morrido. 
- Onde ele está, onde ele está? 
O médico apontou para um quarto branco. Na cama, já sem os fios, Joaquim Diniz repousava. Após vinte minutos com o pai, Lucilia voltou ao médico. Os olhos marejados. 
- Como aconteceu? Ele estava bem, não estava? 
O doutor Alexandre Cortázar tinha cinquenta anos e uma barba ruiva que escorria pelas bochechas e pescoço. Ele consultou a prancheta com os dados do paciente. 
- Lucilia, às vezes as operações podem ter complicações, acontecem. 
- Mas ele estava bem! Você disse! 
- E de fato ele estava. O que aconteceu foi uma infelicidade. Havia acabado de comer, tadinho... 
Como um espasmo cerebral, Lucilia riu. Comer. Comida. Comensal. Era bom demais para ser verdade. A última cartada do Joaquim Diniz! 
- Lucilia, você está bem? - indagou o médico, visivelmente preocupado. 
Ela sorriu. 
- Nunca estive tão bem, doutor. 
Voltou para o quarto onde estava Joaquim. Os olhos fechados. Sorrindo e afagando seu rosto pálido, ela disse: 
- Aqueles caras não sabiam de nada, papai. O senhor ainda é um gênio. Escuta o que eu te digo. O senhor ainda é um gênio! 


Já fazem muitos anos que não abro os arquivos do computador. Hoje em dia eu sou jornalista, trabalho em um conglomerado desses cheios de funcionários. Hoje à noite olharei aquelas investigações sobre o Joaquim Diniz. Quem sabe não acho graça? Encontraram no antigo apartamento dele, dentro do assoalho, anotações para mais cinco livros. Dois de contos, três romances. Os cinco se encaixavam como uma série. Parece que a Lucilia vai arranjar alguém para cuidar das anotações. Quem sabe eu não me candidato. Preciso ver o que eu havia escrito... 

 

Várias infelicidades

Para Isabela. Feliz 15 anos. Feliz sexo. 



MANHà


Minha mãe sempre me disse que os melhores perfumes estão nos menores frascos. Não sei por que, mas foi justamente na manhã do meu aniversário que eu resolvi pensar naquela porra de frase. Várias infelicidades reinando. Antes de mais nada, meu namorado dormiu comigo. Ah, ele é legal, sabe como é, aquele tipo de cara de quem você nunca pode esperar nada porque ele nunca vai fazer, mas sempre acaba dando um jeito de te surpreender. 
Café da manhã: torrada, mel, cream cheese, requeijão e ovos mexidos com muita manteiga e sal. Uma vez gorda, algumas gordurinhas não fazem mal. Quer dizer, na minha vida tudo parece fazer um mal do cacete, é como se eu fosse uma gordinha tensa. Não se preocupe. Eu não sou. A única coisa que eu sou é infeliz. Sentada numa mesa de cozinha (sim, eu estou na mesa) esperando as torradas pularem da torradeira enquanto cada segundo do meu aniversário passa batido. Ninguém se deu o trabalho de me dar os parabéns. Morram, desgraçados. 
Várias infelicidades. 
Meu chefe é aquele cara baixinho de óculos metido à besta. Usa suspensórios azuis e vive fazendo piadas sem graça, como: 
- Aí, dona Bela. Como a senhora está bela hoje, hein. 
Morra, infeliz. Mas como eu não tenho vários talentos para compensar, sou obrigada a ficar aturando esses desaforos. 
Sentei no meu boxe - sim, aqui na firma nós somos divididos em pequenos boxes, cada um com um PC e ponto final - e olhei as notícias no portal de um conglomerado qualquer. Não que eu ligue se um ou outro corpo foi encontrado numa vala, ou se os políticos estão roubando adoidado. O importante é pagar de culta. 
Os melhores perfumes estão nos menores frascos. Se o Vilhena era um bom perfume, então ele tinha um pau do tamanho de um palito. O Vilhena era aquele cara excluído do resto do escritório, uma espécie de bullying adulto. Não sei quem foi o idiota que falou que os humanos evoluem. Eu tenho cara de Pokémon? Ah, sim. 
- Bom dia, dona Bela. 
Vilhena... 
- Bom dia, Vilheninha - respondo, afável. Não quero criar intrigas no trabalho, já não bastam todos esses idiotas me cercando. 
Então ele se aproxima e me dá um abraço. 
- Parabéns, dona Bela. 
E se afasta. 
Única pessoa no mundo a me dar parabéns no dia do meu aniversário. 
Várias pequenas infelicidades e uma minimicrofelicidade. 
Dorgas. 


TARDE 


O Vilhena me chamou pra comer com ele na lanchonete furreca da esquina. Lá, todos os dias no horário de almoço, vários executivos meia-boca se misturam em meio a advogados igualmente incompetentes. Comem hambúrguer mal passado e dizem que está uma delícia. O Vilhena é sincero. 
- Isso aqui está uma porcaria - diz ele, jogando o sanduíche na bandeja e se afastando cheio de nojo. 
- Verdade. Então por que você me chamou para comer aqui? 
Ele tira uma flor de plástico do bolso do paletó. Está suando em bicas. Normalmente esses excluídos tendem a se tornarem nerds que acham que compram qualquer mulher com uma flor. De flor já basta a minha. Se meu namorado tivesse alguma profissão, seria florista. Nunca vi ninguém gostar tanto das flores alheias. 
- Toma. Pra você. 
Pego a flor e finjo que cheiro. 
Vilhena diz: 
- Não tem cheiro, é de plástico. Eu joguei um perfume francês nela. 
Ganhou meu coração. Meu namorado nunca fez essas coisas, no máximo aquele miojo-executivo-do-Centro-meia-boca quando estávamos sem grana no sábado à noite pra comer aquela pizza esperta. Tirei o celular da toca (vulgo bolso) e chequei. Zero mensagens, zero ligações. Dez de sinal. Várias infelicidades. Nem minha mãe, nem meu irmão pentelho, nem minhas amigas. Morram. 
Voltamos para o escritório. Eu fico trabalhando no computador que nem uma cachorra até dar cinco da tarde, quando meu celular emite uma vibração estranha seguida de apitos. Mensagem. Vilhena. 

E aí, gata, quer ir lá pra casa hj? Bj  

Sexo. Flor. Porra, eu estou precisando, mas o Vilhena não faz meu tipo. Digo que vou pensar. 
Hora da saída. Vilhena bate no meu boxe. 
- E então, dona Bela? 
É isso mesmo? O puto quer me comer e me chama de dona Bela? Bacana. Várias infelicidades. 
- Ok, você venceu. Vamos. 
Apanho minhas coisas e mando ele ir comigo. 
- Você dirige - falei. - Odeio dirigir, principalmente no meu aniversário. 


NOITE 


Noite. Luar. Estrelas. Nuvens cobrindo a porra toda, não vejo nada. Grande aniversário. 
Vilhena está sentado no sofá. Está preparando um macarrão na cozinha. Eu observo o céu cheio de nuvens sem entusiasmo nenhum. Estou cagando. Mas antes isso do que ficar morrendo em casa sozinha, sem ninguém, forever alone no mundo. Nenhum parabéns. Cornos. 
Subitamente meu colega de trabalho se levanta do sofá. Arrasta as patinhas pelo assoalho produzindo um barulho irritante. Vai até a cozinha e retorna um minuto depois. Coloca em cima da mesa uma lata de chantilly e diz: 
- Você sabe o que fazer. Ou o que não fazer. Escolha. 
Chantilly? Sério mesmo? Em vinte e cinco anos de vida, e dez de primeira defloração, nunca passei da saliva. Grande Vilhena, salvando a noite das aniversariantes tensas. Ele desaparece na claridade da cozinha. Eu, sozinha na sala. Olho o chantilly, o chantilly me olha, aquele jogo de sedução. É como se disséssemos vem cá, gostoso, vem cá e me põe em você. 
Tiro toda a minha roupa. Ouço o vapor do macarrão encostando no fundo da pia, aquele ruído chiado de shhhhhh. Coloco o chantilly nos meus peitos em espiral. Delícia. Tiro a calcinha e repito o procedimento nas partes íntimas. Delícia. 
Dou um berro, estou querendo esse cara: 
- Vilhena, querido, seu jantar está na mesa. 
Várias infelicidades. 
Eu, deitada na mesa de pernas abertas. Da cozinha, meu irmão, minha mãe, meu namorado e minhas amigas encalhadas surgem do nada. Estou sonhando, não pode ser. O caos, o caos! 
Meu namorado é o único a se manifestar. Olha bem no olho da minha mãe e diz: 
- Eu disse pra não botar o nerd como isca, porra. 
Várias infelicidades. 

 

A sombra da escuridão

É na sombra da escuridão que eu me guardo e dou o bote. 
Um ninja.


Ato número um

Saí do metrô quando meu relógio contava cinco para as três. A multidão se dispersava na minha frente como se fosse um pingo d'água sob a força da gravidade. Violentamente eles saíam do vagão e tomavam seus caminhos. Assim como o pingo que não pertence mais à garrafa, eles não pertencem mais ao trem. Estão na vida. Putos é o que eles são. Uns fodidos de merda sempre cheios de pressa. Minha mãe mandava eu ter calma com o mundo. 
- Meu filho, você é muito nervoso. 
Saí de casa naquele dia. Não aguentei essa gente me dizendo o que fazer. Decidi viver na floresta. Um conhecido meu trabalhava no Exército. 
- Jonas, preciso de um favor. Quero embarcar pro Amazonas, como faz? 
Ele deu um jeito. Uma semana depois eu estava jogado na selva amazônica. Encontrei um grupo de ingleses perdidos, matei dois índios que tentaram me acertar flechas. Não vou medir esforços para sobreviver.
Agora sou corretor imobiliário. Ganho a vida mostrando a seres dementes suas futuras casas. Tudo em troca de um lucro. Outro dia inventei de mostrar um apartamento na Tijuca para uma madame recém-viúva. Tinha os cabelos roxos, usava um vestido florido e um batom vermelho. Quase perguntei se ela era a Mortícia, mas não considerei de bom tom. Sou, acima de tudo, um bom profissional. A velha não comprou o apartamento. Filha de uma puta. 
Eu estou com raiva, como você já deve ter percebido. Não pretendo ter calma com o mundo se ele não tem calma comigo. Não rola. 
Como eu ia dizendo, saí do metrô quando meu relógio contava cinco para as três e vim pra cá. Queria te ver, sabe como é. Não me olha com essa cara, me sinto um maluco. Vem cá, vamos fazer amor. Não quer? Está bem. Quando quiser é só me ligar, como sempre. Deixa de ser chata, não vou ficar aqui te esperando ad eternum. Você sabe o que é ad eternum? Ad eternum é uma expressão em latim. As pessoas confundem com eternamente, mas significa para a eternidade. Para a eternidade, é assim que a gente devia ser. Você não quer? Então estamos terminando? Adeus. Não, não vou falar com você. Você quis terminar comigo, isso não é justo. Não vou voltar. Tchau. 


Ato número dois 

Uma andorinha só não faz verão, já dizia a finada senhora minha mãe. Tentar voltar com Lilibete, vulga Lili, foi um erro. Ela nunca me aceitaria. Eu estava parado ao lado de um ponto de ônibus. Ao meu lado, duas senhorinhas enrugadas e três senhores, além de duas criancinhas. Todos muito feios. A beleza é subjetiva, disse Einstein. Essa frase é tão maluca que eu acredito ter sido dita por ele. Continuando minha história, eu estava no ponto de ônibus. Tirei o papel do bolso e risquei o nome LILIBETE. Olhei o nome seguinte: ALEXIA. Risquei. Alexia é um nome muito feio, parece com disléxica. Uma vez conheci uma garota que era dislexica, não foi uma experiência interessante. Eu mostrava os meus livros para ela e nunca havia um retorno esperado. Tentei consertá-la, mas certas coisas não possuem conserto. Estranho. Tomei o ônibus junto com os seres bizarros. Desci na porta de casa. Entrei e fechei as cinco fechaduras, como sempre. Não gosto de estranhos no meu apartamento. A única mulher que eu deixei entrar no meu apartamento foi Camilla, uma americana. Soube que algum tempo depois ela foi encontrada boiando num rio. Tadinha. Não foi o melhor sexo da minha vida, mas dava para o gasto. Aliás, não sei por que comecei falando o ditado da andorinha. Recurso que nós, escritores incompreendidos, utilizamos quando falta inspiração. Já lancei dois livros, todos eles infantis. Tentei escrever um livro de contos policiais, mas as editoras recusaram. Parece um plágio de outros escritores policiais, foi a resposta da maioria deles. Desisti. Como dizia, fechei as cinco fechaduras da minha porta e fui direto para o quarto. Em cima da mesa, estava ela olhando fria e soturna para mim. Playtime, baby. 


Ato número três

Sentei ao lado dela. 
- Por que você me encara assim? - quis saber. - Não gosta de mim? Acha que eu não dou para o gasto, é isso? Espere e verás o que não faço contigo. Filha da puta. 
Apanhei meus instrumentos em cima da cama e comecei a brincar. Pressionei a lateral esquerda de sua massa até o final. Repeti com seu resto. Era hora de brincar, e quando eu brinco quem manda sou eu. Eu sou o mestre. 
Coraline, como eu a apelidei, era uma máquina de escrever que eu comprara em um mercado de pulgas da Holanda. O vendedor, um simpático velhinho de bigodes brancos encaracolados, disse-me que era um espécime único. Acreditei. Coraline começou funcionando bem, mas depois ficou ruim. A tinta foi perdendo firmeza. Levei num especialista, que fez uma revisão e conserto total nela. Ficou uma beleza. 

A ARCA PERDIDA 

Sonjemogue desceu as escadas até o final e parou no patamar. Ajoelhou-se ao lado de
um tijolo que estava na parede e começou a fazer força para retirá-lo dali. Queria aquele 
pedaço de pedra mais do que qualquer coisa. Sonjemogue tinha oitenta e nove anos, mas 
a magia da bruxa Kellora o fizera ser eternamente jovem. Sonjemogue era o sábio daquela 
aldeia de pessoas metidas a besta. Tirou o tijolo da parede e 

A quem eu estou querendo enganar? Sou um fracasso como escritor, mas que porra. Tirei a folha de Coraline, amassei e joguei no lixo. Não consigo escrever mais. Vivo à base de cafeína e cigarros, como Sérgio Porto. A diferença é que Sérgio Porto é famoso, eu não. Diabos! Morram! 
Lilibete dizia sempre que eu estava paranoico. 
Fui até a janela. O sol começava a se pôr, o céu adquirira uma coloração rosada, meio roxa em alguns lados, como se fosse uma pincelada. Então tudo ficou escuro. Os postes acenderam-se e o movimento de carros cresceu freneticamente. O caos urbano nada mais é do que uma mistura de gente desconhecida dentro de caixas motorizadas, que são cubos dentro de uma enorme esfera, esta inserida em um plasma desconhecido. Mas a vida também não é mais do que isso. 


Ato número quatro 

Dia seguinte. The next day. El dia seguiente. Português. Inglês. Espanhol. Sou poliglota, sei falar três, ou duas, palavras em três línguas. Mas ser poliglota não é mais que isso. 
- O que você está fazendo aqui? 
Lilibete está assustada. 
- Não posso aparecer para falar com minha namorada? 
- Eu não sou sua namorada! Olha, não é uma boa hora, e... 
- Quem está aí contigo? 
Atrás dela apareceu uma figura peluda. Ex-namorado, eu o conheci uma vez. Era jornalista, famoso até. Lilibete levou a mão à testa e ficou tentando contornar a situação. 
Eu no elevador me admirando no espelho. Como pude ser tão burro? Mas a vida também não é mais que uma caixinha de decepções. 

A SOMBRA DA ESCURIDÃO 

Era aquele homem que não buscava os meios, mas sim os fins. Acordava todos os dias 
querendo praticar o bem, custasse o que custasse. Era solteiro, sem filhos ou familiares, 
o dito tipo perfeito para cometer um homicídio. Ele não hesitaria em fazê-lo caso fosse 
necessário. Caso fizesse alguém feliz, seria necessário, logo ele o faria. Colocou um 
anúncio no jornal. ASSASSINO DE ALUGUEL EVENTOS MACABROS CONTATO 
Apareceram várias pessoas querendo seus serviços. Eram todas igualmente sujas, 
entretanto dispostas a pagar o alto preço que exigia. Ficaria rico. 

Olhei para Coraline. Finalmente estamos começando a nos entender. Mas a vida não é mais que isso: um entendimento das coisas incompreensíveis. E quando isso acontece, você elabora toda uma teoria sobre tal coisa. Um segundo depois ela se esvai. É como se Deus não quisesse que os mistérios fossem descobertos. Existem verdades que devem permanecer ocultas nos arquivos secretos da História. A vida não é mais que isso: História. Múltiplos contos que se perdem na imensidão da singularidade de cada átomo. 


O final nem sempre é o melhor, mas todo mundo lê porque a curiosidade matou o gato. Talvez por isso eu não vou escrever um final e só deixar esse título como forma de não apagar na mente do leitor todo o conteúdo acima. A vida não é mais que isso: uma sombra no meio da escuridão. 

 

Presente do Imperador

  Para Lina, como não poderia deixar de ser. A Lindoneia é feia. 



Mandei fazer de puro aço luminoso um punhal para matar o meu amor e matei. 
Panis et Circensis - Os Mutantes


Encarei o Agenor. 
" O que você quer dizer com isso?" 
" Você está apaixonado, é simples." 
" Não estou, não. Se eu estivesse não estaria tão lúcido" 
Agenor riu. 
" O viciado em cocaína lá no alto do morro também acha que está lúcido." Ele levantou-se da cadeira e me olhou de cima. Superior. " Você não constata essas coisas, Bóris. Você está apaixonado e pronto" 
Não podia dar o braço a torcer. Saí caminhando pelas ruas de Ipanema sem pensar nela. Observei as vitrines e as madames dentro delas trocando as roupas dos manequins. Eram todos muito bonitos. Em terra de gente bonita eu sou feio. Mas não me queixo, pelo contrário. Ser feio me dá um charme com as mulheres. Não posso reclamar. 
Fiquei pensando no que o Agenor dissera pouco antes. 
" É aquela borboletinha única no seu estômago. Então, como um flash de luz, ela virou cem, mil, um milhão. A sensação é maravilhosa.'' 
Eu nunca havia odiado tanto as borboletas. Vi uma sobrevoando os céus escurecidos e desejei dar-lhe um tiro. 
O nome dela era Isabel, e eu não estava apaixonado coisa nenhuma. Era tudo imaginação do Agenor. Ora, logo eu? Não, impraticável. 
Quatro horas. O sino da igreja bateu. Lá dentro, velhinhas inconsoláveis rezavam pedindo para que uma força suprema fosse capaz de ajudá-las a enfrentar as mazelas da vida. Fiquei pensando quais mazelas poderiam ser: eram todas muito bem vestidas, tinham perfumes cheirosos e moravam nas redondezas. Ipanema é um bairro chique. Melhorar de vida? O nome disso é ganância, ganância é quase cobiça. Cobiça é pecado, madame. 
Sentei na primeira fila. Os bancos haviam sido reformados, o altar fora repintado e a acústica ficara mais potente. Uma autêntica casa de Deus capitalista. 
O padre era negro, tinha barba branca e uns olhos avermelhados nas laterais. Era dia das Crianças e eu percebia que ele havia chorado. Não quis ser padre? Fora molestado? Qual o seu enigma, padre? 
A missa durou quarenta e sete minutos contados. Levanta, abaixa, levanta, abaixa. Fiquei cansado. Idosas atrás de mim choravam. Haviam elas sido molestadas durante a infância? O que aconteceu com o mundo? 
O padre estava entrando por uma portinhola decorada com vitrais no fundo da igreja quando eu o abordei. 
" Boa noite, padre." O céu já estava escuro lá fora. Trevas. " Poderia falar com o senhor?" 
" Lógico, meu filho", respondeu ele sorrindo. 
" Na verdade, é mais uma pergunta..." 
" Não tem problema. Diga." 
Abri um sorriso amarelo e enfiei as mãos dentro dos bolsos da calça. 
" Por que Jesus?" 
" Como assim?" 
" Por que Jesus? Por que ele?" 
" É o filho de Deus. Nunca leu a Bíblia?" 
" Faz tempo, padre." 
Ele ficou vinte minutos me explicando a Bíblia, que como todo livro começa chato e termina legal, com uma pancadaria generalizada entre Céu e Inferno. Estou usando termos leigos e pagãos, mas sou cristão. E não estou apaixonado. 
Saí da igreja com medo. As pessoas se transformavam em sombras turvas e pesadas, como prontas para me devorar as vísceras. Desejei estar perto de Isabel, sabia que ela me confortaria. Passei pelo mercado e comprei uma dúzia de velas, daquelas brancas e baratas. 
Encontrei Isabel parada debaixo do meu prédio. Eram sete da noite. A luz alaranjada do poste formava um halo elíptico ao redor da cabeça dela. Meu anjo. 
" O que você está fazendo aqui? ", perguntei. 
" Bateu saudade. Quis te ver, não posso? " 
" Deve. Anda, vamos subir." 
Meu apartamento estava sujo, com restos de fast-food em cima da mesa. Isabel fitou a sacola na minha mão. 
" Velas? Virou católico, Bóris?" 
Envolvi ela nos meus braços. 
'' Sempre fui, só nunca gostei de demonstrar. Acho religião algo muito particular. Todos que a demonstram se dão mal. Não está vendo os árabes, que professam sua religião e são hostilizados por causa de meia dúzia que derrubou as Torres Gêmeas?" 
" O nome disso é intolerância. Você leva tudo muito ao pé da letra." 
" Sempre gostei de literatura", falei. 
" Hã?" 
" Nada, vem cá." 
Uma borboleta que vira cem, um milhão. Um milhão de borboletas voando no seu estômago. 
E se o Agenor estivesse certo? E se o padre estivesse certo? E se eu estivesse errado, em uma das poucas vezes que isso ocorreu comigo? E se...? 
Isabel foi embora pouco depois da meia-noite. Tinha que trabalhar no dia seguinte. Não sei se falei que eu morava num apartamento enorme. Atrás de uma prateleira havia um cofre de metal. Girei aquela roleta e abri o compartimento. Dentro dele, a faca. O gume. A precisão. O corte. Fechei o cofre. Ver a faca me deixava feliz. Fora um presente de D. Pedro II ao meu tataravô, um soldado que manteve-se fiel à monarquia mesmo com o marechal Deodoro da Fonseca tirando a realeza do poder. A faca representava o poder e a fidelidade. Eu precisava de poder e fidelidade. Poder para conquistar ainda mais Isabel; fidelidade para casar com ela. Foi por isso que, quinze minutos depois, enfiei a lâmina nos meus punhos e deixei sangrar. 
 
 

O caso da prostituta francesa

Para Mia e Isadora, eu estava devendo um retorno; 
Isabela e Mariana, eu precisava apresentar o Bennett. 

I. UMA PROSTITUTA AMEAÇADA

Eu sabia que estava amarrado. Não sabia a quem ou ao que, só que estava. Franco me fitou com aqueles olhinhos pequenos. Havia um tempo que ele havia tomado o controle de uma boate em Copacabana, coração da baixaria carioca. 
- Você está calado, Bennett. Não gosto disso. 
- Eu não gosto do cheiro do cigarro na sua boca e nem por isso estou reclamando. 
Ultimamente Franco vinha fumando mais que o normal. 
Era noite de sexta-feira. Ele ligara lá pra casa, minha mulher fazendo o jantar. 
- Bennett, preciso que você venha até a Corona. 
Corona era o nome da boate. Ele suspeitava que uma das dançarinas estava sendo ameaçada de morte. O negócio era meio baixaria carioca mesmo. Ou seja: o Franco cedia o espaço às putas, mas o agenciamento, a distribuição pelo espaço, ficava a cargo do Tião Medalha, um cafetão que vivia escondido dos holofotes. 
Como eu dizia, lá fui eu até a porra da boate. Franco acendeu um cigarro e me contou a história por alto. Brigitte era uma francesa que não tinha dinheiro para voltar, tampouco falava português fluentemente. Entrou pra prostituição tentando arrumar a grana. Conseguiu facilmente, mas o Tião Medalha não deixou ela escapar. Tadinha. 
- Não sou espião, Franco - falei. - Contrata alguém, o que mais tem por aí é velhinha fofoqueira querendo seguir menininhas novinhas. Ficam todas caídas e cheias de vincos na pele, encontram na perseguição uma forma de aniquilar as novas gerações. 
- Você anda muito poético. Volta, Bennett. 
Senti as cordas desatarem. Estava livre. 
- Está bem. Eu sigo. Mas libera a garota logo, a Alice está me esperando. 
Alice era minha namoradinha, a gente se via de vez em quando, quando ela resolvia pisar lá em casa. Coisa de adolescente, recuperando a juventude perdida. Ou não. 
- Desde que você começou a namorar ficou meio viado - disse Franco. 
- Foda-se. Libera a Brigitte logo, eu tenho que ir. É sério. 
- Me dá quinze minutos. Ela sai sempre pelos fundos, espera lá fora. 
Eu fui. Aquele cheio de tabaco misturado a nicotina e trezentas mil substâncias químicas estava me matando. E o capitão Nascimento usando saco pra torturar os caras. Tolinho, bastava o cigarro do Franco. 


II. UMA PROSTITUTA SEGUIDA 


Eu nunca curti hipocrisia, mas ela se faz necessária em alguns momentos. Fui até uma banca de jornal e comprei um cigarro avulso. Cinquenta centavos. Coloquei na boca e fingi que estava fumando. Não acendi. Do jeito que as pessoas são egoístas, parar para analisar se o cigarro na minha boca está aceso chega a ser uma heresia. 
Brigitte tinha peitinhos médios, cabelos negros na altura dos ombros e era um pouco mais baixa que eu. Andava empinando a bunda, uma beleza. A melhor tática é a aproximação, disse Clarice Lispector em algum devaneio. Mantenha os inimigos por perto, disse Caio Fernando Abreu numa fuga das linhas amorosas. Volta pra realidade, disse minha mente me tirando daquela coletânea de frases absurdas e plagiadas. 
Ela caminhou até o final da Prado Junior e entrou num prédio. Cumprimentou o porteiro, um cabeça-quadrada-de-bigode-escroto, e subiu. Fiquei observando da rua. Uma garoa fina começou a cair. Molhou meu cigarro. Dentro da portaria, Freddie Mercury me observava. Que foi, porra, a televisão pifou? 
Toquei o interfone. Meu amigo atendeu com uma voz nordestina pesada. Adeus, senhor Freddie Mercury. Olá, porteiro. 
- Boa noite, queria falar com a Brigitte. 
- Acabou de subir. Quem deseja? 
- Diz que é o Franco. 
Cinco minutos, muito tédio e olhares furtivos depois, Freddie Nordestino disse que era para eu subir. 
- Apartamento 504, pega o elevador de serviço, o social está com defeito. 
Elevador de serviço chama-se Sucursal do Sistema Burocrático Brasileiro. Quente, lento e barulhento, cheio de engrenagens que não se entendem, algo similar ao telemarketing. 
Desci do elevador e procurei o 504. Cada andar devia ter uns dez apartamentos, coisa de projeto social no meio de Copacabana. Merda. 
Blim-blom. Anda, Brigitte, atende. 
Alguns segundos e barulhos. A francesa abriu a porta e me apontou uma arma com silenciador. 
- Entra calado. 
Sotaque francês. Magnifique, mademoiselle. 
- Não sabia que ia rolar um ménage - falei. Aquele cano me assustava. Pra. Cacete. 


III. UMA PROSTITUTA ARMADA 


Sofá. Eu. Deitado. Medo exalando. Delícia.
- Quem é você? Algum cafetán? Já te vi en club. 
- Bennett. Não, longe disso. Monsieur Francô mon ami. 
Falei fazendo biquinho. Sempre procure agradar o cliente, disse George Meliés, o maior cafetão da história parisiense. Realidade, Bennett, porra. 
Brigitte me olhou. Mantinha o cano no meu nariz, parecia cena de filme do Dirty Harry. 
- Por que você me seguiu? Acha que non percebi? 
- Monsieur Francô, mon ami, pediu pra te seguir. Alguma coisa ligada aos cafetões. 
Uma mulher com medo e armada equivale a mil najas querendo te morder. Sadomasoquista que eu era, senti o Pequeno Príncipe ficar duro. Porra, que hora lixo. 
- O que ele te disse? - quis saber ela. 
- Tião Medalha. Acho que é suficiente. E tira esse cano do meu rosto, tá me dando medo. 
- Desculpe - ela tirou o cano e botou a arma na cintura. O apartamento, e só então eu pude perceber, era todo laranja, com móveis forrados e fedidos. Me senti num templo hare krishna. Rama rama ding ding. 
- E então? Vai falar sobre o Tião Medalha? 
- Ok. Ele está me perseguindo sim, mas não é por causa da prostituição. É por droga. Eu comecei a comprar cocaína dele, mas nunca consegui pagar. 
- Quanto você deve? Estimativa, eu digo... 
- Uns cinco mil. 
Você está fodida, Brigitte. Mais que literalmente. 
- Isso é um problemão. Esse apartamento é muito bonito, de quem é? 
- Meu. 
- Para de mentir. 
- Não estou mentindo. Agora dá o fora. 
Tirei um revólver enferrujado do bolso e apontei pra ela. 
- Não me faça perguntar de novo. O apartamento é de quem? Do Tião Medalha ou de algum cliente? 
- Nem um, nem outro. É do Franco. 
Merda. 
- Não sabia disso. 
- Ele conseguiu junto com a boate. Agora dá o fora, Bennett. 
- Por quê? Vai receber cliente? 
- Não, eu... 
- Então é o nosso amigo Medalha? 
- Não, é... 
Eu sorri. 
- Então ficarei para o show. E estou com fome, pode servir o couvert? 
Apontei para seus peitos. Brigitte me deu o dedo. 
- Vai tomar no cu, seu canalha. 
- Lembre-se que eu tenho uma arma apontada para você. 
Foi aí que a campainha tocou e a merda caiu no ventilador. 


IV. UMA PROSTITUTA, UM DETETIVE E UMA CONVERSA A TRÊS 


Tião Medalha. O cara mais procurado de Copacabana - e mais querido entre os policiais safadinhos - se materializou na minha frente. Tinha um bigodinho fino estilo Tyrone Power, ou Reed Hadley. Ou ainda Dalí, mas se eu estou aqui, como ele pode estar ali? Haha, postura, Bennett. Caminhava com o jeito certo. Tinha postura, impunha respeito e fazia a espinha alheia gelar. Sorte que minha temperatura corporal nunca mudava. 
- Quem é você? 
- Boa noite pro senhor também - respondi. 
- É um amigo - interveio Brigitte. - Ele já está de saída. 
Eu ri. 
- Não estou, não. Meu nome é Bennett, e sei muito bem quem você é. 
Foi a vez do meu amigo rir. 
- Tu não é aquele detetive meia-boca que foi preso? 
- Tirando a parte do meia-boca, sou eu mesmo. 
Tião Medalha sentou no sofá de frente pra mim. Seus olhos faiscavam. 
- Olha, cara, tu foi uma mancha pra corporação, sabia? 
- Antes isso que ser uma vergonha para os cafetões... 
Brigitte percebeu a linha de tensão entre nós e mandou ficarmos calados. Olhou para o Tião e disse: 
- Eu vou te pagar, só preciso... 
- Cansei de esperar - então ele olhou para mim. - Vai mesmo ficar aqui? 
- Amém. 
O filho da puta meteu a mão no bolso e disparou. A bala atingiu o peito lindo da francesinha, que tombou no carpete fedorento. Ainda respirava e mantinha os olhos fixos em mim, como se implorasse por socorro. 
- Nem pense em ir ajudá-la - disse ele. - Daqui a pouco ela morre. Enquanto isso, eu quero saber direitinho o que você fazia aqui antes de eu chegar. 
- Trabalho de campo. 
- Você está fora da policia. 
- Detetive particular. O dono da boate é amigo meu. 
- Você é amigo do Franco? 
- Oui, monsieur. 
- Então avisa a ele que tem um corpo aqui - ele levantou e, mantendo o cano apontado pra mim, saiu do apartamento. 
Merda. 


V. GRAN FINALE 


- É isso mesmo. Mortinha. O que você queria que eu fizesse? Relaxa, você consegue outras. 
Franco estava inconformado. Justo. 
- Bennett, eu te mando seguir uma garota. Só seguir uma garota, e tu me volta com um cadáver? Porra, e agora? Me diz? Polícia batendo na minha porta pedindo explicações! 
Clique. 
Desliguei. Não estava afim de ficar ouvindo o Franco reclamando no meu ouvido. 
Olhei para o porteiro estendido na cadeira. Pobre Freddie Mercury. Deitado no chão, ao lado dele, meu amigo Medalha. Apanhei o filho da mãe porque o elevador de serviço demorou demais. Abençoado seja o elevador de serviço. Destruído seja nosso sistema burocrático.
Tião Medalha ainda respirava. Acertei sua perna logo após ele matar o porteiro. Queima de arquivo, rapaz esperto. 
Meti o telefone no bolso da calça. A chuva aumentara consideravelmente. 
- E agora, garotão? 
- Vai me matar? 
O sangue escorria pelos cantos da boca dele. Mate seus inimigos, eu não tive a oportunidade de fazer isso. Pensamento de Bentinho, vulgo Dom Casmurro. Perdão, Machado de Assis. 
Sorri. 
Tião Medalha cerrou os olhos. 
Puf. Puf. Puf. 
Ah, o silenciador. 

 

O condenado

A resistência é inútil. Chega uma hora que todos nós devemos nos render. 
O homem que promoveu o fim de alguma guerra.




" Eu te amo mais que tudo, talvez por isso eu esteja sendo obrigado a fazer o que eu vou fazer. A situação está insustentável, eu não sei o que fazer. Te amar está virando uma doença. E não há, assim dizendo, um método consicente de deixar de fazê-lo. 
Lembra quando a gente se conheceu? No parque, com todo mundo correndo ao redor das árvores, brincando? Eu tinha só seis anos, tempo suficiente para desenvolver nos confins da minha massa encefálica algum tipo de substância que me apontasse a direção certa. E apontou. Assim que eu te vi correndo junto com seu cachorro, rolando no chão com aqueles cachinhos loiros que agora são brancos, eu nunca mais consegui pensar em mulher alguma. Eu te amo mais que tudo. 
Não, por favor, não me olha com essa cara. Você sabe que é verdade. 
Se algum dia, por ventura de um destino falho e incompetente, eu deixar de te amar, saiba que o mundo se desintegrará. Este dia nunca chegará, fique tranquila. Eu estou condenado, em toda a minha existência - seja ela material ou não -, a te amar incondicionalmente. O que você me ensinou ninguém poderia ter ensinado; nem mesmo o mais gabaritado de todos os professores. 
Camões disse que o amor é fogo que arde sem se ver, mas acho que ele estava errado. Até hoje, quando te olho, ainda que você esteja nessas condições, enxergo dentro de ti uma chama que nunca se apaga. O gás pode estar se esvaindo conforme os segundos passam, é bem verdade, mas não creio que sua chama irá se apagar. Existem coisas que são eternas. Você é uma delas. Não te amar seria impossível. 
Permaneça quieta, apenas me escute. 
Eu te amo como nunca amei ninguém. 
Você acha que era fácil para mim chegar e ver aquela casa completamente desestruturada, com nossos filhos brigando a todo momento? Não, não era. Você acha que foi fácil construir todo um legado para um simples incêncio, e este foi muito diferente daquele incêncio que fazíamos dentro das quatro paredes, consumir toda uma vida? Segundos, uma efemeridade. Mas a vida é isso, a vida não deixa, em sua essência, de ser isso. Uma efemeridade. Assim, com um simples estalar de dedos. 
Não force sua voz, resta-lhe pouco tempo, querida. Apenas me escute. Escute também as batidas do relógio. Estamos todos aqui, neste espaço tão pouco cativante que é um hospital, prontos para lhe dar a benção. Eu te perdôo por todos os erros não cometidos; por todo o amor a mim doado; por toda a atenção que você me deu. Atenção, amor e erros que deveriam ter sido cometidos para que eu não me acostumasse a te olhar todos os dias ao acordar. E para que eu não faça o que farei em instantes - a maior declaração de amor que um homem poderia fazer. 
Ao dizer que te amo, me privo de toda a racionalidade que a sociedade e os negócios me fizeram conquistar. Ao dizer que te amo, acima de tudo, levanto a hipótese de trazer à vida as chamas da irracionalidade, dos procedimentos ilógicos, e de tudo o que a Ciência rejeita. Mas eu não sou um homem da Ciência. Após minha partida, quem será capaz de reconhecer meus esforços? A Ciência não existe. A Ciência discorre sobre o existente. Mas e o inexistente? 
Desculpe, querida, estou tomando seu tempo, não estou? Garanto que não me demorarei, é só porque ensaiei tantas vezes este discurso, foram semanas pensando em como fazê-lo. Agora eu sei. 
Tua aliança está mais bonita. Está linda em seu dedo. Nas veias corre o sangue azul que nunca tivestes, mas que deveria ter tido. Se quiser, eu busco para você. Mato um príncipe, uma princesa, só, somente só para ter a realeza em ti. 
Casei-me com uma rainha. A rainha mais moral de todas. 
Meu discurso se aproxima do final. As lágrimas que esperei que fossem cair não caíram. É pena. Seis horas. Tudo dentro do cronograma. 
Os céus te esperam, teu vôo será alto. Mas a altitude é relativa, no espaço não é possível determinar um início, meio e fim. Ainda bem. Espero que tua semente sirva de material para povoação de novos mundos. E assim será, tenho certeza. 
Nunca irei te abandonar. Este plano é muito subjetivo para ser entendido. 
Eles estão esperando, tenho de ir. 
Nunca se esqueça que, acima de tudo, eu te amo. Eu nunca amei tanto alguém como eu te amei, amo e sempre amarei. " 
O homem, franzino, abriu a pasta que carregava embaixo do braço. Olhou mais uma vez o diagnóstico: câncer em estado terminal. 
Com os olhos abertos, gotas de lágrima escorrendo pela pele fina, a mulher de cabelos brancos sorriu. 
" Obrigado ", disse. 
Sem dizer uma única palavra, o velhinho abaixou-se ao lado da poltrona e arrancou da tomada o benjamin que continha todos os fios. Imediatamente, os barulhos e dados que ecoavam pelo quarto daquele hospital cessaram. 
As batidas na porta começaram. Ele olhou para a chave em sua mão. Os pedidos para que ele abrisse a porta eram inúteis. Não iria fazê-lo. Ponto final. 
Levantou-se da cadeira e observou a mulher. Ainda respirava. Então, em um único gesto, ele desceu a mão da testa até o queixo, cerrando as pálpebras. 
Antes que o coração parasse definitivamente, ela disse: 
" Adeus." 
O velhinho retornou à cadeira e ficou olhando quando uma única pomba branca cruzou os céus. Um facho de luz cortou-lhe as penas. Foi naquele instante que ele teve certeza. 
Quando os médicos finalmente arrombaram a porta, encontraram-no sorrindo. Não ofereceu resistência. Fez o que tinha de ser feito. 
Antes de desaparecer na escuridão da luz fria dos corredores hospitalares, ele virou-se subitamente para o quarto e olhou a esposa. 
" Adeus ", falou. 

 

Não há crime nas pradarias

Existe, para nós escritores, uma tendência natural a interpretar fatos histórios e/ou lendas de acordo com nossas percepções. Como exemplos, temos Ulisses, de James Joyce; Agosto, de Rubem Fonseca, e aí por diante. Aos que entenderem este texto, meu agradecimento. A Errol Flynn, minha admiração. E a Lorena, a Alsácia. 

PARTE I.  INÍCIO 

Majestade! Como se atreve a cessar a guerra? Sim, eu sei que podes, mas acho melhor que não o faça. Ora, tu sabes o por que. Não, não compactuo com tais atitudes. Que morra! 
O que deseja, Servo? Faço o que me dá vontade, seu louco. E por que? Tente compreender as atitudes que tomei. Se continuar, será punido. 
Saí do palácio e embrenhei-me pela mata. Ele ia me matar, eu tinha certeza. 
Soldado! 
Sim, Majestade? 
Ordene a suas tropas que matem o Servo! 
Eu podia sentir os homens montados em seus cavalos brancos. Por que o Senhor quisera que eu nascesse pobre? 
Não posso tolerar tal rebeldia, Conselheiro. 
Eu compreendo, Majestade. Mas tente entender, R. é um servo, um servo! Não se rebaixe! 
Não me rebaixarei. 
Mas, que eu mal lhe pergunte, por que ele desejou continuar a guerra, Majestade? 
A guerra deveria ter prosseguido, eu sentia. Fui lá falar com o homem, ver se ele tomava alguma providência. Pela Inglaterra, tudo faço! 
É um insano. Será devidamente capturado e morto. Saia, Conselheiro. 
Pocotó. Pocotó. Pocotó. Pocotó. 
II Regimento, avançar! Cacem o Servo! 
Droga, serei pego. Me embrenho ainda mais na mata selvagem, corro e corto o pé. Os calçados se arrebentam. 
Dividam-se em dois grupos! Um queima a casa do Servo, o outro vem comigo! 

ENTREACT

A guerra durou exatamente três meses, período relativamente curto para os padrões da época. Foram destituídos de suas vidas cerca de duzentos homens do rei Ricardo, e mil do rei Justo. Ao final da guerra, o governo foi mudado. um golpe secretíssimo e articulado por forças ocultas depôs Ricardo, que foi forçado a abdicar o trono em prol das Cruzadas. Ascendeu ao trono seu irmão, João. 

PARTE II.  LENDA 

Consegui escapar daqueles homens. Minha casa, entretanto, foi queimada. Neste período, ascendeu na hierarquia social o neto do poderoso sir Willoughby de Gisbourne. Aliou-se ao rei joão. Os motivos que me levaram a combater o fim da guerra eram baseados no dever que me auto-incumbi de promover a reformulação do Trono. A Corte estava destruída em seus alicerces, tomada por seres imundos que não desejavam o bem das Santas Terras da Inglaterra. 
Soldado! 
Sim. 
Há um movimento contra mim se espalhando nas matas, eu consigo sentir. 
Fique tranquilo, Majestade. Mandarei meus homens para uma inspeção minuciosa. Cada centímetro da floresta será inspecionado. 
Não há crime nas pradarias, lugar de gente rica. Mas sim, nos confins de Sherwood. Uma ofensa ao falecido Lorde Sherwood. 
Sem dúvidas, Majestade. 
E quanto ao meu irmão? 
Acreditamos que esteja morto. Lothar, o Vil, foi por mim contratado para cometer o assassinato. 
Excelente. Ricardo não deve retornar a estas terras. E quanto a sir Guy, notícias? 
Aparecerá para o ensaio do banquete, esta noite. 
Esplêndido. 

PARTE III. INVASÃO 

Visto minha touca verde. Perfeito. Espada pronta, afiada. 
III Infantaria, procurem por R.! 
O jantar está excelente, Majestade. 
Aprecio teu comentário, sir Guy. 
Estes idiotas da floresta serão pegos. Terão o tratamento que bem merecem! 
Sim. Agora, sir Guy, observe lady Marian. 
Muito bela, Majestade. 
Terei o cuidado de lhes apresentar ao final do banquete. 
Perfeito, melhor impossível. 
Desço por uma janela e encontro uma bandeira. Corco com a espada a corda que prende o pano ao mastro e agarro com força. Pulo, ganho os ares do castelo e estou no jantar. 
Mas o que é isto?
Boa noite, senhores! Sorriso no rosto. Ah, sim, é o chapéu? Compreendo. Vim para fazer uma lavagem. 
Sir Guy, o que acha deste infeliz? 
É um tolo, certamente. Quem é você? 
Locksley.  

PARTE IV. CONTINUAÇÃO 

E o que pretende, sir Locksley? 
Dos ricos aos pobres, de uma só vez. Igualdade entre todos. E por Ricardo, obviamente. Todos vocês sabem que Ricardo está vivo! 
Mas como não estaria? 
Não pode estar. Mandei matá-lo. Perderei meu posto de Soldado. Maldito seja Locksley! 
Majestade, está ciente que quando nós tomarmos o poder, serás devidamente punido? 
Tomarmos, sir Locksley? Quem tomará o poder? 
Meu exército, naturalmente. Mordisco uma maçã, eles estão com medo. 
Ah, então admites tal formação? 
Com toda certeza. 
Soldado, prenda este criminoso! 
Luto até o fim. Mato sete homens e consigo escapar. Meu exército me espera. O Frei termina de devorar um pedaço de carne. 
Como foi? 
Excelente. 
Haverá um novo jantar daqui a dois dias, não? 
Correto, Frei. João não poderá cancelar, toda a nobreza já foi avisada e a maioria poderá comparecer. 
E o que você pretende fazer? 

PARTE V. NASCIMENTO DE UMA LENDA 

Dobre, triplique a segurança, Soldado! O jantar deverá ser soberbo, sem interrupções. Caso R. apareça, prepare-se para perder a cabeça. 
Sim, Majestade. 
Montamos nos cavalos. Eles são negros como a noite, uma oposição feroz aos corcéis brancos das cavalarias reais. Consegui montar um bom exército, e digo isso sem falsa modéstia. Viraremos lendas, senhores! Seremos imortalizados! 
Viva R! Viva! Viva! 
 
EPÍLOGO 

Ricardo voltou das Cruzadas são e salvo. R. sobreviveu, o exército limitou-se a alguns homens. A linhagem original do rei Ricardo foi restabelecida. Lendas sobre tal época se propagaram ao longo dos anos, mas nenhuma delas conseguiu ser comprovada. Em homenagem a tal bando, e principalmente a tal homem, um túmulo foi erguido na mata de Sherwood. 

POST SCRIPTUM 

Pelo rei matei, pelo rei morri. 
R. mereceu a morte. Não deveria ter assaltado as propriedades de sir Archibald, é praticamente uma carta de confissão. 
Mas ele não morreu, Majestade. O senhor sabe! 
Há coisas que devem permanecer ocultas para a eternidade, Conselheiro. 

 

O caso do ator que era Deus

I. O DETETIVE QUE NÃO GOSTAVA DE ATORES

Não sei se já falei que odeio atores. É um porre de interrogar, você não sabe se eles estão mentindo ou não. Explica-se: nós, policiais e detetives, somos treinados para arrancar a verdade das pessoas. E os atores são treinados para ocultar a verdade. Ou seja, um anula o outro. 
O tal do Carlos Zemanova apareceu na minha frente enquanto eu lia o jornal. 
- O senhor é o Bennett? 
- Depende - respondi. 
- Como assim? 
- Se você quer um detetive, eu sou o Bennett. Se você quer outra coisa, disque vai se foder. Cinco reais mais impostos. 
- Eu quero um detetive. 
- Eu sou o Bennett. Prazer. Sente-se nessa cadeira aí e me diz o que aconteceu. 
Zemanova sacudiu a barriga gigante ao sentar e disse: 
- Eu tenho uma companhia de teatro... 
Puta que pariu. 
-... e um dos nossos integrantes foi morto. O problema é que todos nós estávamos ensaiando para a peça, e o Lasar estava em casa. 
Segall? Haha. Digo, Roitman? Haha. Compostura, Bennett. 
Falei: 
- Quando foi isso? 
- Ontem. Não quisemos chamar a polícia, sabe como é. 
- Sei, sim. 
E eu sabia. 
Zemanova pigarreou, fitou-me e disse: 
- E então? 
- Estou pensando. 
- No quê? 
- Nas vantagens do caso. Não pego qualquer caso. 
- Eu pago bem. 
- Onde sua companhia se apresenta? 
- Qualquer teatro que nos aceite. Estamos em cartaz num teatrinho do Leblon. Eu pago bem. 
- Entendi. Olha... 
- Mil reais por semana. 
-... eu não sei se... Digo, negócio fechado. 
Ele levantou e tirou do bolso um cheque já assinado. Quinhentos reais. Dava pra sobreviver. 
- Este é o meu cartão, assim que você for aparecer para falar conosco, me dá uma ligada, para que eu possa cancelar o ensaio. 
Peguei seu cartão e sorri. É, eu era um bom ator. 

II. O ATOR QUE ERA DEUS 

Os atores da Companhia de Teatro Ribeirão Amarelo eram muito simpáticos, e não apresentavam o menor sinal de serem assassinos. Fiz questão de observar cada um deles de modo ímpar, ou seja, sendo bastante preconceituoso, bem parcial mesmo. 
Zemanova me recebeu de braços abertos, sorrindo feito um jumento após cheirar uma carreira. Colocou aquela mão redonda no meu ombro e disse para seus comandados, à nossa frente formando um semi-círculo: 
- Este é o detetive Bennett. Ele conduzirá as investigações sobre a morte do Lasar. 
Obrigado, obrigado. Porra, não me olha com essa cara, sua piranha. E aí, tudo bom? Sorri, Bennett, sorri. Isso. 
- Olha - disse Zemanova -, você pode entrevistar cada um deles, eu vou tomar um cafezinho e já volto. Sinta-se a vontade. 
- Na verdade, seria melhor se eu pudesse entrevistar todos de uma só vez. 
Olhei para o grupo. Contando com o Zemanova, eram cinco pessoas. Que tipo de peça eles estariam fazendo? 
- Que peça vocês estão fazendo? 
Uma mocinha loira de olhos azuis respondeu. 
- A Morte de Deus. É uma interpretação da obra de Nietzche. 
- Hum. Qual seu nome? - perguntei. 
- Isabela. Prazer. 
Depois passa no meu escritório, vamos conversar um pouquinho, hehe. 
Zemanova me olhou e disse: 
- O Lasar ficou com o papel de Deus. 
Um homem que estava ao lado de Isabela falou: 
- Ele ganhou o papel e ficou se achando. Sentia-se melhor que todo mundo aqui. A propósito, meu nome é Amadeu. 
Todos os atores possuem nomes estranhos, nunca vi isso. 
- Há quanto tempo vocês ensaiam esta peça? - indaguei. 
- Dois meses - respondeu Zemanova. - É muito complexa. Mas agora que o Lasar morreu, não creio que possamos encená-la. 
- Claro que podemos! 
Parei para olhar. Outra mulher. Mais velha, corcunda, parecia um Quasímodo de saias. 
- Sou Clarice. Meu marido fundo a Companhia junto com o Carlos, sabe? Ele era membro da federação de tiro, morreu de infato há uns dois anos. Seja bem-vindo.
Parecia ser boa atriz. 
Despedi-me de todos e segui a direção da porta. Já estava na rua, esperando o sinal fechar para poder atravessar, quando um rapaz moreno de lábios grossos me chamou. 
- Sim? 
- Você não falou comigo. 
- E quem é você? 
- Antunes. Fábio Antunes, namorado do Lasar. 
Ator e bicha. Sim, como não? 
- Ah, prazer. 
Apertamos as mãos. O sinal fechou e eu comecei a andar. Fábio me seguia. 
- Estou indo tomar um café - falou. - Se quiser me acompanhar, posso te explicar algumas coisas a respeito dessas pessoas. 
- Não gosto muito de homem, foi mal. 
- Nada disso, fica frio. Eu só quero conversar mesmo. Não precisa ser preconceituoso. 
- Está bem - respondi. - Mas que seja rápído. 

III. CONVERSA DE BOTEQUIM 

Eu já havia terminado meu café, e Fábio também. Não havíamos tocado no assunto durante a comilança - dois sanduíches de presunto, cada. 
- E então? - falei. - Você disse que tinha coisas a me contar. 
Fábio sorriu. 
- Sim, de fato. imagino que o Zemanova já tenha lhe contado sobre a morte do Lasar. Digo, como ela ocorreu. 
- Na verdade, não. Conte-me você. 
- Atiraram nele. Duas vezes. Tadinho, o caixão vai ter que ficar fechado. 
Tiro na cara. Vingança? 
- Ele tinha inimigos? - indaguei. 
- As pessoas começaram a desgostar dele, sabe? Ele realmente achou que era Deus, começava a mandar em tudo. Brigava com o Zemanova em todos os ensaios. Vivia querendo mudar o roteiro, etc. 
- Imagino a merda que isso deve ter dado. 
- Tu não tem noção - disse Fábio. - Mas eu costumava o acalmar todo dia. Mandava ele ficar mais quieto, mas ele não me ouvia. 
- Meus pêsames. 
Fábio pediu a conta para o garçom que passava por nós e disse: 
- Cuidado com o Zemanova. Ele só tem de bom a aparência. É um canalha de primeira. 
- Interessante. 
- Cuidado também com a Isabela e com o Amadeu. Rolam boatos que eles costumam se pegar após os ensaios, mas não é nada concluído. E os dois eram desafetos do Lasar. 
- Imagino que devo tomar cuidado com a velha. 
- Não, ela está limpa. 
- Imaginei. 
- Só por causa da aparência? - perguntou Fábio. 
- Talvez. 
- Nananinanão. Ela pode ser bem má, mas a razão principal é porque ela adorava o Lasar. Menino, era uma coisa de louco aqueles dois. Pareciam mãe e filho. 
O graçom trouxe a conta. Tentei pagar, mas o cara não deixou. Cortesia da casa, disse. Ok, melhor pra mim. Agradeci o lanche e saí. Apanhei o táxi e vim para casa. 

Telefonei para o Franco por volta das cinco da tarde. 
- Tá rico, hein Bennett? 
- Ainda bem. Vem cá, preciso de um favor seu. 
- Céus... Ok, diga lá. 
- Tudo sobre Carlos Zemanova. Não deve ser difícil, ele é diretor de teatro. 
A linha ficou muda. 
- Franco? Franco? 
- Oi, estou aqui. 
- Que aconteceu, cara? 
- Você realmente falou em Carlos Zemanova? 
- Sim, por que? 
- Sai dessa. 
Merda. 
Franco continuou: 
- O Zemanova era bandido. Ficou preso, foi demitido da rede de televisão onde trabalhava. Tentou estuprar uma atriz. Eu já fui da companhia dele. 
- Tu fazia teatro? 
- Dois meses. Rapei fora quando vi que era encrenca. O cara vendia para os atores drogas pesadas, eles usavam depois dos ensaios. 
- Até aquela velha corcunda? 
- Tá falando da dona Clarice? Ela não sabia de nada, ainda bem. Mas o marido sabia. Mas não usava, lógico. Quantos atores são agora? 
- Quatro. Cinco, contando com o Lasar, mas ele morreu ontem. 
- O Lasar morreu? 
- Você conhecia ele? - perguntei. 
- Lógico. Estava na companhia desde a fundação - respondeu Franco. - Morreu como? 
- Duas balas na cabeça. Coisa séria. 
- Ah, sim. Ainda vai querer a informação? 
- Não, valeu, tu já disse tudo o que eu precisava. 
Pude perceber a ira do Franco ao ver que realmente havia me dito tudo o que eu precisava saber. 
Clique. 

IV. O CRÂNIO FURADO 

O velório foi realizado na casa do Lasar. Além dos cinco membros da Companhia, estiveram presentes a irmã do cara e uma antiga namorada. Fábio permaneceu ao lado dela durante um bom tempo. Imaginei que não se falassem devido às circunstâncias. 
- Olá. 
Isabela. Hum. 
- Oi. 
- Veio nos interrogar? 
- Não, não. Apenas observar. 
Ela usava um vestido. Colocou para o lado uma parte dele e revelou seu seio direito. Rosadinho. Delícia. 
- Fecha isso - falei. - Depois a gente vê com mais calma. 
- É pegar ou largar. 
- Eu largo. 
Isabela saiu com raiva. Eu ri. 
Zemanova largou o drinque numa mesa e veio até mim. 
- Como você está? - perguntei. 
- Bem não estou, mas também nada mal. Apenas ''mexido''. 
Mexidos deveriam ficar os seus ovos, seu imbecil. 
- Ah, sim - falei. 
- E aí, já sabe quem é o assassino? 
- Acho que o coronel Mustarda. 
Zemanova sorriu amarelo. 
- Estou falando sério. 
- Eu também - respondi. 
- Não sei por que te contratei. 
- Nem eu. 
Ele também me abandonou. Faziam dois dias que o Lasar havia morrido, mas o caso, na minha mente, havia evoluído consideravelmente. Eu tinha uma ideia concreta de quem poderia ser o assassino, mas faltava o motivo. A conferir. 
Dona Clarice caminhou pela sala observando todos. Aproximou-se do caixão e passou a mão sobre a madeira. Percebi as gotas de lágrima que escorreram de seus olhos, mas não demonstrei emoção alguma. Ela parecia ser gente boa. 
Isabela se aproximou dela e colocou as mãos em seus ombros. Gentil. 
Zemanova tentava cortejar a irmã do Lasar, sem sucesso. 
Fábio me encarava de vez em quando, mesmo sabendo que eu era heterossexual e que não iria comer a bunda dele. 
Amadeu passava por trás de Isabela a todo instante, mas não aparentava algo físico. Eu tinha medo daquele cara. 
A ex-namorada do Lasar me olhava de vez em quando. Alternava com o Fábio. Eu preferia o olhar dela. 
O tiro cortou a sala e entrou no crânio da ex-namorada do Lasar. 

V. FINAL NÃO ROTEIRIZADO 

Joguei-me no chão, e assim fizeram todos. O corpo tombou e atingiu o caixão, levando-o consigo de encontro ao chão. A tampa abriu e todos nós pudemos ver a cabeça dilacerada do Lasar. Sua ex-namorada estava deitada ao seu lado. Romântico. Macabro. Nojento. 
Girei a cabeça váris vezes tentando localizar o autor dos disparos, mas todos estavam deitados no chão. Pensei que faziam o mesmo que eu. Será? 
Mais um disparo. 
Fábio Antunes caiu mortinho da Silva. Os três no chão. Lasar. A ex. Fábio. Rolei para trás de uma mesa e apoiei as mãos no tampo. Ergui o tronco devagarinho, buscando uma arma e um autor. Ou autora. 
- Levante-se. 
Senti o cano duro e frio na minha nuca. Levantei. 
- O senhor é um intrometido, sabia? 
- Infelizmente. 
- Vamos, caminhe até a janela - virou-se para os outros: - Ninguém se mexe. Se eu ouvir um barulho sequer, chumbo todos vocês. 
Parei em frente à janela. Observei Clarice apontando a arma para o meu peito. 
- Abre a janela. 
Abri. 
Quando percebi que ela ia atirar, chutei sua canela e me joguei para o lado. Ela perdeu o equilíbrio e curvou-se para a frente. A cabeça atravessou o parapeito e ganhou os ares. Seu corpo fez o mesmo. Agarrei com precisão seus pés. Gritei para Zemanova. Bora, filha da puta, me ajuda aqui. Ele veio e me ajudou. Tomei a arma e ele ligou para a polícia. 
- Clarice? - indagou Isabela. 
- Sim - respondi. - Não estava muito claro na minha mente, mas agora tudo faz sentido. Ontem, assim que eu saí do teatro, Fábio me chamou para tomar um café e me contou tudo a respeito de vocês. Falou da relação estreitíssma que ela tinha com o Lasar. Percebem o motivo? 
- Não - disse Zemanova. - Explique para a gente, detetive. 
Fiz uma pausa, engoli saliva, ninguém é de ferro, e continuei: 
- Eu acredito que ela tenha ido até o apartamento do Lasar e pedido para ele deixar o namorado. Velhinhas viúvas tendem a serem bastante ciumentas. Ela, ilusoriamente, devia estar apaixonada por ele. Achou que o cara poderia querer alguma coisa. Aproveitou o fato do falecido marido ter sido membro da federação de tiro e apanhou alguma arma. Matou por puro ciúmes. Ninguém suspeitaria de uma velha. E, creio eu, ela não devia ter o reconhecimento necessário dentro da Companhia. Vamos lá, todos vocês sabem que uma velha corcunda não serve para nada, a não ser que seja viúva do fundador. 
- Impossível - disse Zemanova. - Não acredito. 
- Porra, meu filho, tu acabou de ver a mulher quase me matando. 
Carlos Zemanova calou-se. Olhou para Clarice, que chorava compulsivamente. Cheguei a sentir pena dela, mas tratei de me mandar. A polícia já iria chegar, e eu não gosto dos policiais. 
Desci as escadas e ganhei as ruas. O delegado Vasconcellos passou por mim e não me reconheceu. Eu estava tão diferente? Sério mesmo? 
Melhor assim. 

 

O caso do Turco Bispo

Para Lorenita. Espanholita. Espanhola. Hmm.

I. UM MARIDO DESAPARECE

A tal da Selina Vega era bem conhecida, mas eu só fui saber de verdade quem ela era quando cruzou a porta do meu escritório. 
- Detetive Bennett? 
Opa. 
- Eu mesmo. Diga lá. 
Olhos negros. Peitos médios. Cabelo solto. Gostosa. 
- Sequestraram meu marido. 
Interessante. 
- É mesmo? 
Ela fez um muxoxo. 
- É - respondeu. - Você pode me ajudar? 
Eu adoraria. 
- Duzentos reais - falei. 
- Tudo isso? 
- É pegar ou largar. E olha que ainda estou cobrando barato. 
E tava mesmo. Mas eu tinha acabado de sair da cadeia, não podia me dar o luxo de sair cobrando caro pra caralho de todo mundo. 
Ela disse: 
- Ok. 
Apanhei um bloco de notas em cima da mesa e rabisquei qualquer coisa. 
- O que é isso aí? - perguntou ela. 
- Preciso que você me diga tudo a respeito do seu marido. 
Selina Vega passou a mão nos cabelos de modo cinematográfico. 
- Está bem - falou. - Sequestraram o Antenor ontem. Ele saiu para o trabalho e não voltou mais. 
- Isso não é sequestro, madame. 
- Lógico que é. Ele sempre volta, dessa vez não voltou. Ele foi sequestrado. 
- Ah, é? - falei. - E por quem? Pelos duendes da Tasmânia? 
Selina me lançou aquele olhar escroto típico das mulheres. Se fosse uma festa eu teria levado um fora. Mas eu estava em posição superior. Hehe. 
Ela disse: 
- Meu marido possui uma loja de ferragens. O problema é que o bairro é controlado por um bicheiro. Ele cobra proteção, coisa alta. Não sei so valores, não adianta nem você perguntar, porque o Antenor nunca disse. 
- Eu não ia perguntar, minha senhora. 
- O problema é que há dois meses atrás a loja começou a entrar numa queda absurda de lucro, ou seja, não tínhamos o dinheiro que o bicheiro exigia. Ele nos deu um ultimato: até ontem para pagar. 
- Caso contrário... 
- Caso contrário ele pegaria o Antenor.  
Estendi uma caixa de lenços para ela. Odeio ver as pessoas chorando, me sinto desconfortável. Vai chorar na puta que o pariu. 
- A propósito, qual o nome do bicheiro? 
- Turco Bispo. 
II. COLHENDO INFORMAÇÕES 

Esperei ela sair - depois de me dar os duzentos reais, é lógico - e puxei o telefone. 
- Alô, Franco? 
Quatro anos que eu não via o Franco. E nem pretendia ver. Nosso contato era estritamente profissional, ver não estava no pacote. 
- Bennett! 
- É o meu nome. 
- Engraçadinho. 
- Sempre. Escuta, preciso de umas informações. 
Lá vem reclamação. 
- Aumentei o preço. 
 Ou aumento. Franco sempre aumenta o preço, parece que vive numa crise financeira eterna, parece banco do interior. Impressionante. 
- Não tem problema - falei. - Quero saber tudo sobre o tal do Turco Bispo. 
Não vi, mas senti o Franco congelando. Bicheiro, sério mesmo, Bennett, deve ter pensado. 
- Você tá metido com bicheiro? - indagou. 
- Algum problema? 
- Tu acabou de sair da prisão, larga de ser burro. 
- Agora sou detetive particular. Cobro duzentos contos e investigo tudo. Menos marido traidor, porque isso implica seguir o sujeito, e eu não nasci pra seguir as pessoas. 
- Tu não toma jeito mesmo, viu. Ok, vou fazer o possível. 
- O possível e o impossível. Preciso disso para, no mais tardar, amanhã. 
Desliguei. 

Selina Vega me deu o telefone de casa e pediu para que eu fosse ligando conforme as pistas fossem surgindo. 
- Dona Selina Vega está? 
- Um momentinho. 
Voz de empregada é uma merda, sempre igual. Parece japonês, só que você não vê, só ouve. 
- Alô. 
- É o Bennett. 
- Ah, até que enfim. 
Ela deixara meu escritório há emenos de duas horas. Devia ver muito filme, essa tal de Selina Vega. 
- Então - prossegui -, um informante vai descobrir o que puder sobre o Turbo Bispo. 
- Ah, sim. 
- É uma pista. 
- Pistas concretas, detetive. 
- Não uso tijolo no meu trabalho. 
Desliguei. 
Perua escrota. 

Franco retornou a ligação quando eu já estava dormindo. Durante o dia eu caminhei pela calçada, observei o movimento das pessoas e fumei um cigarro. Já fui viciado, não sou mais. O problema é que de tempos em tempos me dá uma vontade de fumar. 
Apanhei o telefone e atendi. 
- Bennett, foi mal ligar a essa hora. 
- Não importa. Isto é, desde que você tenha descoberto alguma coisa. 
- Descobri. 
Dei um salto da cama e acendi a luz do abajur. Pés no chão. 
- Diga lá - falei. 
- O cara mora na Rua Alice, a uns cem metros da casa da Gisele, onde tu matou aquele sujeito. 
Merda. Mil vezes merda. 
- Endereço, por favor. 
Franco falou e eu anotei no bloquinho branco. 
Desligamos. 
Apanhei o telefone e liguei para dona Selina Kyle, digo Vega. 
- Alô... 
Voz de sono. Haha, gostei. 
- Descobri onde seu marido está. 
- Bennett? 
Não, Turco Bispo. 
- Sim, sou eu. Vou aparecer lá pela manhã, pode ficar tranquila. 
Ela agradeceu e embargou a voz. Senti que ia chorar e desliguei. Pior que ver alguém chorar é ouvir alguém chorar. Aqueles milhares de sons misturados. A maior merda. 


III. A CEM METROS DE QUATRO ANOS ATRÁS 

Acordei bem cedo para os meus padrões. Comi um pão com queijo, tomei um iogurte de aveia e fiz minhas necessidades lendo o jornal - mais um escândalo político, só para variar. Isso aí, Brasil. Vesti um terno surrado que encontrei jogado no armário, botei uma social branca por baixo e uma gravata vermelha. Pronto, agora sou um executivo da Bolsa, um corretor imobiliário, um presidente em visita secreta. Sou engraçado. 
A casa do Turco Bispo, se é que ele estava lá, não aparentava ser vigiada. Janelas fechadas por tábuas sobrepostas e pregadas, estilo filme de terror dos anos trinta. Uma beleza. De repente senti minha vida em preto e branco. Fachada azul, portinhola antes do quintalzinho mal conservado. Esses criminosos de hoje, sem o menor estilo. Onde estão os doutores Sheppard da vida? Céus. 
Tentei forçar a portinhola, foi quando um rangido de ferro enferrujado - cacofonia mil - alertou alguém dentro da casa. Apareceu um sujeito gordo, alto e com uma protuberância na cintura. Arma. Fodeu. 
- Bom dia, cidadão. 
- Bom dia - respondi. 
- Tá procurando alguém? 
- Depende. 
- Como assim, irmão? 
Estou te irritando? Se estiver, avisa. Não curto provocar criminosos. 
- Se você for um criminoso e trabalhar para o Turco Bispo, sim, eu estou procurando. Caso contrário, deixa pra lá. 
O gordão abriu um sorriso. 
- Vem comigo - disse. 

A porrada foi forte, devo confessar. Um cara ouvia / via tudo atrás da porta, ou seja, se posicionou atrás de mim e acertou minha cabeça. Desmaiei. 
Acordei ao lado de um homem, ambos amordaçados. Achei que tinha visto a velha com a foice, mas foi só uma planta no quarto. Quem guarda plantas no quarto? Aquele Turco Bispo devia ser bizarro. 
O gordão que me levou para dentro apareceu. 
- Vejo que vocês já se conheceram, detetive Bennett. 
- Como você sabe meu nome? 
- Tu não é o único com informação por aqui, não. 
Ele se aproximou e calçou um soco inglês. Me deu três murros na cara. Não consegui desviar. Senti o sangue escorrendo pela cara e o frio passando pelo corpo. Olhei para meu amigo. 
- Esse daí apanhou tanto que fica só dormindo - falou o gordão. - Nós vamos despachar vocês dois pela noite. Faltam duas horas. Tenta acordar o Antenor aí. 
Grande Antenor Vega.  G.A.V. Gaviões Alçando Vôo. 
Dei dois chutes nele, de leve para não sentir dor. O cara dormia em sono profundo. Chutei com mais força. Ele acordou. 
- Quem é você? 
- Bennett. Sua mulher me procurou para tentar te achar. Achou. Digo, achei. 
A cara do Antenor Vega era horrível. Destroçada por vários furos, marcas de soco inglês. Tinha uma tipóia no braço, estava completamente quebrado. Os ossos deviam estar triturados.  Coitado. 
- Vão nos matar - falei. - Temos menos de duas horas para tentar nos livrar. 
- Não adianta. Eles vão me matar, eu sei. 
Rapaz convicto. Burro, sem esperança, mas convicto. Pena que uma coisa não anula a outra. 
- Eles te bateram? - perguntou. 
- Três socos na cara. 
- Comigo foi pior, sinta-se feliz. Devem ter triturado meu braço. Eu durmo para não sentir dor. 
- Desculpa por te acordar. 
- Que isso, não foi nada. Agora me deixa dormir. 
Deixei. 
Pensei naquela mulher sem sal que era a Selina Vega e dormi. Não adianta ter um corpo bonito se é burra. Essas coisas, ainda bem, se anulam. 

IV. SOLUÇÃO TUPINIQUIM 

O gordão nos acordou por volta das oito da noite. 
- Houve um pequeno atraso, mas está tudo nos trinques. 
Dois homens entraram e nos arrastaram pela casa, até entrarmos num quartinho que dava para uma garagem anexa. Jogaram eu e o Antenor para dentro do porta-malas e bateram com força. Repetiram o processo, a primeira batida acertou o tornozelo do Antenor. Coitado dele. 
O ar dentro daquele lugar era insuportável. Achei que fosse morrer asfixiado. Finalmente senti o carro parar. Deu um tranco, girou lentamente e parou. Abriram a mala. Tiraram eu e o Franco de dentro dela. Estávamos numa curva sinistra no meio da subida para Santa Teresa. Local perfeito para uma desova. Triste fim de Bennett. 
- Anda, encosta a mão no muro. 
- Pai nosso que estás no céu - começou o Antenor - Santificado seja vosso nome... 
Não tinha saco para rezar. Acho que vou para o inferno, pensei. 
Tentei ensaiar uma virada espetacular, mas não consegui. Girei a cabeça e o Antenor caiu. As costas foram ficando encharcadas de sangue. Vai com Deus, amigão. Chegava a minha vez. Segunda experiência de quase-morte. Essas coisas só acontecem comigo, é impressionante. Esperei, e nada. Dois minutos depois, assim que virei, o gordão disparou contra os meus pés. Depois acertou meuis braços e entrou dentro do carro. Caí no chão urrando de dor. Fiquei ali durante uns vinte minutos. Tomei coragem e desci a rua toda, chegando até a das Laranjeiras - e aí já era quase meia-noite. 

Casa. Duas da manhã. Meu vizinho sabe que eu sou detetive, liguei para ele e pedi para extrair a bala. Ele mandou eu ir para um hospital, mas eu disse que não ia. Não quero me meter com polícia, falei. 
Dispensei o cara após dar trezentos contos pela boa vontade. Era pouco, mas eu não sou rico. 
Clique. 
- Alô. 
- Achei seu marido. 
- Ai meu Deus, onde ele está? 
- Sobe a rua Alice inteira. Segue na direção de Santa Teresa e olha para os lados nas curvas. Vai ver um homem de branco deitado em frente a um muro. É ele. 
- E por que você não o trouxe, porra? 
- Não sou enfermeiro - respondi. - Sou bonito, gostosinho, mas não sou enfermeiro. 
- Seu lixo! 
- Eu encontrei seu marido, porra! 
- Ai, ok. Curva, deitado em frente a um muro. 
- Isso. Me liga assim que achar ele, quero saber se ele está bem. 
- Pode deixar. 
- Ah, mais uma coisa - falei. - Ele está com uma bala nas costas, cheio de sangue. 
- Morto? - indagou Selina. 
Clique. 

Três da manhã. 
Triimmm. 
Clique. 
- Alô. 
- Filho da puta! Eu vou te matar! 
Clique. 

 

Bennett cai


O bater de asas de uma borboleta no Cone Sul pode provocar um tufão no Oriente.
                                                Teoria do Caos



I. TEORIA DO CAOS

Bennett estava sentado em sua cadeira giratória sem se importar com o que acontecia do lado de fora da delegacia. Estava tentando apenas montar uma linha de raciocínio relativamente simples: como seria capaz de uma borboleta que estivesse no Cone Sul provocar um tufão no Oriente? Não seria tão simples, seria? Ela deslocaria o ar, como assim? 
Anotava alguns pensamentos em um bloquinho quando um dos policiais que acabara de chegar à delegacia, fruto de mais uma medida do Governo, bateu na porta. 
- O senhor tem visitas. 
Bennett encarou o rapaz. Magro, vinte e poucos anos. Carregava uma pistola no coldre, nada demais. Inofensivo, pensou. 
- Diga que estou sem horário - respondeu. 
- É importante. 
- Eu não estou, já disse. 
Antes que o guarda se manifestasse numa insistência inofensiva, o general irrompeu. Vestia seu uniforme verde cheio de medalhinhas coloridas. O bigode estava branco e bem aparado como sempre. Seus olhos azuis já não eram mais os mesmos, estavam mais brancos. 
- Papai? - indagou Bennett. Virou-se para o policial: - Porra, por que tu não me avisou que era meu pai? 
- Eu tentei - respondeu o policial, retirando-se em seguida. 
O general sentou-se na cadeira após fechar a porta. Observou o filho. 
- Sabe, Bennett, eu te criei para ser um militar e você só me envergonhou. Primeiro, optou pela carreira na polícia, quando poderia facilmente ser um general de respeito. Depois, deixa a principal suspeita de assassinar o general Gaspar fugir. Eu deveria ter te educado melhor. 
Bennett pigarreou e disse: 
- Você veio aqui para me dar sermão, brincar de máquina do tempo? Sério mesmo? 
O general disse: 
- Não. Eu vim aqui porque nós temos um problema. 
- Não me inclua nos seus joguinhos, pai. 
- Eu estou com câncer. Terminal. 
Pego de surpresa com a notícia, Bennett não reagiu. 
Ficaram se olhando por dois minutos. O general permaneceu imóvel feito uma rocha. Não derramou uma lágrima sequer. 
Ele disse: 
- Fui ontem ao doutor Marcelo. Não tem mais jeito. Mas como é que você poderia saber, não é mesmo? Nunca me procurou... 
Uma pequena lágrima escorreu de seus olhos. 
Bennett disse: 
- Se eu bem te conheço, tem mais coisa no negócio. 
- De fato - respondeu o general. - Algumas coisas estranhas vêm acontecendo ultimamente. 
- Que coisas? 
- A irmã da mulher que fugiu, a tal de Alice, apareceu lá em casa outro dia. 
- A Alice tinha irmã? 
- Tem. Uma morena. Gisele. 
- E o que ela fez? 
- Me jogou contra a parede e colocou uma faca no meu pescoço. 
O general desabotoou calmamente seu casaco e baixou a camisa que vestia por baixo. Um corte vermelho quase cicatrizando se formava abaixo do pescoço. 

II. A BORBOLETA 

Assim que o general deixou a delegacia, e aí já passava das três da tarde, Bennett ligou para um velho conhecido. 
- Franco, é o Bennett. 
- Aumentei o preço, você sabe, né? 
- Eu pago. Preciso que você descubra tudo o que puder sobre Gisele Deschamps. O sobrenome era outro, mas quando a irmã casou parece que ela mudou para não perder a pose. 
- Deschamps? Não é aquela que... 
- Sim, ela mesma - respondeu Bennett. - Pega essa filha da puta o mais rápido possível. 
Franco fez uma pausa antes de falar. 
- Epa, que que ta acontecendo? 
- Essa vadia ameaçou meu pai. Deu um corte no pescoço dele. 
- Caralho, como ele ta? 
- Câncer terminal. 
- Mas corte dá câncer? 
- Adeus, Franco. 
Clique. 
Não suportava o Franco, mas ele era um bom informante e invariavelmente conseguia informações valiosas. Ele era gordo, bebia cerveja feito água e não temia um câncer. 

A informação sobre Gisele veio dois dias depois, quando o detetive Bennett almoçava em um restaurante a quilo. Seu celular tocou no meio da refeição. 
- Alô. 
- É o Franco. 
- Diga lá. 
- Sua mulher está em um apartamento na Rua Alice, sabe onde é? 
- Não sou turista nessa porra. Me dá o endereço certinho. 
- Setecentos contos. 
Bennett tossiu pelo susto, cuspindo um pouco de comida. 
- Porra, Franco, tu não subiu o preço. Tu decidiu virar político, cacete. 
- Vai querer ou não? 
- Diz aí. 

A casa ficava no alto da Rua Alice e estava bastante depredada. Ripas de madeira substituíam as janelas e eram presas por pregos enferrujados. Bennett checou o número na porta e tocou a campainha. 
Uma moça metida num vestido florido apareceu na porta. Era morena, tinha seios pequenos e estava quase raquítica. 
- Quem é você? 
Bennett sacou a arma do coldre e apontou para ela. 
- Detetive Bennett, polícia. Você é a Gisele, suponho. 
- Merda - disse ela. 
Sentaram-se em um sofá rasgado no centro da sala de estar. 
- Começa a cantar, sua piranha - falou ele, mantendo o revólver apontado na direção do nariz dela. 
- Não sei de nada. 
- Não me irrita... 
- Mas eu realmente não sei de nada! 
Impulso nervoso. 
Bennett pulou em cima de Gisele e começou a bater nela com violência. Por dois minutos agrediu a moça sem piedade. Misturava os gritos com palavrões e frases de apoio ao pai. Estava transtornado. Acabou que chegou um homem forte. Bennett parou com os socos e atirou duas vezes contra o peito do homem, derrubando-o no chão. 
- Quem é esse filho da puta? - perguntou a Gisele, enquanto o homem agonizava no chão. 
- É o meu marido, porra. Você matou ele! Você matou ele! 
- E tu quase matou meu pai, sua corna! 
- Eu não matei, eu não matei. Foi só um susto, caralho. 
Bennett ainda encontrou tempo para socá-la antes de ir até o homem. 
- Qual o seu nome? - indagou. 
- José. José Carlos - respondeu ele. 
Bennett abaixou e apanhou a carteira de identidade no bolso direito da calça. José Carlos Gaspar Silva. Merda. 
Atirou duas vezes contra o crânio do homem e saiu. 

III. O TUFÃO 

O delegado Funchal analisava papeis em sua sala quando o mesmo policial novato abriu a porta de sopetão. 
- Porra, Damasco, já mandei tu bater antes - gritou o delegado. 
- Desculpa, delegado, mas tem uma moça aqui com assunto urgente. 
- Manda entrar. 
Gisele entrou. Estava em choque. As mãos tinham sangue e o corpo tremia. 
- Seu delegado - falou -, aquele homem é um monstro! Um monstro! Ai, meu Deus, ele é um monstro! Ele matou meu marido, porra, ele matou meu marido! 
Funchal pediu para que ela se acalmasse e explicasse o que havia acontecido. Ela falou. Contou do susto que dera no general, do assassinato cometido por Bennett. 
- Não acredito - disse o delegado, embasbacado. Não podia ser. Não o Bennett. 
Retirou o telefone do gancho e discou o ramal. 
- Damasco, chama o detetive Bennett. 
- O detetive Bennett não se encontra, delegado. 
Ele agradeceu e pediu que Gisele aguardasse do lado de fora. Apanhou seu celular e discou o número de Bennett. Silencioso, fora da área de cobertura, desligado. Ele havia fugido. Meteu a carteira no bolso e saiu pedindo mil desculpas a Gisele. 
Guiou pela cidade sem prudência. A todo momento, o delegado cortava os veículos que estavam à sua frente, ziguezagueando sem rumo. Uma equipe da perícia já havia sido enviada para a Rua Alice, mas o argumento e as provas de Gisele eram muito sólidos. Bennett era um assassino, então? Mas por que? Como assim? Não poderia ser. 
Parou em frente a um prédio na praia de Botafogo e perguntou ao porteiro se o detetive estava lá. Não estava. Voltou para o carro e rodou mais um pouco. Passou por várias delegacias, mas Bennett desaparecera. Eram oito da noite quando ele saiu da rodoviária Novo Rio. Ninguém parecido com a foto que ele mostrara havia passado por nenhum guichê de nenhuma das companhias. Retornou à delegacia e parou seu carro. Entrou dentro de sua sala e ficou pensando um pouco. Pegou no sono. 

O trabalho da perícia foi rápida. As digitais de Bennett só reforçavam o depoimento de Gisele. A posição do sangue na cena, assim como o modo em que o corpo estava disposto comprometiam seriamente o detetive. Os trabalhos se encerraram por volta das nove da noite, quando a casa foi lacrada. 

IV. O CAOS 

O sol apareceu por volta das seis da manhã, Bennett não soube precisar ao certo. Virou para o lado tentando se esconder dos raios, mas foi inútil. Sentiu apenas a areia no rosto. Abriu os olhos subitamente, mas não foi suficiente para se dar conta de que dormira na praia. Só percebeu alguns minutos depois, quando enfiou as mãos dentro da calça e ele apanhou com a ponta dos dedos a carteira de identidade do José Carlos Gaspar. 
Merda, pensou.
Deu mais uma olhada na carteira. Em seguida, tateou a região abdominal a procura da pistola. Ergueu-a no ar e viu que ela estava suja de sangue. Só então percebeu que as mãos também estavam. E toda a cena da véspera veio de uma vez só. A raiva, a fúria, o ódio. Tudo junto. Gisele. Funchal. José carlos. Pai. 

Os policiais aproximaram-se com calma. Eram sete no total, todos fortemente armados e andando em um semicírculo. Avistaram Bennett no lugar que o delegado havia indicado, ou próximo dele. Erguia um objeto semelhante a uma arma contra a luz do sol. 
Um deles deu a ordem e todos se aproximaram. Fecharam um círculo, no qual Bennett estava no meio. Ele não reagiu. Contemplou os homens e deu bom dia de forma irônica. Os policiais não deram uma só palavra. Aguardaram o delegado Funchal aparecer, ofegante por correr tão depressa na areia. 
- Bennett, Bennett - disse ele. - Quem diria... 
- Vai tomar no cu. 
- Você está preso sob as acusações de violência sexual, agressão, invasão de domicílio, assassinato sem dar chance de defesa à vítima, entre outros. Não vamos perder tempo com burocracias verbais. Entregue-se. 
- Eu me recuso. 
- São sete policiais contra você, não seja burro. Anda, vamos. Você ainda pode virar esse jogo. 
- Me recuso, porra. 
O delegado fez um gesto com a cabeça. 
- Só para você saber - disse ele -, seu pai acabou de falecer.
Quando os sete homens se aproximaram, Bennett sacou a arma. 
Foi instantâneo. Os disparos de Bennett foram rápidos e acertaram dois policiais, que caíram na areia sem chance de reação. O delegado sacou sua arma. Os cinco policiais também. 
Seis armas contra uma. 
Bennett estava sem saída. 
Alguns velhinhos que passavam pela borda da areia em sua caminhada matinal só tiveram tempo de ver um homem serb alvejado por seis covardes, enquanto dois corpos jaziam na areia. 

Bennett estagnado

Nenhum caso é totalmente resolvido até que sua verdadeira solução seja encontrada. 
Kipling 


I. APÓS OS FATOS 

Um dos velhinhos que caminhava pela areia interrompeu seu percurso para observar a cena. O homem que estava no centro de uma pequena roda acabava de ser alvejado por dezenas de disparos vindos das armas de seis homens. O abdômen estava completamente ensaguentado, assim como a porção inferior do crânio. O velho conseguiu observar que ele ainda respirava devagar. Sua barriga se avolumava e então retraía lentamente.
 Depois de tanto tempo parado observando a cena, foi notado pelo homem de blusão, que parecia ser o chefe da operação. 
- Quem é você? - indagou o delegado Funchal. 
- Meu nome é Pedro, doutor. Já estou de saída. 
Antes que o velho começasse a sair de perto o delegado disse: 
- Vem cá. Ninguém te liberou. 
Pedro aproximou-se com seus passinhos tímidos. 
Funchal disse: 
- O que você está vendo? 
- Um corpo ,senhor. 
- Um corpo? 
- Um cadáver. 
- Ele está morto, por um acaso? 
- Não, mas... 
- Logo, não é um cadáver. Vou te dar uma tarefa... 
- Sim, senhor. 
Funchal respirou devagar, guardou a arma no coldre e disse: 
- Liga para a ambulância. Você encontrou o corpo aqui, não viu nada. Aliás, ninguém viu. As investigações vão ficar comigo, pode ficar tranquilo. 
O velhinho não fez objeções. Apanhou um celular no bolso e discou. Enquanto falava com a atendente, o delegado Funchal e seus homens dispersaram-se num movimento brusco e acelerado. 

II. CONSEQUÊNCIAS DOS FATOS

Abriu os olhos. Não entendeu nada. Sala branca, barulho irritante do lado esquerdo. Pi, pi, pi. Tentou se mexer, mas o corpo não respondia aos estímulos. Tentou girar a cabeça, sem sucesso. Pi, pi, pi. Conseguiu, com muito esforço, fazer um movimento simples com as mãos, deixando-as cair em seguida. Estava fraco, isso ele sabia muito bem. Ouviu passos se aproximando. O ruído da sola no chão era inconfundível. Em contrapartida, o silêncio dentro daquela sala era surreal. Pi, pi, pi. 
Um clique e a porta se abriu. Entrou um homem vestindo um jaleco branco com algumas letras bordadas no peito. Ele aproximou-se da cama, encostou levemente em seus braços e pernas, sentiu sua respiração e saiu. Não deu uma palavra. 

Três dias antes, assim que o detetive Bennett entrou na ambulância, o delegado Funchal comia um sanduíche numa padaria próxima ao local do crime. O seu crime. As últimas imagens que ele tinha na mente não eram as melhores possíveis, mas ele não se arrependia. Na verdade, não conseguia compreender o que acontecera. Tivera um surto de raiva, isso era certo. Mandara os policiais idiotas e sem compaixão atirarem deliberadamente contra o seu melhor homem. Por que? Ok, Bennett havia matado uma pessoa e violentado fisicamente outra. Uma mulher, ainda por cima. Mas havia algo que não se encaixava, pensou Funchal. Bennett não era daquele tipo, não poderia ser. Tudo bem, compreendia seu jeito ríspido e antipático, mas aquele nível descomunal de violência não era comum. Alguma coisa havia acontecido. 
Deixou o sanduíche pela metade e saiu da padaria. Percorreu as ruas que começavam a ficar cheias de carros e ônibus fumacentos sem saber o que fazer. Foi quando o celular tocou. 
- Delegado Funchal. 
- Delegado, aqui é o Benjamim Lorca. 
Lorca. Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. Merda. 
- Diga lá, Benji. 
- Eu acabei de recer uma informação. 
- É mesmo? E que informação seria esta? 
- Uma mulher telefonou para o 190 dizendo ter visto o senhor na companhia de seis policiais, em frente ao prédio dela, disparando contra o detetive Bennett. 
Merda. Não poderia ser, não poderia ser. Tomara todo cuidado possível. 
- Deve haver algum engano, Benji, você sabe que eu... 
- Delegado, eu estou a caminho da sua delegacia. Eu acho bom o senhor me contar direitinho o que aconteceu, ou então eu serei forçado a tomar medidas mais drásticas do que as que eu já irei tomar. 

Bennett não compreendia o por que de estar no hospital. Aos poucos, porém, sua mente foi se recordando. Funchal. Areia. Flashes desconexos, mas que aos poucos formavam um filme que ele conhecia. Um filme que ele sentira; um filme sem uma dose de ficção. Era tudo verdade. 
Abriu a boca e grunhiu. Esperou um pouco e repetiu o ato. Depois de cinco longos minutos, um médico veio. O mesmo médico de antes. 
- Ah, você acordou! - disse ele. 
- Hmmm. 
- Como está se sentindo? 
- Hmmmm bem. 
- Ok, relaxa mais um pouco. 
O médico já estava saindo da sala quando Bennett juntou suas forças e disse: 
- O que aconteceu? 
O doutor parou por um instante. Fechou a porta e retornou. Sentou na borda da cama, e com o olhar bastante severo, disse: 
- Você foi atingido por sete disparos. Seu estômago, intestinos, rins e pulmões foram afetados. A cirurgia durou quinze horas. Mas o pior já passou. 
Ele sorriu em seguida e saiu da sala. 

III. PESSOAS 

Cora sentou na cadeira e respirou aliviada. Havia feito a boa ação do dia. Ficou contemplando em silêncio as orquídeas na janela. Se não tivesse ido cuidar delas, como sempre fazia, não teria visto o homem ser baleado. Não teria também reconhecido o delegado Funchal, que cuidara de um roubo que acontecera com ela dois anos antes. Claro que precisou contar com a ajuda de seu binóculo, mas foi bastante perspicaz. Cora orgulhava-se de sua performance. Agora seria deixar que os órgãos competentes pudessem fazer justiça. 

Delegacia, sala do delegado Funchal. 
- Estou te falando, Benjamim, eu não matei ninguém. Essa mulher deve ser louca. 
O secretário sorriu e disse: 
- Não tente me enganar, Funchal, é pior para você. Daqui a pouco essa delegacia vai estar cheia de repórteres, aí eu quero ver só. Melhor você me contar, ou então eu te exonero dessa corporação na frente de todos. 
Refletiu. Não podia entregar os pontos, mas também não podia deixar que o secretário o retirasse de suas funções na frente da imprensa. Olhou no relógio. Nove e meia da manhã. Não estimava dez minutos para a algazarra começar. Repórteres, malditos repórteres. 
- Secretário, o que eu vou lhe contar aqui é extremamente confidencial. 
- Sim, claro. Vamos lá, diga. 
- O detetive Bennett teve um surto e assassinou um homem a sangue frio enquanto colhia evidências para um caso nitidamente pessoal. 
- Eu soube. E aí você decidiu bancar o justiceiro e matar o cara? 
- Não, pelo contrário. Sete policiais me acompanharam. Quando tentamos algemar o detetive Bennett, ele reagiu e matou dois policiais. Só me restou abrir fogo. 
- Então você admite que tentou assassinar o detetive Bennett, delegado Funchal? 
- Não, porra, não! Eu não quis matar ningué, foi legítima defesa. 
- Legítima defesa? Então porque não foi o senhor quem chamou a ambulância? Foi preciso que um velho caquético precisasse telefonar? 
- Secretário... 
- Funchal, entregue seu distintivo. 
- Benji... 
- Agora! 
Ex-delegado Funchal. Que beleza. Deixou o Secretário sozinho em sua sala. Estava fora da corporação. 

Pedro chegou em casa bastante abatido. O delegado havia deixado dois homens com ele, dando-lhes ordens expressas de liberarem-no assim que o socorro chegasse. 
Sentou em sua cadeira e observou a esposa, que fazia o mesmo. 
- Que foi? - perguntou Cora. - Aconteceu alguma coisa? 
- Não, nada - respondeu Pedro. - Você também não parece estar bem. O que houve? 
- Eu vi uma coisa horrível, horrível. 
Não, não era possível, pensou. Era coincidência demais. 
Cora pigarreou e disse: 
- Mataram um policial. E quem comandou foi o delegado Funchal, aquele do roubo, há dois anos! 
Delegado Funchal. Agora sim ele se lembrava. Não chegou a conhecê-lo, não quis ir até a delegacia. Engraçado, pensou Pedro, com ele o delegado havia sido bastante gentil. 
Ele disse: 
- Como você sabe? 
- Fui olhar as orquídeas e vi. Liguei imediatamente para o 190. 
Não, sua mula, não! 
- E aí? 
- E aí que eu não sei - respondeu Cora. - Vamos ver no que dá. 
Pedro sorriu. As consequências poderiam ser graves. Por que teve que parar e ficar olhando aquela atrocidade? A curiosidade matou o gato. 

Gisele chegou no hotel bastante cansada. Conseguira pegar uma parte de suas economias e se hospedar num hotel do Centro por uma semana. Tempo suficiente para reorganizar sua vida. O plano havia ido por água abaixo. Lembrou-se dos fatos. 
Conhecera o filho do general Gaspar fazia seis meses. Começaram um rápido relacionamento, que culminou numa conversa onde ambos perceberam o conhecido, ou inimigo, em comum: Bennett. Bolaram o plano de dar um susto no general durante dois meses. Finalmente conseguiram. Lógico, o velhote iria contar tudo para o filho, que viria atrás deles e cobraria. Aí ambos o matariam e tudo daria certo. Mas algo deu errado, recordou-se Gisele. Bennett chegara cedo demais ou fora o marido que demorara a voltar? Casamento arranjado sempre dá merda, pensou. 
Gisele refletia sobre os últimos dias quando apagou em um sono profundo. 

IV. BENNETT ESTAGNADO 

Acordou. Agora sim sabia onde estava. Hospital, provavelmente UTI. Lembrou-se do que o médico dissera, calculou que dormira doze horas. Não sabia se era dia ou noite. Repetiu os sons até que o mesmo médico retornasse. 
- E aí, detetive, como você está? 
- Eu melhorei? 
Ora, vejam só, minha voz voltou ao normal, pensou Bennett. 
- Nos últimos cinco dias, sim. 
- Cinco dias? 
- Você apagou assim que eu saí. Convulsão. Demos alguns medicamentos, achei melhor te deixar sedado por uns cinco dias. Você acordou muito bem. 
Sedado. Cinco dias. Estava estagnado. 
- E agora? - indagou Bennett. 
- Agora você vai começar o tratamento pesado, bruto. Essa recuperação vai ser difícil, suas chances de voltar à corporação são praticamente zero. 
O doutor batia em retirada. Bennett mexeu os punhos e sentiu as algemas. 
- O que é isso? - indagou. 
O médico voltou-se para ele. 
- Você está preso sob várias acusações, eu mesmo fiz questão de assistir quando o policial falou tudo. Você estava em coma. 
- Que acusações?
Calmamente, o homem do jaleco branco apanhou um controle remoto no móbile ao lado da cama e ligou a televisão. Hora do jornal. Sorriu e fechou a porta. 
A repórter era bonita, pensou Bennett. Saudou os telespectadores e começou a dar as notícias do dia. A primeira era sobre o caso Bennett. Uma voz de fundo dizia, acompanhada por imagens do delegado Funchal, do próprio Bennett e do Secretário de Segurança: 

Foi preso na noite de ontem, ainda em coma, o detetive Bennett. Ele é suspeito de assassinato do filho do general Gaspar, o mesmo que foi morto há alguns anos atrás. O corpo de João, filho do general, foi sepultado após um velório bastante concorrido. O povo carioca está revoltado com o detetive Bennett. Algumas testemunhas disseram para nossas câmeras que  ele era um homem cruel, vil e que não respeitava os direitos humanos. A viúva do filho do general Gaspar está sendo mantida sob proteção policial e não foi encontrada pela nossa produção. Vale ressaltar que o ex-delegado Funchal foi destituído de suas funções e não está mais a cargo das investigações, que foram assumidas provisoriamente pelo delegado Vasconcellos. 

 

Bennett derridente


Para Bruna e Isadora, como não poderia deixar de ser.  

''Ride, Ridentes! 
Derride, Derridentes! ''
Encantação pelo riso.
(Klébhnikov - Campos) 

I. VASCONCELLOS 

O delegado era um sujeito meio moreno. Tinha uma barbicha crescendo pelos lados da cara, vestia blusa listrada e foi o primeiro a retirar as algemas de Bennett. Desde a notícia na televisão, Bennett dormira por mais quinze horas. O novo delegado encarregado do caso decidiu fazer uma visita ao seu preso. Queria saber os contextos que o levaram a tal atitude. 
- Finalmente nos conhecemos - disse Bennett após ter as algemas retiradas. 
O delegado sentou-se ao lado dele.
- Os médicos falaram que você não sai daqui tão cedo, por isso decidi vir. Eu não vou ser legal com você, há provas irrefutáveis contra a sua pessoa. 
-Eu entendo. 
- Então você admite a culpa?
Bennett estacou. Estava indo um pouco longe demais ou só queria se livrar daquela situação toda? 
Ele disse: 
- Em parte. Sim, eu matei o João Gaspar, mas foi necessário. 
- Como assim? - indagou o delegado. 
-  Na hora foi necessário. A Gisele é maluca, maluca! 
- Já estamos cuidando dela. 
Bennett moveu os punhos, a fala já estava bem melhor, ele conseguia ser mais eloquente. Encostou-se na pilha de dois travesseiros sobrepostos e mirou o delegado com os olhos. Disse: 
- Onde ela está? 
- A dona de um hotel no Centro telefonou para a polícia após ver a foto dela no jornal...  
- Ah, sim. 
- .. mas não se preocupe, uma operação foi montada, hoje mesmo ela vai ser presa. 
- Vocês descobriram a culpa dela, então? 
- Mais ou menos. Sabemos do que ela fez com o seu pai, da tensão psicológica que isso causou. 
- Ela o matou. A filha da puta matou meu pai! 
Vasconcellos permaneceu com a mesma expressão. Não acreditava que todos pudessem ser naturais, para ele Bennett estava fingindo. 
- Eu vou embora - disse o delegado. - Há uma equipe vigiando seu quarto, ninguém entra ou sai sem a minha permissão. Pode ficar tranquilo. O médico já vai passar aqui para te dar uma posição do seu quadro. Fica bem e não tenta fugir, se os pontos arrebentarem você é um homem morto. 
Bennett não respondeu. Assistiu mudo ao delegado colocar as algemas novamente, prendendo-o àquela cama dura. Assim que a porta se fechou ele olhou para a barriga. Pensou em dar um soco e morrer. Não, não seria sensato. O general não aprovaria. General. Chorou. 

II. RIDE, RIDENTES 

Gisele foi presa assim que os policiais avistaram-na entrando no hotel. Resistiu, mas foi rapidamente contida. 
Sala do delegado Vasconcellos, calor infernal, tarde. 
- Vasconcellos, hum? 
- Sim, dona Gisele, sim. Vamos, diga lá. 
- Não tenho nada para dizer. 
- Claro que tem - disse o delegado. 
- Não tenho, já disse. Se tivesse, não estaria sendo importunada. 
- Pelo contrário, você está aqui justamente por ter feito algo. 
- Mas eu não fiz nada! 
- Ok, vamos lá. Você ameaçou um general, tentou executá-lo com uma faca. Acha pouco, tem mais...? 
Gisele gritou. Pediu para que ele não prosseguisse. Estendeu as mãos em sinal para que as algemas fossem colocadas. O delegado Vasconcellos deu seu primeiro sorriso no dia. 

Pedro e Cora estavam olhando um para o outro. O absurdo da situação era gigantesco. Não só era muita coincidência como também revelava um lado cruel da humanidade. Tanto Cora quanto Pedro pararam o que faziam para observar a ação do delegado Funchal. 
- Covardia, não? - disse ele. 
- Sim, muita. 
Não mudaram o tom de voz. Estavam aniquilados, assim como Bennett estivera. Alguma compaixão ainda existia dentro deles, mas era muito pequena. Haviam virado duas víboras, capatazes do sistema - e nessa conjuntura Cora se sobressaía. 
Ele levantou-se e foi até a cozinha preparar um chá, enquanto ela ficava sentada na cadeira, pensando com seus botões. O delegado Vasconcellos lhes fizera uma rápida visita, onde apenas Pedro depôs. Contou exatamente como o delegado Funchal agira com ele, não escondendo um mínimo detalhe. Cora não precisou depor, a polícia a via como um projeto de heroína. Fizera uma boa ação. 

Funchal acordou decidido a fugir dos holofotes. Certamernte algum repórter ainda circundava sua casa disposto a fazer mil e uma perguntas, o que não era nem um pouco legal. Vestiu uma camisa branca, um jeans e colocou um boné na cabeça. Desceu de escadas e saiu pela porta dos fundos. Ninguém se aproximou, tampouco lançou-lhe olhares tortos. Ele caminhou por um tempo até chegar ao ponto de ônibus, onde, já no meio daquele monte de gente que ia para o trabalho, tocou o bolso da calça e sentiu a arma lá dentro. 
Optara por fazer um caminho mais longo, mas que desviasse de todas as formas possíveis de captura e reconhecimento. Levaria mais cinco horas para chegar, mas era necessário. Uma boa ação, pensou. Desceu em Copacabana e caminhou mais um quilômetro até apanhar o segundo ônibus. 

O médico abriu a porta do quarto pouco depois que o delegado Vasconcellos saiu. Tinha uma prancheta de madeira na mão, na qual fazia algumas anotações enquanto olhava de longe para Bennett. 
- Como você se sente? 
- Bem, eu acho - respondeu Bennett. 
- Ótimo. Os medicamentos estão fazendo efeito. 
- Quando eles vão me levar? - indagou Bennett de forma brusca. 
- Se você evoluir conforme o esperado, em duas semanas, creio eu.Você está, também, com um quadro de bipolaridade, o que explica sua mudança brusca de comportamento. Isso pode ter origens pelo estresse da profissão, etc. O Ministério Público pediu que sua cela fosse adaptada. O promotor não confia na segurança do hospital... 
- E você confia? 
- Bem, eu... 
- Você confia, doutor? 
- Não muito. 
- Não muito? 
- Está bem, não confio nem um pouco. Mas acredito que esses dois policiais aí na porta consigam fazer um bom trabalho. Vou te dar mais um remedinho para dormir, você está muito tenso. 
Bennett sacudiu a cabeça em aprovação e dormiu. 

III. DERRIDE, DERRIDENTES 

O esquema de segurança montado pelo delegado Vasconcellos permitiu que quatro policiais fizessem a segurança, alternando seus turnos a cada doze horas, com intervalos de quinze minutos para um lanche, onde um ia e o outro ficava. 
Eram duas da manhã quando uma enfermeira observou o homem sentado nas cadeiras tomando soro. 
- O senhor está desde cedo aqui, algum problema? 
- Não, minha filhinha, está tudo bem. Estava com sangue no xixi, sabe, aí me deixaram no soro. Superlotação. 
Ele fez um muxoxo. Ela, tocada pela aparente fofura do velhinho, ofereceu-lhe um quarto que havia vagado. 
- Espera só um segundinho - falou - porque ainda tenho que liberar a papelada do outro paciente. Daqui a cinco minutinhos eu volto. 
Funchal sorriu e deixou ela sair. Levantou-se e caminhou até o quarto de Bennett, parando a cinco metros de distância para observar os policiais. Quando um deles saiu de perto, ele se aproximou. Retirou a pistola com o silenciador e disparou contra o policial que ficara lá. Antes de entrar no quarto, porém, arrancou do braço a agulha que injetava soro em suas veias. Girou a maçaneta com cuidado e entrou. 

Os dois policiais que faziam a segurança do quarto de Bennett foram pegos de surpresa quando o ex-detetive começou a gritar, cerca de duas horas após o doutor deixar o quarto. 
- O que aconteceu? - perguntou um deles. 
- Eu quero a sua arma - respondeu Bennett. 
Eles riram. 
- Estou falando sério - continuou. - O Funchal é maluco, ele vai vir aqui e vai me matar. 
- Ok, Cinderela, dorme bem. Depois a gente resolve isso. 
- É sério, porra! 
Um dos policiais saiu, mas o outro insistiu em voltar. 
- Ok, eu tenho duas. Fica com uma. Vou deixar ela aqui - ele colocou a arma no vão entre o ferro que prendia a algema à cama e o colchão da cama. - Seu punho só vai conseguir girar uns dez graus, não solta essa arma nem fodendo. Qualquer coisa você atira. 
Bennett observou atentamente o cano, apontado para a porta. 

Funchal caminhou a passos lentos pelo quarto. Parou ao lado da cama de Bennett e observou. Sussurrou: 
- Você era meu amigo, seu filho da puta. Mas não podia ter matado o cara, não podia. Eu não tive escolhas, você me obrigou a fazer isso. Mas o que você não podia era ter me expulsado da polícia. Isso você não podia. Seus atos destruíram minha vida, e agora eu vou destruir a sua, como deveria ter feito há um bom tempo. 
Atirou duas vezes contra o corpo. Observou sua cabeça pender para o lado e escorregar. Estava morto, não tinha jeito. Conseguira notar, entretanto, a expressão de tristeza no rosto dele. Respirou ofegante e olhou para cima. Havia feito o que precisava ser feito, mais uma vez. As consequências que fossem para o inferno! 

IV. QUATRO 

O policial que achou o corpo ficou tão assustado que deixou cair seu copinho de café no chão. Em pouco tempo a Santa Casa apareceu e levou o corpo. 
- Você fez merda mais uma vez - disse. - Não podia ter matado o cara, agora fodeu. 
- Foi necessário, ele ia me matar. 
- Talvez - respondeu o policial, rindo. 
Em pouco tempo o delegado Vasconcellos apareceu. Encarou-o deitado na cama e disse que os policiais já iriam levá-lo para a cadeia, onde ele aguardaria julgamento. Sorriu. Não se importou. 

Bennett foi condenado após dois meses mofando naquela cela escura e úmida, com cheiro de merda. Recebia visitas diárias de um médico. Após o julgamento, quando foi condenado a quatro anos de reclusão em regime fechado, os cuidados especiais foram dispensados. Ele era só mais um preso no meio da multidão. Tentaram, é bem verdade, apelar diversas vezes, sempre com resultados negativos. Bennett, o glorioso detetive acometido por um transtorno bipolar severo, estava preso. Encarcerado. Sem saída. Os primeiros meses foram difíceis, ele chorava todos os dias. Mas com o tempo foi se acostumando. Era necessário se acostumar. 

 
EPÍLOGO 

Era uma manhã de sol quando os policiais bateram na cela. 
- Bennett! 
- Eu! 
- Vamos, você está livre. 
Quatro anos, enfim. Apanhou seus pertences, aguardou pacientemente até que o último guarda se despedisse dele. Saiu da cadeia sorrindo. Estava livre novamente. Iria esperar um tempo e montar sua própria firma de detetives, era esse o plano. Adeus, polícia, trabalharia por conta própria. Sem patrão, sem salários baixos. A conta seria paga por quem se dispusesse. E ai de quem não pagasse. 
Já no táxi que o levaria para o antigo apartamento, achou na sacola com seus pertences um envelope de papel pardo que lhe havia sido entregue pelo delegado Vasconcellos no dia de sua prisão, algumas horas após ele atirar contra o ex-delegado Funchal. 
Leu, sorrindo, o papel branco que estava dentro do envelope: 

Ride, Ridentes! 
Derride, Derridentes! 

O resto você procura na internet, cansa muito ficar escrevendo. Quando você sair, me procura. Você é um bom rapaz, Bennett. Só precisa ficar mais calmo. Aproveite a estadia, por mais difícil que ela possa ser. 

Bennett e a cineasta


Para Lorena, chatinha do meu coração. 
                                                 Rubem de Baskerville. 


PARTE UM 

O corpo da garota estava deitado sobre a cama envolvido por algumas tiras de couro. Estado de decomposição avançado. A pele começava a ficar azulada e os buracos dos tiros já estavam cicatrizados. Os olhos negros estavam abertos e encaravam a moldura de um Picasso na parede. Encostadas nas paredes, estantes brancas gigantescas lotadas de livros e filmes. Alguns posteres grudados no teto para realçar o espírito jovem.  Em cima da mesinha do computador, dois tabletes enormes de maconha e um isqueiro. Além, é lógico, de um papel de seda. 
Observou sua obra. Haviam se passado dois dias e ninguém havia dado falta dela. Também, piranha do jeito que era, pensou. Havia feito um bom trabalho. Chegou a sentir um mínimo de remorso, mas concluiu rapidamente - e a tempo - que era o melhor a ser feito. Ela tinha de ter morrido. 
Fechou a porta do quarto e caminhou até a sala. Jogou o vidro de álcool em cima da cortina e tocou fogo na meia presa à boca da garrafa. Fechou a porta do apartamento e só foi ouvir o estouro quando estava entrando no corredor. 

PARTE DOIS 

- Não mexo com incendiários - disse Bennett, olhando o delegado com perícia. - Sou policial, e não bombeiro. 
- O caso é seu, de qualquer forma - falou o delegado. 
- Você não ouviu o que eu acabei de dizer? Eu não vou cuidar disso, arranja outro. Chegou policial novo, detetive novo, tudo novo, essa delegacia tá parecendo uma feira de automóveis. Aproveita e usa algum fusquinha pro serviço. 
Funchal não deu corda para seu melhor detetive. Jogou uma pasta em cima da mesa de Bennett e saiu da sala. 
O relatório continha as análises iniciais do perito, tendo como base algumas provas colhidas no local do crime. Segundo algumas testemunhas, o fogo começara por volta das sete da noite. O porteiro estava na garagem quando o crime aconteceu, e foi a vizinha quem telefonou para os bombeiros. No quarto havia um corpoem decomposição, afirmou o perito na nota. Algumas breves características sobre o cadáver foram dadas, obviamente sem a precisão de um exame laboratorial. Constavam também algumas referências a maconha e papel de seda, mas essas foram preteridas por ele.
Bennett sorriu ao terminar de ler as cinco páginas. Chamou o delegado Funchal à sua sala. Esperou que este acomodasse o corpo gordo na cadeira de madeira e disse: 
- Eu quero esse caso. 
- Mas ele já é seu - respondeu o delegado. 
- Não me irrita, porra. Eu quero esse caso. 
- Mas ele é seu, Bennett! 
- Diz que ele é meu. 
- Ele é seu. 
- Excelente. 
Ele imitou um chicote, com direito a barulho e tudo, pedindo ao delegado uma relação das testemunhas/suspeitos. 
- Peço para te entregarem em cinco minutos - respondeu Funchal. 
- Você é lindo - ironizou Bennett. 
- Eu sei. Mas que fique bem claro: eu não sou sua putinha, viu. E eu sou o chefe nessa porra. 
- Sim senhor, senhor! 

PARTE TRÊS 

Angélica assistia televisão no conforto de seu sofá quando a campainha tocou. O sol batia do lado de fora, e o clima nem lembrava o incêndio e o corpo encontrado no apartamento da Michele, sua vizinha.  
- Quem é? 
- Polícia, abre a porta. 
Ela abriu. Encontrou um homem de aparência imprecisa. 
- Detetive Bennett, você está ao meu dispor. 
- Ah - disse ela. - Acredito que seja sobre a morte da garota do lado. 
- De fato. Posso entrar? 
Ela não respondeu. Limitou-se a abrir a porta e deixar que ele entrasse. 
Bennett deu uma boa olhada no apartamento e sentou-se no lugar onde Angélica assistia televisão. 
- Pode tirar o som, por gentileza? - pediu ele. 
Ela apanhou o controle e tirou o volume. 
- Dona Angélica, a senhora relatou um incêndio. Encontramos um cadáver no quarto. Mais ou menos três dias, de acordo com a perícia. 
- E? 
- Descreva sua vizinha. 
- Ela era um saco. Era cineasta, cheia de firulas e frescuras. O cheiro da maconha era fortíssimo. 
- Imagino que vocês brigavam bastante sobre isso, não? 
- Mais ou menos - disse Angélica. - Cheguei a pedir uma ou duas vezes para que ela tomasse medidas que diminuissem o cheiro, mas ela não aceitou. Sabe, detetive, não sou do tipo que fica pedindo as coisas. Peço uma, duas, no máximo três vezes. Dei meu próprio jeito. 
- E qual seria ele? 
- Desodorante. 
Bennett controlou o riso. 
- É, desodorante - continuou ela. - Eu jogo toda vez que eu o cheiro fica ruim. Ajuda bastante. 
Estava quase impossível de segurar o riso. Ele se despediu e pediu para que ela não sumisse, pois precisaria prestar um depoimento oficial. 

PARTE QUATRO 

O porteiro só foi localizado no dia seguinte, logo, dois dias após o início do caso. Ele era paulista, tinha trinta anos e uma barba vasta. 
- Eu estava na garagem quando o incêndio começou - disse. 
- Não sentiu o cheiro? - indagou Bennett. 
- Não, não. Só percebi quando os bombeiros chegaram. Coisa de doido, vai saber.
- Como você descreveria a Michele? 
- Ela tinha umas tendências lésbicas, sabe? Usava umas coisas de couro de vez em quando. Ah, era cineasta também. Vivia colando cartazes de exibições de filmes em sessões especiais, as quais ela fazia para os amigos e quem quisesse. Aqui no prédio mesmo, às vezes no play, às vezes no apartamento dela. 
Bennett pigarreou e disse: 
- Recebia muitas visitas, não? 
- Mais ou menos, para ser bem franco. Tinha uma que vinha quase todos os dias, mas sumiu há uns dias. 
- E quem seria essa criatura? 
- Uma amiga dela, mas eu acho que era namorada, sabe? Joana, o nome. 
- Como ela era? 
- Ruiva. 
- Que mais? - perguntou Bennett. 
- Sempre usava uma bota de couro bem alta. Só isso, doutor. 
- Obrigado - disse Bennett. 
Ele deixou o porteiro na portaria e seguiu para a rua. Precisava respirar ar fresco, sentir um pouco de liberdade e se livrar da claustrofobia que sentia dentro daquele prédio. 
Ia na direção de um ponto de ônibus quando avistou uma ruiva vestindo um salto alto vindo na sua direção. 
- Alto lá - falou, erguendo o distintivo. 
- Quem é você? - perguntou a ruiva. 
- Detetive Bennett - ele apontou para o prédio de Michele. - Você ia para esse prédio? 
- Como você sabe? 
- Minha filha, eu sou da polícia. Meu trabalho é saber das coisas. 
- Ah, sim - disse a ruiva. - Agora me deixa passar, eu quero entrar. 
- Não tão rápido. O que você quer no apartamento da Michele? 
- Nada, quem disse que eu quero alguma coisa? Eu, hein. 
Ela tentou furar o bloqueio daquele corpo forte, mas Bennett colocou o braço na frente impedindo completamente a passagem dela. 
- Eu quero entrar, porra. 
- Você vai entrar - falou o detetive. - Mas primeiro responda à minha pergunta: o que tu quer no apartamento? 
- Nada, já disse. 
- Você ficou esses dias todos sem aparecer, e volta justamente depois que sua amiga é assassinada. 
- E daí? 
Bennett parou por um momento. Então disse: 
- Eu ainda não sei seu nome. 
- Mirtes. 
- Falso. 
- Assim como seu nome. 
- Meu nome é Bennett. 
- E o meu é Mirtes. 
- Meus pêsames. 
- Deixa eu passar. 
- Não. Quero saber o que você quer no apartamento. A maconha? 
- É. É a maconha. 
- Você vai subir comigo então. 
- Porra... 
- Sêmen. Anda, vamos. 
Ele puxou a ruiva pelo braço e entraram no prédio em seguida. 

PARTE CINCO 

Assim que ouviu o ruído da maçaneta girando tentou esconder-se atrás das cortinas consumidas pelo fogo que havia provocado dois dias antes. Não dava tempo. Pulou para fora da janela e ficou no parapeito, observando os carros andando lá embaixo. Sentiu medo. Vertigem. 
- O cheiro ainda é forte - disse Bennett, caminhando com a ruiva presa aos seus braços. 
- Eu consigo cheirar, pode deixar - respondeu ela. 
Estavam no quarto. 
- A maconha está com a perícia. Evidência. Você realmente achou que ela tivesse aqui? Sua imbecil. 
- Eu tinha essa esperança - disse a ruiva. 
- Então tenha uma nova esperança. 
- O império contra-ataca. 
- Você também é cineasta? 
- Eu vinha aqui ver uns filmes de sadomasoquismo com a Michele. Satisfeito? 
Uau, pensou Bennett. Por aquela ele não esperava. 
- Um pouco - respondeu. - Ainda quero saber quem matou sua amiguinha. 
- Eu é que não fui. 
- Tu é muito sóbria, muito fria, para uma amiga tão próxima. 
- E daí? Agora isso é crime? 
Antes que ele respondesse à ironia, dois tiros atingiram a parede. Por puro reflexo, jogaram-se no chão. Bennett sacou a pistola do bolso e tentou localizar os disparos. Ficou procurando com os olhos durante um tempo até ver um desvio na sombra do lado de fora do apartamento. Levou o indicador aos lábios e pediu para que a ruiva ficasse quieta. Foi rastejando até a janela e levantou-se devagar. Inverteu o lado e atirou. Não havia ninguém. Um grito atrás dele o fez virar bruscamente. Foi atingido por uma coronhada. 

SOLUÇÕES NÃO QUÍMICAS. 

Acordou zonzo. Não esperava por aquele golpe. A ruiva estava amarrada a uma cadeira, acordada. Olhava para ele com medo. A luz da sala estava acesa e um barulho indicava que a televisão estaria ligada. Passos ecoaram pelo corredor até que a figura surgisse à porta. 
- Desculpa pelo golpe. Foi necessário. 
- Por que você fez isso? - perguntou Bennett. 
- Foi preciso. Eu não aguentava mais aquelas festinhas estúpidas da Michele. Vadia escrota. 
- Ou foi porque ela não quis nada com você? 
- Talvez. 
Empunhou a arma e colocou o cano na têmpora direita da ruiva, que grunhiu de medo. 
- Está vendo essa daqui? Olha que linda, que maravilha da natureza. 
- Vai matar ela também? - ele sorriu ao perguntar. 
- Talvez. 
- Pára com essa porra de talvez, responde que nem homem. 
Aproximou-se do detetive e deu-lhe uma porrada na cabeça. Dessa vez ele resistiu e não desmaiou. 
- Nunca mais repita isso! 
- Como queira. 
Afastou-se e ordenou que ele assistisse ao espetáculo. Retirou as roupas da ruiva deixando-a nua em pêlo. Sempre mantendo a arma apontada para Bennett, impedindo qualquer movimentação, começou a boliná-la até que uma sensação de prazer tomasse conta de seu corpo. Sentiu que ia gozar e perdeu o controle da arma. 
Quando percebeu a mão balançando, Bennett jogou-se e chutou a arma para longe. Apanhou a sua que estava no coldre e apontou. 
- Deita no chão que eu tô mandando. Agora, porra. Agora!
Deitou. 
- Eu sabia que tu não poderia ser normal - disse Bennett. - Quando você me recebeu toda fria, não batia. Simplesmente não batia. 
- Como assim? - indagou Angélica. 
- As mulheres normais vêem uma espécie de aura fascinante ao redor dos policiais. Você não viu. Me tratou como mais um. Você tentou alguma coisa com a Michele, aposto. 
- E daí? 
- E daí que ela te rejeitou, porque ela já tinha a ruiva. E você sabia da ruiva. Tomou ódio, ciúmes e matou ela. 
- Talvez. 
- Pára de falar talvez, porra. 
Angélica tentou chutar-lhe, mas o reflexo foi mais rápido. O disparo atingiu a cabeça. Morte instantânea. Bennett guardou a arma no coldre e saiu. 
Sozinha no quarto, nua e presa à cadeira, a ruiva disse: 
- Bennett? Bennett, porra, volta aqui. Bennett! 
Ele fingiu que não ouviu. 
Ela ouviu o clique da porta se fechando e olhou para o cadáver de Angélica sangrando defronte dela. Desmaiou. 

O caso Belvedere


 Para Bruna e Isadora, pelo momento rapidíssimo de inspiração. Obrigado mesmo.



UM 


Existem cinco coisas, pensou Bennett, que fazem um homem ficar imbecil: mulher, mulher, mulher, mulher e mulher. Talvez fosse por isso que ele nunca tivera interesse em nenhuma delas, considerando-se um exemplar único no meio da sociedade. 
Ele pousou sobre a mesa a caneca com o café e olhou para o delegado Funchal. 
- Que foi, perdeu alguma coisa? - perguntou o delegado. 
- Não, pelo contrário. Tava admirando sua beleza.
O delegado riu. 
- Espertinho - disse. - Tem caso novo. 
- Legal, e o que eu tenho a ver com isso? 
- É para você. 
- Parei com os casos - disse Bennett. - Agora só coisa pesada, coisa que me faça pensar. 
- Mas vai te fazer pensar. 
- Como assim? 
Antes que o delegado respondesse, Bennett apoiou os dois cotovelos na mesa. 
- Parece que a Alice matou o marido. 
Bennett levantou-se gentilmente da cadeira e saiu da sala. 

DOIS 

Alice, Alice, Alice. Quanto tempo ele não ouvia falar naquele nome. Na verdade, topara ao longo dos anos com várias Alices, mas nenhuma era tão Alice quanto a sua Alice. Ela era a Condessa Rossakoff do seu Poirot, a Irene Adler de seu Sherlock Holmes. Não que eles tivessem namorado, mas ela conseguira tapear-lhe de um modo tão genial que ele chegou a se sentir humilhado. Não era para menos. 
Alice casara sobre o nome Batista, mas mudara após a união para Deschamps. Era bonita, meio loira e muito, excessivamente magra. Bennett gostava. Foram para a cama duas vezes, mas nada muito instigante. O problema começou após ela ficar sob custódia dele e fugir para a Serra sem deixar rastros, apenas um bilhetinho sarcástico que ele se recusava a lembrar. 
Estava sentado em sua sala relembrando aquele dia. 
- Promete que não vai fugir?  
- Prometo - disse ela, mordiscando os lábios com aqueles dentinhos branquinhos. 
- Então fique aí, eu vou buscar uma água para você. 
Quando voltou ela não estava mais lá. O caso foi solucionado, é bem verdade, mas até que se conseguisse provar que Alice Batista não tinha nada a ver com a morte do general Gaspar, ele teve sua reputação manchada. Seria melhor esquecer. 
O delegado bateu à porta e pediu para entrar. 
- Senta aí - disse Bennett. 
Ele sentou na cadeira, de frente para o detetive. 
- Olha - disse o delegado -, eu não queria te colocar nessa, eu sei o que você passou...
- Não sabe, não. 
- ... você é o único que pode nos tirar dessa. 
- Eu não vou pegar esse caso, Funchal. 
- Você precisa. Posso pelo menos te falar o que aconteceu? 
- Tenta. 
- A empregada encontrou a Alice com a faca na mão e o corpo do Francis Belvedere no chão, completamente ensanguentado. 
- Foi a empregada quem matou, lógico. 
- Duvido muito. Ela estava na padaria, a moça do caixa confirmou. 
Bennett pediu para que o delegado saísse. Cul-de-sac. Não tinha escapatória. 

TRÊS 

Alice estava sentada na poltrona do apartamento de Francis Belvedere, no Leblon. Tinha vestígios de lágrimas nos olhos e algum remorso. Parecia resmungar sozinha enquanto mexia nas pontas dos cabelos - que estavam absurdamente mais loiros do que a última vez que Bennett a vira. 
Ela levou um susto quando viu ele parado a cinco metros de distância, encarando-lhe. 
- Vem cá - disse ele.
- Não vou. 
- O caso é meu, pode confiar. Vem logo. 
- Não gosto de você - disse ela, fazendo uma cara inamistosa. 
- Nem eu de você. Agora anda, vamos. 
Ela sacudiu a cabeça e ele se aproximou. Agarrou-a pelos punhos e levou-a até um dos cinco quartos do apartamento. Trancou a porta e deu ordens para que ninguém entrasse ou os incomodasse. Brutalmente, jogou Alice na cama e disse: 
- Anda, desembucha. 
- Eu não matei o Francis. 
- Isso é óbvio que eu sei, você não é de matar. Quero saber o que você fazia com o Francis Belvedere. 
- Ele me contratou - disse Alice. 
- É mesmo, é? E sob quais pretextos? 
- Confidencial. 
- Virou puta agora, Alice? Foi para isso? 
- Não, seu imbecil! Eu não virei puta, e não vou virar. 
- Pois deveria. Faria um bem danado para a sociedade. 
- Deixa de ser imbecil. 
- Impossível, é genético. Anda, conta. 
- Foi para um serviço. Eu ia receber o pagamento hoje. Eu não matei ele, Bennett, eu juro. 
- Eu já disse que você não matou, porra. Você não mata, você foge, o que é pior. 
Alice riu e tornou a mordiscar os lábios. Bennett não cedeu. 
- Eu não vou te comer, Alice. Pára de fazer isso e vamos comigo à delegacia. 
- Não vou. 
- Vai. 
- Não vou. 
- Vai. 
- Não vou. 
- Ah, é? 
Bennett correu até ela e prendeu suas mãos a um par de algemas. 
- Você vai. 

QUATRO

O dia seguinte amanheceu morno. O sol ficou escondido entre as nuvens durante um tempo, mas não houve previsão de chuva. Por volta das duas da tarde a temperatura caiu um pouco, tornando o clima mais agradável. 
Bennett abriu a cela em que Alice se encontrava e disse: 
- Vamos, hora do interrogatório. 
- Já falei que eu não vou, Bennett. 
Ele riu e disse: 
- Quer passar outra noite na cadeia? 
- Eu quero é um advogado. 
- Não tem. 
- É lei, eu quero um advogado. 
- A lei sou eu, eu infrinjo essa porra a hora que eu bem entender. Não tem advogado e ponto final. Vai falar? 
- Não. 
- Até amanhã. 
Ele fechou a cela e caminhou até a sala do delegado com bastante serenidade. 
- E aí, ela falou? - perguntou Funchal. 
- Nem uma linha. Deixei ela lá, amanhã eu tento novamente. 
- A empregada está na sua sala. 
- Por quê? 
- Porque um crime aconteceu, Bennett. Um crime. E quando um crime acontece, a gente fala com todos os suspeitos. No caso, nós temos a Alice, a empregada e a filha de quinze anos do Belvedere. 
- Ele tem filha? - indagou Bennett. 
- Você ouviu o que eu acabei de dizer? Anda, vai pra sua sala. 
A empregada era baixinha. A cara era marcada por espinhas gigantescas e vários furinhos nas maçãs. Tinha dentes amarelados e um molar fora substituido por uma prótese de ouro. 
- Eu sou o detetive Bennett. 
- Ana Amélia. 
Está explicado o por que dela ser empregada, pensou Bennett. 
- Vamos lá - disse ele. - Quero que voce me conte o que aconteceu ontem. 
- Bem - disse Ana Amélia -, eu cheguei da padaria, onde eu sempre vou todo dia, e encontrei a dona Alice com uma das facas de churrasco do seu Francis. Ele tava deitado no chão com bastante sangue na barriga. 
- Interessante. Alguém mais poderia ter cometido esse crime? 
- A filha dele vive matando aula, sabe. Mas acho que ela estava na praia com umas amigas, não tinha tempo de fazer isso. 
- Dona Ana, há quanto tempo a senhora trabalha para os Belvedere? 
- Sete anos, senhor. E não é para os Belvedere, é para o senhor Belvedere. A filha dele é nojenta. Nojenta! 
- Ok, a senhora está dispensada. 
- Mas já? 
- Isso aqui é uma delegacia, isso foi um interrogatório. Disneylandia é nos Estados Unidos. Anda, chispa daqui. 

CINCO

Virginia tinha quinze anos, mas aparentava ter dezoito. Seios desenvolvidos, vestia-se como uma adulta e carregava na maquiagem. À primeira vista, Bennett ficou surpreso, mas acostumou-se rapidamente com a menina. 
- Então você é a Virginia? - disse ele, consultando uma ficha e olhando para ela em seguida. 
- Eu mesma. Você é o Bennett? 
- Eu mesmo. Vamos começar. 
- À vontade. 
Bennett pigarreou e disse: 
- O que você fez ontem? 
- Fui à praia com uns amigos. Só voltei às cinco horas. 
- Interessante. Há alguém que possa confirmar isso? 
- A barraqueira da praia e cinco amigos. 
- Ok. Virginia, como era sua relação com o seu pai? 
- Boa. 
- Em que sentido? 
- Normal, ué. Boa. 
- Hum. E com a Alice? 
- Aquela vaca? 
- Já vi que não era legal. Sim, Alice, aquela vaca... 
Pela primeira vez ele compartilhava um sentimento por uma mulher. Alice era uma vaca. 
Virginia disse: 
- Eu acho que ela dava pra ele, sabe? Passou a frequentar a casa todos os finais de semana. 
- Por quanto tempo? 
- Um mês, mais ou menos. 
- E o que ela fazia lá? 
- Os dois se trancavam no quarto e aí eu ia embora para não ficar ouvindo as baixarias. Ela tem jeito de escandalosa. 
- Ok, obrigado, Virginia. 
- Só isso? 
- Só isso... 

SEIS

O delegado Funchal avisou Bennett quando eram oito da noite. 
- Encontraram centenas, milhares de papelotes de cocaína em um fundo falso no armário do Belvedere. 
- Como assim? - indagou Bennett. 
- Encontraram, oras. 
- Isso significa que... 
- Isso significa que a Alice estava metida com o Belvedere em tráfico. Pena pesada, não tem jeito. 
O delegado terminou a frase e saiu. Preferia deixar seu melhor homem sozinho naquele momento. 
Bennett cruzou as mãos e ficou pensando durante um tempo. Alice, tráfico. As mulheres realmente não valiam a pena. Fechou os olhos e mentalizou uma cena imaginária, onde Alice era pura e não tinha nenhum vício. Eles se conheciam na praia, sob a luz do luar no reveillon, dois minutos antes dos fogos rolarem. Seria realmente perfeito. 
Eram oito e quinze. 

FINALE 

Alice olhou no relógio fixado na parede. Oito e dez. Merda, merda, merda, pensou. Iam descobrir os papelotes, a ligação dela com o tráfico, o esquema todo. Iam dar um jeito de descobrirem tudo e prenderem ela. Mas também, quem mandou o Belvedere, o idiota do Belvedere, não dar o dinheiro. Não tenho, disse ele. Claro que tinha, lógico que tinha! Ainda bem que ele estava morto. Amém. 
Oito e doze. 
Alice aproximou-se da latrina no canto da cela e meteu a mão dentro da calcinha. Tirou o mini papelote e abriu. Cocaína. Pó branco. Salvação. Jogou tudo dentro da boca. Com certeza ali havia algum veneno de rato, seria muito melhor. Engoliu a massa branca que se formou da mistura do pó com a saliva e esperou. 
Oito e catorze o carcereiro descobriu o corpo jogado na cela. 
Oito e quinze a delegacia começou a se mexer. 
Oito e dezesseis Bennett viu o corpo. 
Oito e vinte ela havia morrido. 
Oito e vinte um, Bennett percebeu o erro. Gente como Alice nunca é inocente. 

Overture em três atos

 

''Tiger, Tiger 
          burning bright 
          in the forests of the night.'' 
                 
William Blake - The Tiger 


I. 

- Quanto foi? - perguntou ela. 
- Dez reais - respondeu Alberto.
- Só? 
- Mercadoria barata. 
Espero e falo: 
- Barata é o caralho, deixa de ser mentiroso. 
- Como assim? - pergunta Alberto. 
- Todo mundo, até ela, sabe que tu pagou duzentos contos, mas disse que foi dez só pra ela ficar feliz. 
- Ora, seu... 
- Relaxa - digo. - Você não conseguiria pegar ela mesmo. 
Ela se meteu. 
- Você está dizendo que eu não sou boa pro Alberto? 
- Não - respondi. - Tô dizendo que você não é boa para ninguém. Nem para o cachorrinho da esquina. 
- Filho da puta! - esbraveja ela. 
- Pegou pesado - diz Alberto. - Tu não se toca mesmo. Quer um abraço? 
Ele tenta envolvê-la em seus braços, mas é rejeitado. Otário. 
- Não! Sumam daqui os dois. Já! 
Alberto vai na frente. Espero ele cruzar a porta de metal e ganhar a rua, deixando a vista escancarada para mim. Ela me abraça e sussurra indecências no meu ouvido. 
- Quer fazer isso? - pergunta. 

II. 

Alberto caiu assim que eu atirei. Caiu bonito, devo admitir. Ela continuou me abraçando, eu podia sentir a respiração ofegante; ela estava em êxtase. 
- Como você sabia que a maconha era cara? 
- Estatística. A quantidade de droga que ele comprou era grande demais para valer dez reais. Mas não tanto para duzentos, é lógico. 
- Não? 
- Não. 
Ela começa a baixar a mão, percorrendo locais estranhos e obscuros do meu corpo. Até que chega ao local proibido. Merda. 
- Hum, o que é isso aqui? É muito duro... 
- Eu sei. 
- Epa, o que é isso? 
Merda. 
- Tu é da polícia? Tu é tira, porra! 
- Sou nada, deixa de ser paranoica. 
- É? O que é isso, então? - pergunta ela, sacudindo meu distintivo no ar. 
- Carnaval. Comprei na Uruguaiana. 
- Olha aqui - diz com o dedo em riste -, eu sou pobre mas não sou burra! 
- Há controvérsias. 
- Quê? 
- Nada. 
- Fala. 
- Não. 
- Fala, porra! 
- Não. 
Ela parte para cima e rouba uma das minhas duas pistolas. Fodeu. Atira duas vezes, mas as balas ricocheteiam no chão. Me solto e puxo a outra pistola do coldre. Boom, boom, pow. 

III. 

- Muito bem, detetive Medeiros. 
- Ora essa, não foi nada, delegado. 
- Claro que foi. Um excelente trabalho de campo. Sua infiltração na quadrilha durante essas últimas duas semanas foi perfeita. 
- Talvez. 
- Talvez nada. Vou te promover ao meu grupinho. 
- Grupinho? 
- O governador me telefonou pela manhã. Ele quer um grupinho para investigar um caso. 
- Que caso? 
- Uma espécie de serial killer matou cinco pessoas na Lapa. Uns moradores de rua começaram a sentir um cheiro forte vindo do Imperial, aquele motel abandonado. Falaram com dois policiais que faziam a ronda. Os caras também sentiram o cheiro. Entraram quatro policiais. Encontraram cinco cadáveres no interior do hotel. 
- Interessante. 
- Muito. 
Apertamos as mãos. 
- Quando eu começo? 
- Agora. 

 

Colapso

 

Para Barbara. Conforme prometido, uma DEDICATÓRIA.


I.

Quando eu saí de casa minha mãe não me disse nada, até porque não poderia dizer. Estava morta. Enterrada no cemitério dentro de um caixão de madeira, bem coisa de pobre mesmo. Sim, nós éramos pobres, mas na época eu consegui juntar um bom dinheiro e comprar uma das melhores televisões do mercado. 
Tomei o ônibus com pressa, o serviço me esperava. Ônibus é uma coisa que eu não entendo. Um motorista, um cara que troca dinheiro, gente pobre e sem perspectiva de vida se pendurando em cabos de aço presos ao teto. Parecem todos uns macaquinhos de zoológico, daqueles amestrados que todo mundo fica rindo e se divertindo. Acomodei-me no fundo, no banco que fica em cima da roda traseira, aquele bem alto pelo qual todos competem. Tive de aguentar o tranco ao passar por cada buraco. Suspensão de merda. 
A velhinha aproximou-se e perguntou se o lugar ao meu lado estava livre. Respondi que sim. Ela tinha uma cara de bunda rasgada, cheia de vincos e sulcos profundos. Olhinhos azuis bem degradados pela ação do tempo. 
- Esses ônibus são um perigo, não é mesmo? - perguntou. 
- Como assim? 
- Desconfortáveis. Sem contar os motoristas, que dirigem como se a rua fosse deles. Imagina se um dia o ônibus vira... 
Ela falava demais. Merda. 
- Pois é - respondi. 
Ficamos em silêncio por um tempo, tempo esse suficiente para a mulher me analisar completamente. Senti quando reparou na barba, no cabelo desgrenhado e na pele suja, marcada por algumas cicatrizes. 
- Você é pedreiro? - perguntou ela. Porra, como assim. 
- Por que a pergunta? 
- Pressentimento - respondeu. - Uma análise das suas vestes, do seu jeito, da sua pele... 
Sherlock de saias escrota do caralho. 
- Ok - falei. - Sou pedreiro, e daí? Isso altera alguma coisa na sua vidinha escrota de aposentada? 
A velhinha se calou. Talvez eu tivesse sido ríspido demais, mas naquelas circunstâncias era impossível manter a calma. 
Ela disse: 
- Desculpa a audácia, é porque você me intriga. 
Porra, sua velha chata. Eu nunca intriguei ninguém, cacete. 
- Como assim? - indaguei. 
- Você tem um jeito que me fascina. Não sei o quê ou o por que, só sei que me intriga. 
Droga, agora eu tinha um problema. Não, problema, não. Eu tinha um vibrador de trinta centímetros nas mãos, uma verdadeira piroca problemática jogada no meu colo por uma velha. 
- Prossiga - falei. - Vamos ver até onde isso vai. 
Ela não se opôs. Falou: 
- Você está irritado com alguém, provavelmente no trabalho. O motivo é nebuloso, mas há um. 
Interessante. 
Senti que ela ia falar alguma coisa, mas o ônibus fez uma parada brusca. Sacudi a cabeça após o choque e tentei reiniciar o diálogo. Olhei para o lado mas não a vi. A velhinha tinha sumido. Cacei aquele corpo miúdo com os olhos durante algum tempo, sem sucesso. Só quando o ônibus retomou a marcha que eu a vi caminhando pela calçada, passando feito um fantasma no meio dos transeuntes. 

II. 

A construção do Condomínio Saint Lupin, na Barra da Tijuca, já estava em estágio avançado. Os quinze primeiros andares, as garagens e o playground se encontravam prontos, com todos os detalhes de engenharia nos trinques. 
Eu ficava com a parte pesada do trabalho. A parte pesada, na minha concepção, é tudo o que envolve o grupo de pedreiros que realmente faz a construção. Ou seja, coloca o cimento, insere os vergalhões, bota o tijolo no lugar certo para o edifício não desabar. Trabalho puxado, mas eu curtia. Quem mandou minha mãe não ter feito faculdade e só ter me deixado o apartamento? Vendê-lo seria um erro. E eu não tinha dívidas, logo, no need for extra money. Pelo menos o curso de inglês eu concluí. 
Pouco depois do almoço o acidente aconteceu. O engenheiro responsável pela obra decidiu subir ao décimo andar para checar se estava tudo certo, repetindo um processo que começara dez dias antes, ou seja, um andar por dia. Subiu e não voltou. Despencou pela janela lateral, espatifando-se dois segundos depois no solo arenoso. Ainda bem que caiu pelos lados, se caísse pela frente daria direto no playground, fodendo com todo o esquema da obra. 
A morte do cara não foi nenhuma surpresa, convenhamos. O filho da puta chantageava todo mundo, tocava o diabo. Quem não trabalhasse direito - e para ele ninguém trabalhava direito - perdia vinte por cento do salário ao final do mês. Uma verdadeira porrada. No saco, ainda por cima, porque fodia com a vida de todo mundo e chegava a doer o fígado. 
O assassino foi intimamente reverenciado por nós, pedreiros. Era um acordo tácito que nós tínhamos: quem descobrisse o assassino não delataria. 
A obra foi concluída no prazo. A construtora arranjou um novo engenheiro responsável, bem mais tolerante do que o outro e menos babaca. Contrataram mais duzentos empregados para suprir os dias perdidos por causa da ação da polícia (perícia, etc. ). O inquérito foi arquivado, o delegado escroto encarregado do caso não conseguiu pegar o assassino. Ainda bem. 
Larguei a obra uma semana antes do previsto. Estava saturado daquela merda. 

III. 

Conheci a Agatha mês passado. Ela é bonitinha, mas eu prefiro uma atriz de novela, ou quem sabe uma modelo. Eu sou feio, sabe como é, não posso me dar o luxo de ficar escolhendo mulher. Se for bonitinha e der mole, eu pego. Mas até que a Agatha dá conta do recado. A boceta é apertada, ela tem um Hitler muito bem feito acima da vulva, o que me dá um tesão ainda maior. Fode com destreza, é super liberal, o que acaba por me deixar na dúvida: ela teve muitos homens, logo tem bastante experiência, ou teve poucos homens que lhe deram certo conhecimento, o que explicaria a xota apertada? Não sei. 
Estamos sentados no bar de um restaurante chique enquanto aguardamos por uma mesa. Agatha move seus cabelos louros no ombro enquanto me olha. 
- Você é muito bonita - digo. 
- Ah, obrigada. Você também é. 
Sorrimos. Ela diz: 
- Mas me conta, você era pedreiro e virou empresário. Como assim, como isso aconteceu? 
Oh, crap. 
- Bem - digo -, eu larguei meu último emprego uma semana antes do prazo. Vendi meu apartamento e abri uma lojinha de conveniências perto de casa. O negócio cresceu consideravelmente. Um dia, um homem apareceu e decidiu fazer uma sociedade comigo, ele queria o mesmo tipo de negócios que eu buscava, sabe? Acontece que um mês depois ele morreu de câncer, deixando as outras lojas dele para mim. Aí é a velha regra do capitalismo: prosperar, aguardar, lucrar, abrir mais pontos, etc. 
Agatha sorri. 
- Ah, legal. Você é guerreiro. 
- Tipo o Rei Arthur? - pergunto. 
- Talvez. 
- Interessante. 
- Você sabe que eu adoro a sua espada, não sabe? - ela põe a mão sobre o meu pau e deixa duro. Legal. 
- Sei sim. E como - digo, olhando para a mão dela em cima da minha calça. 
Sinto uma dor no peito que rapidamente se espalha pelo meu corpo. É uma sensação esquisita. 
- Que foi? - pergunta ela. 
Peço licença e saio do bar. Antes, porém, deixo uma nota de cinquenta em cima do balcão. 
A sensação aumenta gradativamente, sinto que vou perder meus sentidos. Faço sinal e um táxi pára. 
- São João Batista, por favor. 
O taxista me encara, ele está com medo. Ou seria desconfiança? 
- Anda - digo. - Pode ir. 
Ele vai. 

IV.  

Dei cinquenta reais para o vigia noturno me deixar entrar. 
- Espera aí, irmão... 
- É sério - falei. - Cinquenta reais, só cinco minutos. 
Apertamos as mãos e ele deixou eu entrar. 
O túmulo de minha mãe está em algum lugar, eu sei disso. Ainda consigo me lembrar do dia do enterro, quando vi o corpinho dela dentro do caixão. Vestia um vestido cinza, odiava preto e não é agradável enterrar alguém colorido. 
Caminho pelas alamedas com certo medo. Cemitérios me assutam. Ahá! Achei! 

Aida Mattos Silva 
                                           1923 - 2005 

Estou de frente para a lápide, contemplando o rosto na fotografia. Mamãe sorri. Ilumino a área com a lanterninha do celular. 
- Desculpa, mamãe. Sei que a senhora vem acompanhando meus movimentos nesses últimos anos. Não vou dizer que me arrependo do que fiz. Ele precisou morrer, pegava no meu pé o tempo todo, eu já não aguentava mais. Dei um dinheiro para o José matar o homem. Sei também que a senhora conhece a Agatha. Ela é bonitinha, eu gosto dela, sinto de verdade ter abandonado ela no meio do bar. Não me senti bem, achei melhor conversar com você, como sempre fiz. Mas eu não quero divulgar o meu passado, apesar da tortura me consumir a cada minuto que passa. Meu sendo me manda abdicar da minha vida, de toda a riqueza conquistada, ou pelo menos contar tudo para a Agatha. Conto ou não? Ajude-me, por favor! Eu imploro! Foi a velhinha do ônibus quem me mandou fazer isso, ela me deu embasamento! Foi a velhinha do ônibus! 

V. 

O vigia noturno deixou seu posto dez minutos depois que o homem entrara. Caminhou pelas alamedas até encontrá-lo estirado no chão. Ainda estava vivo. Tocou seu pescoço e sentiu a pulsação. Uma rajada de vento espalhou algumas folhas pelo chão. 
O homem agarrou-lhe pelo pescoço e disse: 
- Atrás de você, cuidado! É a velha do ônibus, é a velha! 
O segurança virou-se bastante assustado. Não havia ninguém. 
Voltou-se para o homem. Estava morto. 

 

Steve McQueen in Rio

 

Para Lorena, por motivos óbvios.


Eu trabalho em um banco. É. Não, não é legal, e digo isso antes que você pense que eu sou um cara rico. 
- Ah, meu filho trabalha num banco, vai ser rico. Sabe como é, lidando com dinheiro o dia todo, né. 
Isso é o que a minha mãe fala para todas as amigas dela, aquelas velhas gordas e varizentas, cheias de pele escorrida, que é como eu chamo aquels pelancas. Parece que escorrem, são molengas e pegajosas, sebosas. Essas amigas da minha mãe são o símbolo máximo da decadência de uma elite intelectualmente medíocre setentista. 
- É, não sei o que deu nele, Marcinha. O João Alberto agora deu para virar revolucionário. 
- Que coisa mais anos sessenta. Se a Maria Alberta debanda pra esses lados, vai ver só! 
Esse diálogo não foi por mim inventado. Aconteceu de verdade na casa de campo da mamãe, quando eu fui praticamente intimado a ir, sob esbravejos fortíssimos de deixa esse lado revolucionário de merda pro lado pelo menos uma vez, meu filho
Mas eu não sou revolucionário. Eu sou simplista, o que não me faz um comunista. Faz? Acho que não. Escolhi trabalhar no banco porque entro tarde e saio cedo, o que é bem cômodo. Dá tempo de ir à praia - mas eu odeio ir à praia. Sério, aquela gente suada metida em biquínis e sungas carregando isopores entupidos de farofa, frango e cerveja. Completam a refeição uma ninhada de mini-pobres suados e seus nomes altamente normais: Eliscléverson, Jenifer, Rayana, Rayane, Marlon, etc. 
Falando em Marlon, Marlon Brando é um erro gramatical. Sério mesmo. Marlon Brando tem formação cultural parecida com o pagode: enquanto aqueles projetos de sambistas revoltados com o mundo resolveram destruir a música, os gramáticos revoltadinhos resolveram quebrar o gerúndio ao meio. Marlon. Brando. Marlonbrando tudo e todos. 
- João Alberto, você tem uns ideais comunistas. 
Mamãe largou essa em cima do meu saco quando eu tinha doze anos. Tudo isso porque eu perguntara ao meu pai na véspera quem havia sido Che Guevara. Dois meses depois papai enlouqueceu, foi parar no manicômio. Vive por lá até hoje, organizando mil e um comícios em prol das freiras cegas da Birmânia. Fica puto com os Mamonas Assassinas, pois foi ele quem fundou aAssociação de Proteção às Borboletas do Afeganistão. É sério, eu não estou mentindo. Fez emblema e tudo, tadinho. 
Se eu disser que nunca peguei uma das dondocas amiguinhas da mamãe, estarei mentindo. Quando tinha dezoito anos, eu era mais feio que um buldogue. O rosto cheio de espinhas, a cara pálida e uns óculos de aro grosso preto. Grosso. Preto. Grosso e preto na mesma frase não combina. Enfim. A Adalgisa tinha vinte e sete anos, virou melhor amiga da minha mãe assim, pluft. Saíam para tudo quanto é canto. Certa vez, quando eu estava no meu quarto lendo um livro qualquer da vida, ela bateu na porta. 
- João, sua mãe pediu pra avisar que vai ao mercado. 
Hmm. 
- Que foi que você disse? 
- Olha, eu tô tentando ler, minha filha. Já ouvi, pode sair daqui. 
Adalgisa, com aqueles olhinhos de comer fotografia, estilo o cara que a Lily Braun pegou no dancing, me fitou e disse: 
- Deixa de ser imbecil. E feio. Você usa esses óculos estranhos, são eles que te fazem feio. 
Aproximou-se do meu peito e rasgou minha camisa. 
- Que porra é essa? A senhora é maluca? 
Ela não se deu por vencida. Rasgou meu short. A primeira vez a gente nunca esquece. Minha mãe também não. A Adalgisa contou depois e as duas brigaram, rolou sangue e tudo. Mas eu não apartei o combate. Briga de mulher não se separa. Nunca. Em hipótese alguma. 
Quando eu comecei esse texto, mencionei o fato de minha mãe achar que eu vou ser rico. A velha é tão avarenta que não me dá um tostão furado. 
- Você trabalha, vai ser rico, meu filho. 
Merda. Minha vida poderia ser melhor, sabe? Eu nasci rico, mas não tenho o menor espírito pra coisa. Acho essa porra de filantropia uma porcaria. Doar dinheiro pros outros? Ah, mas vai melhorar as condições de vida da população. Se fosse assim o mundo já estaria sem doenças, sem porcaria alguma, porque todo riquinho agora deu pra adotar crianças de nome Knjiohsa no meio do deserto; construir hospitais, ONGs, a porra toda. Construir escola que é bom, nada. Outro dia me assaltaram, cara. 
Lapa. Sábado. Data incerta, mês de Julho. Ano estelar: 2011. 
- Qual é, João, chega naquela garota ali, ela tá te dando mole. 
Quem disse isso pra mim foi o Carlão, um cara relativamente cool lá do banco. Eu gosto do Carlão. Mas como amigo, não me levem a mal. 
- E aí, gatinha. 
Loira. Gatinha. Peitos relativamente legais. Desdém. Riquinha do Leblon, tão desanimador quanto broxante. 
- Fala logo, meu namorado está vindo. 
- Você não tem namorado - respondo. - Se tivesse, estaria aqui com ele, e, atenção para este fato, não estaria vestindo essa roupa, principalmente aqui. 
Ela tinha cara de Selma, mas não arrisquei. 
A garota disse: 
- Você é esperto. Quer me comer? 
Piranha do Leblon, espécie em ascensão na sociedade carioca. Mamãe morreria se soubesse disso. 
Caminhávamos por uma ruazinha paralela, rumo a qualquer motel que estivesse disposto a nos aceitar àquela hora da noite, quando um cara me abordou. 
- Aí, irmão, passa tudo, passa tudo! 
Assim, no duro. Merda. Olhei pra garota, que não tinha me dito seu nome, e observei o medo estampado naquela carinha de bebê. Puta desgraçada. Sacanagem comigo, viu. 
- Vamos conversar, só tenho a grana pro motel, cara... 
- Então vai me dar a grana pro motel. 
- Mas... 
- Porra, parceiro, isso aqui é Lapa. Na Lapa tu fode a mina encostado no carro que o guarda não te pega. Relaxa aí. Mas relaxa e goza, porra. 
Dei a grana. 
Caminhando de volta à Lapa. Mil e um carros espalhados, mil e um capôs. 
Ela diz: 
- Quer testar aquele carro ali? 
Olhei. Carro de pobre. Ninguém se incomodaria. 
- Ok. Bora. 
Ah, ah, oh yeah, fuck me, baby, oh, oh, sim, sim. 
- MAS QUE PORRA É ESSA, CIDADÃO? 
Fodeu. 
Uma hora depois. 
- Qual é, seu delegado. 
- Não tem negociação, camarada. Fialho, tranca os dois no xadrez. 
- Seu delegado, isso aqui é Lapa, na Lapa tu fode a mina encostado no carro que o guarda não te pega. Libera aí, por favor. 
Passei a noite no xadrez. 
Seis da manhã. 
- João Alberto, você é vergonhoso. 
- Porra, mãe, sério mesmo que a senhora vai me dar sermão? 
- Isso é um escândalo para a sociedade, meu filho, um escândalo. O que minhas amigas vão pensar? 
- Foda-se suas amigas, mamãe. Eu tô cagando e andando pra elas! 
Ok, não foi legal ter dto aquilo. Não, não foi pelo desrespeito, foi pela vontade que bateu de ir ao banheiro. 
- Desculpa incomodar, seu delegado, mas eu posso utilizar o banheiro da sua DP? 
- O senhor está de sacanagem comigo, né? 
- Bem que eu queria. 
- Ponha-se para fora daqui antes que eu te expulse à la tiros! 
Merda. Literalmente merda. 
Eu não tornei a ver a garota do Leblon até voltar à praia, dois meses após o incidente da Lapa. 
- Você por aqui? 
Olhei a garota. Por que, agora eu não podia ir ao Leblon? Sim, sou eu, minha filha. 
- Acontece. Como vai a vida? 
- Tenho namorado. Sério, não ri. É de verdade. 
- Ok, eu não vou rir. Mas vou oferecer uma rapidinha na água. Ou lá em casa. 
Brutamontes. Armário. Dois por dois. 
- Algum problema, cidadão? 
Glup. 
- Que isso, doutor, problema algum. Conheço sua mulher de outros carnavais, só isso. 
Perseguição. Bullit. 
Foi correndo na areia que eu achei que poderia virar cineasta. 

John Albert Productions Presents 
STEVE MCQUEEN 
in 
BULLITT IN RIO 

Meu sonho morreu quando o cara pulou e me jogou no chão. Marlon me olhando, Jenifer comendo camarão e eu e o brutamontes jogados na areia, rolando ao lado do chuveirinho. Frango à milanesa. Nunca fui tão pobre. Mamãe, por favor não me odeie, sim? 

 

Lá fora tem um guarda com um cassetete

 

Para Lorena, com botox e agradecimentos por algo inominável.  

 
 
Estou deitado em minha cama. Poderia estar tomando meu café para fumar, mas não sou um canceriano sem lar. Agradeço a Deus por não ter câncer, perdi uma tia por causa do cigarro. Agradeço a Deus também por ter uma casa, e não morar de favor no lar de qualquer desconhecido. Meu nome é João Alberto, sou produtor de filmes adultos e viajo o mundo divulgando minha nova produção: Lá Fora Tem Um Guarda Com Um Cassetete. 

A história do ramo adulto começou depois que eu rolei na areia com o namorado de uma garota que eu comi na Lapa. O dono da Safadinhas, uma produtora do ramo, viu meu porte avantajado dentro da sunga e me chamou para um particular na barraca dele - coisa chique.
- Qual seu nome, camarada? 
- João Alberto. 
- E o que você faz da vida, João Alberto? 
Antes de responder, analisei aquele bigodinho mexicano da Boca do Lixo que aquele panaca tinha. 
- Trabalho em banco. 
- Quer mudar de vida? - perguntou, muito sério. 
- Como assim? 
- Pornografia. Ator pornô. 
Recusei. Não era minha praia. Neguei veementemente, mas fui convencido a fazer um teste casual. Como quem não quer nada, disse o dono da Safadinhas. 
- PORRA, João Alberto, qual foi? Na praia tu exibia o maior mastro, coisa e tal. Aqui é essa moleza toda. 
Acontece com qualquer homem, minha gente. Não posso culpar o garotão, andou trabalhando demais. 
- Foi mal, mas... 
- Foi mal é o cacete. Assim tu insulta a atriz. Gemima, tu gosta de ser insultada? 
Gemima era a atriz do filme. Atriz pornô tem tudo nome estranho; nomes bizarramente estranhos. O projeto de vadia sacudiu a cabeça. 
- Viu, João Alberto? Anda, veste as calças, tu não serve para isso. 
Eu já estava de saída quando o cara falou: 
- Seus pais trabalham com que? 
- High Society. 
Eu não vi, mas tenho certeza que uma luz acendeu na mente do cara. 
- Topa ser produtor de filme pornô, João Alberto? - perguntou ele. 
O sonho do Bullitt in Rio foi por água abaixo, mas em compensação eu tinha à minha disposição cento e vinte garotas gostosas e lindas, dispostas a dar para atores com pau grande e inteligência desproporcional. 
Caso seja aplicado de forma correta, o dinheiro investido em uma produção pornô pode dar muito lucro. Filmar Lá Fora Tem Um Guarda Com Um Cassetete rendeu bastante. Duas semanas após o lançamento, um produtor americano, Phil MaCock, ofereceu viagem com tudo pago até a Flórida. 
- Vocês divulgam ó filme. 
Sotaque do cacete, parecia um nordestino. Severino! Vida e morte. Severina. Severa. Marieta. João Cabral. 
Olhei o dono da Safadinhas com os olhos brilhando. Posso, posso, diz que posso, papai! Ele assentiu com a cabeça e eu assinei o contrato. Partimos eu, dois câmeras para fazer os registros e Suzi Cavala, nova pornostar brasileira. 
- Ai, meu Deus, que lindo é daqui de cima! Ai meu Deus! 
Suzi Cavala tinha mente de cavalo. Achava tudo lindo e maravilhoso. Os diretores me diziam que só gravavam com ela porque aquela mulher goza de verdade e geme que nem uma vadia no cio. E era verdade. A Suzi Cavala era piranha demais, mas gozava e gemia. Na indústria pornô isso dá grana, e em tempos de internet e sites de pornô gratuito feitos por punheteiros, qualquer grana é válida. 
- NÃO FAZ ISSO, JOÃO ALBERTO! 
Essa foi a reação da minha mãe quando eu contei que ia produzir filme pornô. 
- Eu tenho meu dinheiro, mamãe. Posso muito bem produzir. E dá mais grana ainda. 
- Você não nasceu para isso, João Alberto! Seu pai não aprovaria. O que ele vai pensar? 
- Meu pai está no manicômio, nem reconhecer te reconhece. Outro dia achou que você fosse um saco de balas que ele achou no cinema quando tinha onze anos. 
É verdade. Mamãe saiu chorando do manicômio, eu tive que mandar ela não xingar ele porque era um doente mental. 

A divulgação do filme ocorreu em um hotel cinco estrelas. Tapete vermelho, uísque para todos e muita sacanagem rolando solta. O filme vendeu horrores por lá. Em seguida, esticamos até Portugal. Sucesso por lá também. Aí foi o roteiro tradicional: Paris, Madrid, Barcelona, Roma, Veneza, Estocolmo, Genebra, etc. A merda rolou quando, antes de voltarmos ao Brasil, um italiano de Florença pediu para voltarmos à bota europeia e divulgarmos na cidade do pau do Davi. 
- Ma si, como no? É un filme belíssimo. Belíssimo. Ah, la boceta, como vocês chiamam, é troppo bella! 
O cara misturava a porra toda. Era uma suruba de letras, sons e palavras estranhas aos ouvidos desavisados. 
Encarei o polpetone humano e disse: 
- Amigo, isso aqui é coisa séria. Fala em italiano que a gente traduz, mas não insulta nosso idioma. 
Muita discussão depois, ficou combinado que faríamos o evento num hotel. Baixou polícia. 
- Que porra é essa, Massimo? 
O italiano, chocado com a invasão abrupta dos carabinieri, disse que não sabia o que fazer. 
- Como não sabe o que fazer, porra? É o quê, eles ficaram incomodados com a estátua do Davi ali? A gente cobre o pau dele. 
Como era um evento pornô, um escultor fez uma réplica do Davi, mas com um detalhe inusitado: o pênis do cara tava duro e media uns trinta centímetros. Foi a sensação do evento. 
- Vocês não podem levar o Davi Pauzudo, porra! - berrava a Suzi Cavala. 
Davi Pauzudo foi o apelido que a estátua ganhou. Nada mais natural, é óbvio. 
Passado o incidente em Florença, voltamos ao Brasil. Foi no avião que a Suzi surtou. 
- Cacete, João Alberto, tu tem que me ajudar, eu não aguento mais, cara! 
A vadia me sacudia na poltrona, tirando meu sono. 
- Que foi, Suzi? 
- Eu tô grávida. 
O que você faz numa situação dessas? Grita? Esperneia? 
- Foda-se, me deixa dormir, Suzi. 
- Mas eu vou ser mãe, João Alberto. Porra, seu insensível! 
- E eu quero dormir. 
- O filho é seu. 
CUMÉQUIÉ? 
- Sorry, baby? 
- Tô de sacanagem, relaxa aí. 
Ela fez uma pausa e continuou: 
- Mas aí é que está o problema. Eu não sei quem é o pai. Eu fiz trinta filmes sem camisinha. Dois deles eram de fetiche, os caras tinham que gozar em mim. 
- E você aceitou em período fértil, sua anta? - perguntei. 
- A grana era boa. 
Steve McQueen não se orgulharia de mim. Mamãe não se orgulharia de mim. Meu pai não se orgulharia de mim. Decidi tirar a dúvida dois dias após o avião pousar no Galeão. 
- Pai, lembra de mim? João, seu filho. 
- João, que surpresa boa! 
Don 't hate me, mother. 
- Eu sou produtor de filmes pornô. 
Papai me fitou e cuspiu no chão. Abriu um sorriso gigante e disse: 
- Parabéns, meu filho. Viva la revolución, Che te ama! É um importante passo para dominarmos o mundo. 
Steve McQueen não se orgulharia de mim. Mamãe não se orgulharia de mim. Meu pai não se orgulha de mim, só que ainda não sabe disso. 
Viva la revolución! 

 

João Alberto Strikes Back

 

Para uma certa editora, como forma de esquentar uma narrativa fria. 


JOÃO ALBERTO PRODUÇÕES LTDA. 


Era isso o que estava escrito na minha porta. João Alberto é meu nome, produtor de filmes pornográficos eu sou. Não me orgulho, não pretendo me orgulhar, acho esse ramo um porre. Mas dizem que nós humanos devemos trabalhar para prosperar. Não concordo. Discordo. Redundância. Eu trabalho há vinte anos, e o máximo que prosperei na vida foi subir meio ponto percentual na escala da pobreza. Se antes eu era pobre pra cacete, agora sou pobre pra dedéu. 
A Suzi Cavala, atriz pornô e nova sensação da indústria, vinha me visitar de vez em quando. 
- Joãozinho! Ah, aí está você, seu danadinho. Trouxe bolo lá da padaria. 
Merda. 
O problema com a Suzi Cavala é que a mulher não pára. Você pede, implora, mas o álcool continua descendo pro fígado, assim como o sêmen dos atores escorre por aquela boca. Se eu quiser posso pegar ela de jeito, a mulher cede. O negócio fica complicado porque ela tem um filho que ninguém sabe de quem é, além do corpo dela ser um protótipo de Keith Richards. A garota curte a vida como se não houvesse amanhã, daqui a pouco tá caindo pelas tabelas, morta. 
Steve McQueen. 
- O que você vê em Steve McQueen, João? - perguntou a Suzi. 
- Eu não vejo. Nunca vi nenhum filme dele, só acho boa-pinta mesmo. 
- Você é estranho. 
Eu, né. 
- Porra, Suzi! Tu tem um filho de pai desconhecido, dá pra todo mundo, cheira que nem uma condenada e eu sou o estranho? 
- Grosso! 
Olhei para dentro das minhas calças depois que ela saiu batendo a porta. É, eu sou grosso e comprido, mas ainda assim tive a decência de broxar na frente do dono da Safadinhas. O cara me ofereceu um teste e eu falhei. Céus. 
Duas batidas suaves na minha porta. Sério mesmo? 
- Pode entrar. 
Entrou. Entrou e fez um estrago. A garota era um avião. Loirinha, baixa, cabelos ondulados e pele vermelhinha. Peitos proporcionais. Não me dei o trabalho de pensar nas partes baixas. 
- Pois não? - perguntei quase balbuciando. 
- Meu nome é Gabrielle, mas pode chamar de Gabi. 
- Sente-se, Gabi. O que você deseja? 
- Fazer um teste. 
Calma, João, calma. Devagar se vai ao longe. 
- Mocinha, eu não faço testes. Eu produzo os filmes. No momento, vou começar uma trilogia, posso te arranjar vaga numa cena de suruba. Você faz suruba? 
Ela mordeu o dedo indicador e sorriu. Me senti em um livro do Chandler. Meu mundo por uma Westwood. 
Gabi disse: 
- Faço tudo, queridinho. Ok, tudo menos golden shower. E defecar, não curto isso. E animais, sou vegetariana. O resto, pode me escalar! 
Bateu palmas. Sua voz era estridente e irritante. Gabrielle gozando seria capaz de queimar os canais do microfone. Seria? Ou era. 
Ela sorriu novamente e disse: 
- Qual é a trilogia? 
Meu vizinho tem uma vara de pesca I, II e III. 
- Legal, qual a cena? 
- Você faz um peixe. 
Ela me encarou assustada. 
- É um filme experimental, pornô conceitual. É uma nova vertente. Então, você e as garotas vão fazer um cardume que está nadando no mar, quando vem um tubarão, interpretado por um ator a ser escolhido. Aí a gente filma ele comendo vocês. Entendeu a metáfora? 
- Entendi. Quando eu começo? 
- Amanhã de manhã. 


Saí do escritório e apanhei o ônibus no ponto da esquina. Vinte minutos depois, muito suor e tédio também, e cheguei ao manicômio. 
- Olá, papai - falei. 
- E aí, meu filho? 
Fazia nove meses que meu pai caíra da cama. A concussão afetara o cérebro, ele começava a recuperar a lucidez aos poucos, disseram os médicos. 
- Vou bem - respondi. - Estou produzindo um filme novo. 
- Viva la revolución! Você vai se dar bem, meu filho, eu sinto isso. Qual o nome? 
Meu vizinho tem uma vara de pesca. 
- Bem-humorado, gostei. Agora você me dá licença, sim? Che Guevara me espera no banho. 
Levantei da cadeira e esperei meu velho sumir do meu campo de visão para poder rir. Era divertido. Um louco que observava a cena se aproximou e tocou meu ombro. 
- Seu pai é maluco, rapaz. 
O sujo falando do mal lavado. 
- É mesmo? - indaguei. - Por quê? 
- Fica falando essas merdas de viva la revolución. Não aguento mais isso, daqui a pouco ele acorda morto. Vão matar ele, hein. 
Fiquei assustado. Aquele louco parecia ser muito lúcido para estar ali. 
- Qual o seu nome? 
- João Alberto. 
- Ah, o produtor de filme pornô. 
- Você me conhece? 
- Lógico. Punheteiro profissional aqui, rapaz. 
Ok, vamos com calma, sem estresse. 
- Tu chegou aqui há quanto tempo? - perguntei. 
- Duas semanas. Arranjei um esquema Jack Nicholson, melhor o manicômio do que a cadeia, certo? A juíza me condenou, me mandou para cá. 
- Bacana - falei. - Aliás, qual seu nome? 
- Roberto, mas pode chamar de Beto. 
- Rockefeller? 
- Hã? 
- Esquece. 
Beto pediu para que déssemos uma volta ao redor do manicômio. O pátio era extenso, cheio de árvores. Um clima agradável, me senti na França. 
- Ali é onde a galera joga futebol. 
- Tu não joga? 
- De vez em quando. 
Era um campo semi profissional, em ótimo estado de conservação. Uns cinco caras formavam uma roda, mas eu sou míope e não distingui direito o que eles faziam. Um deles se aproximou e mexeu com o Beto. 
- Qual é, Beto, saiu da brincadeira por quê? Anda, vamos jogar. 
Olhei o louco e falei: 
- Jogar o quê? Não tem bola nenhuma ali. 
- Claro que tem - respondeu o louco. 
- Esse cara é maluco - disse Beto. 
Hora de provocar. 
- Ué, tu não tá aqui dentro? Vai jogar, Beto! 
- Eu não, a bola tá vazia! 
No mesmo instante, dois guardas se aproximaram por trás e dispararam contra o Beto. 
- Relaxa, é sedativo - explicou um deles. 
- Ah, sim - respondi. 
- Preciso que você me acompanhe, você estava na companhia do Sávio Sete Vidas, cidadão. 
- Sávio Sete Vidas? Que porra é essa? 
Sala do diretor do manicômio, um careca magro de jaleco. 
- O Sávio Sete Vidas é um dos mais perigosos internos daqui. Já matou três pessoas, temos certeza, mas não conseguimos provar nenhuma. 
- Como assim? - indaguei. 
- O cara mata e some com os rastros. Só ele poderia matar alguém. 
- Mas ele é normal. Pelo menos pareceu. 
O diretor me fuzilou com os olhos. 
- Deixa de ser trouxa. O cara tem histórico de múltiplas personalidades. Descobre tudo sobre os detentos, passa uma semana estudando eles. Depois os caras somem sem deixar rastro. Amanhecem mortos em suas celas dois dias depois de sumidos. 
Inclinei-me para frente e disse: 
- Como vocês sabem? 
- Enviamos um policial de alto nível técnico. História muito bem montada: dá uma de Jack Nicholson, nome Beto, pegamos os registros da condenação e tudo. Uma farsa bem montada, debaixo do nariz da galera mais esperta. Não deu outra. O Sávio descobriu e matou o cara. 
- Só pode ter sido ele? 
- Só pode ter sido ele, João. 
Levantei e agradeci. Na saída, porém, voltei e disse, olhando nos olhos do diretor: 
- Se acontecer alguma coisa ao meu pai, vocês vão ver só. É muito bom esse filho da puta ficar trancado numa masmorra. 
O diretor me mandou ficar tranquilo. 
Duas semanas depois meu pai foi encontrado morto. Punhalada nas costas. 
Sávio Sete Vidas cavou sua quarta vítima e, consequentemente, sua morte. 
Me aguarda, filho da puta. 

 

O arenque defumado

 

 
Aproximou-se do homem com cuidado. Era louco, maluco, todos pensavam aquilo, mas nenhum tinha vontade de falar. O único que poderia abrir o bico era o homem das freiras cegas da Birmânia. Maldito pregador de revoluções, passeatas e comícios imaginários. Não queria mais saber daquilo. Só queria eliminá-lo. E rápido. Assumiria um caráter de imparcialidade. Ninguém teria dúvidas de que ele havia praticado. Na verdade, estaria tudo muito na cara. 
- Viva la revolución! 
Viva. 
Dialogaram por alguns instantes até que tomasse coragem. Dois tiros a queima-roupa cortaram o peito do velho, arremessando-o contra o chão. O lençol virou uma bandeira branca com uma enorme mancha vermelha. Trancou a cela e voltou para seu lugar de origem. 
Viva la revolución. Sávio Sete Vidas seria culpado. Oh, céus. 




Enquanto eu analisava os documentos sobre o Sávio Sete Vidas que o diretor do manicômio havia me dado, ficava pensando no meu pai. Viva la revolución. Velho maluco, porém gente boa. Eu tinha uma boa impressão do diretor. Era um cara de princípios, moral, dignidade, etc. Enfim, a porra toda do bom moço. E olha que ele dirigia um hospício! 
A Suzi Cavala entrou na minha sala vestindo uma calcinha e uma camisa. 
- João, tô pronta pra minha cena. 
Olhei. 
- Aguarda lá fora, já te chamo. 
O diretor do filme havia faltado e pedira para que eu dirigisse a cena. Nada mais natural, portanto, que a Suzi Cavala estivesse nela. Guardei os papeis com cuidado atrás da estante, em um compartimento que eu descobrira existir na noite passada, e fui ao estúdio. 
O estúdio era uma sala cinco por cinco, com um sofá e uma cama no centro. Umas cortinas vermelhas na lateral e um piso de tapetes fajutos, só pra imitar um quarto de motel mesmo. A cena seria conceitual: o vizinho entraria com uma vara de pescar e chamaria a Suzi para ir com ele até o lago. Ela iria, mas o lago seria o apartamento do cara. Aí cortava e eles já estariam pelados. Eu não vejo conceitualidade nisso, mas o diretor falou que é a experiência do corte abrupto para a nudez, João Alberto. Porra, corte abrupto é uma circuncisão. Aquilo era um corte. Diretor de pornô querendo brincar de 2001 é foda, viu. 
- RODANDO! 
Oh yeah, clum, mffgrr, AAAH, UUUUUH. 
Sério, eu precisei de um protetor auricular para aguentar aqueles urros. Ator finge muito. Sim, eu sei que é a profissão dele, mas um pouquinho menos de atividade vocal ajudaria. 
- Mandei bem, João? - perguntou a Suzi depois da cena. 
- Excelentemente bem, Suzi. Soberba, uma diva do pornô. 
- Jura? 
Sacudi a cabeça. 
- Ótima gozada no final, bem realista. 
- Ai, obrigada, João. 
Use-me e agradeça-me. Oh, céus. 
Voltei para o escritório e apanhei as folhas. Dei mais uma analisada no caso do meu pai. Um médico havia feito um laudo preliminar do corpo. Dois tiros, curta distância. Porra, pai, por que você deixou o Sávio Sete Vidas entrar na sua cela? Mas aquilo também sugeria um contato dos dois. Fiquei intrigado. Meu pai estaria metido naquela porra também? Seria meu pai um arenque defumado, o red herring dos dez negrinhos? 
Peguei o telefone. 
- Claro, dá uns quinze minutos e vem. 


O diretor do manicômio me recebeu em sua casa quando já era bem tarde. Conversamos na sala, sentados um de frente para o outro. 
- Diga, João. O que aconteceu? 
- Eu preciso saber se meu pai esteve alguma vez envolvido em alguma confusão no manicômio. Qualquer uma. 
O diretor fitou-me com aqueles olhos esbugalhados e disse: 
- Mas por que isso? 
- Ele poderia ser cúmplice do Sávio Sete Vidas. Sei lá, foi uma hipótese que passou pela minha mente. Você tem os arquivos? 
- Vou dar uma olhada aqui, aguarde um instante. 
Voltou dois minutos depois com uma pasta azul tamanho giga. Papeis empilhados e devidamente grampeados dentro dela. 
- Você pode levar esses papeis para casa - disse ele. - Depois tu me devolve, sem problemas. 
- Ok. E o Sávio, o que foi decidido? 
- Ainda estão analisando as imagens do circuito interno. Dessa vez eu consegui pegar o filho da puta. Não se consegue ver muito, mas vamos analisar com calma as imagens. 
- O vídeo está com você? 
- Amanhã te mostro. Pode ser? 
- Lógico. 
Saí do prédio do diretor e voltei para casa. No caminho cruzei com uma loja que vendia filmes do Steve McQueen. O que ele faria no meu lugar? Entraria na sala do Sávio Sete Vidas e daria uma porrada nele com toda força do mundo? Cuidaria para que ele se fodesse bastante? Tirei esses pensamentos malignos da mente e voltei para casa. Deitei na cama e dormi pesadamente até acordar pela manhã. 
- João? 
- Mãe, eu tô dormindo. 
- Vem pra cá, preciso te ver. 
- Por quê? 
- Seu pai morreu, eu tô muito sozinha. 
- Cadê suas amigas? 
- Porra, João Alberto, você pode visitar sua mãe? 
Eu fui. 
- Olá, mamãe. 
Dois beijinhos, um abraço forçado e muito sono. Sono. Cama. Dormir. 
- Sabe, eu tenho um negócio para te dar, João. 
- O quê? 
Mamãe apanhou um envelope e me entregou. 
- Lê. 
- Agora? 
- Por favor. 


Querido filho, eu sei que nunca fui o pai ideal para você, mas queria que soubesse que te amo acima de tudo e todos. Sua mãe vai deixar isso guardado até que você tenha idade suficiente para entender tudo o que passou. Eu te amo. 


Encarei minha mãe. 
- Olha - disse ela -, você já tem idade suficiente para saber, João. 
- Saber o quê? Ele não era meu pai, é isso? 
- Deixa de ser bobo, lógico que era. Ele só não era quem você sempre pensou que fosse. 
- Como assim? 
- Seu pai não enlouqueceu porque você era comunista, ou o que quer que fosse. Seu pai sempre esteve lúcido. Ele era uma espécie de espião da polícia dentro do manicômio. A história é muito longa, você não vai entender. 
- Começou, termina. 
Mamãe fez uma pausa e continuou: 
- Há muito tempo atrás, um soldado desertou e foi internado no manicômio. Ele disse saber um segredo de Estado, algo muito valioso para a nação, mas morreu antes de contar. Uma junta policial liderada pelo seu pai investigou a vida dele a fundo, nos mínimos detalhes mesmo. Descobriram uma espécie de sociedade secreta com base no manicômio. 
- Como assim? - perguntei. 
- Em outras palavras, estariam colocando pessoas dessa organização dentro do manicômio para que eles pudessem se comunicar com maior facilidade. 
- Então não foi o Sávio quem matou meu pai? 
- Eu vou chegar lá. 
- Então me diz onde meu pai entra nessa história.
- Ele se voluntariou para entrar como louco no manicômio. No início ele não descobriu nada, mas depois ouviu umas conversas e se infiltrou no grupo. Ficou amigo das pessoas, até assumir posição de destaque na organização. Ele era um tipo de agente duplo, entende? 
Silêncio no ambiente. Merda. Dupla merda. Tripla merda. Caralho a merda quatro. 
- E como você sabe disso, mãe? 
- Ele me mandava algumas cartas. 
Entregou-me um grupo de papeis e envelopes, todos endereçados a ela e com carimbo de CONFIDENCIAL no verso. 
Mamãe disse: 
- Alguém dentro do manicômio descobriu recentemente essa história toda e matou seu pai. 
- Depois de tanto tempo? 
- A organização persistia. Ele me mandava relatórios constantes, a gente tinha um código. Só estou te contando isso, João Alberto, porque você andou investigando a morte dele que eu sei. 
- De fato. Nos intervalos do filme eu dou uma lida no material que o diretor me forneceu sobre meu pai. 
- O diretor? 
Mamãe engoliu seco. 
- Seu pai não gostava dele. 
- Por que? 
- Não, ele não era da organização, eu tenho certeza. Eles só não se davam. 
Fiz uma pausa e fui até a cozinha. Tomei um copo grande de água e voltei para a sala. 
- Você disse que não foi o Sávio quem o matou... 
- O Sávio era da organização, meu filho. Ele, seu pai e mais dois. 
- Um serial killer na organização? 
- Também não foi o Sávio Sete Vidas quem matou os outros três. 
- Há um justiceiro no manicômio então? 
Mamãe sacudiu a cabeça. Era outra pessoa falando comigo. Minha mãe não era uma mulher de segredos, nunca foi. Mas em uma conversa só eu tinha mil e uma informações novas sobre o caso do meu pai. Surpresa. Porra, era uma guinada gigantesca na minha vida. Voltei para casa e telefonei para a Suzi Cavala. 
- Fala, João. 
- Você vai passar na minha casa agora. 
- Para quê? 
- Vem pra cá. 
Ela veio. Estava assustada, nunca tinha estado no meu apartamento antes. 
- Entra, fecha a porta - falei. 
- Que foi? 
Apanhei um facão em cima da mesa e apontei para ela.
- Suzi, eu vou meter em você e depois vou me suicidar com essa faca, falou? 
Nisso, comecei a tirar minha roupa de baixo, sempre mantendo o facão apontado para ela. 
- João, você está bem? 
- EU NÃO TO BEM. EU TO BEM PRA CARALHO, PORRA. 
Avancei e tentei cortar a vadia. Eu estava bem, ela que não compreendia. Eu precisava fazer aquilo, precisava. 


				EPÍLOGO NÚMERO UM

Os dois enfermeiros entraram na sala do diretor informando que havia um novo interno. O homem saiu detrás da mesa e acompanhou os dois até a entrada do manicômio, onde viu o João Alberto caído em uma maca sob o efeito de sedativos pesados. Ordenou que os dois saíssem e contemplou o corpo. Passou as mãos pelo braço direito de João. Sentiu-lhe cada músculo. Pediu que os dois homens voltassem e o levassem à cela cinco. 


 
				EPÍLOGO NÚMERO DOIS 
 	Sávio Sete Vidas dormia tranquilo em sua cela quando a faca cortou-lhe o pescoço. 

 

A balança do horror

 

Conservadores do mundo, aniquilemo-nos! 
Karl Parafraseado Marx


O homem saiu do Palácio do Catete por volta das onze horas da noite. Cumprimentou o vigia noturno e cruzou o pátio arborizado sem olhar para os lados. Por duas vezes consultou seu relógio de caixa dourada, presente de seu pai. Percorreu toda a extensão da praia do Flamengo, até chegar à Oswaldo Cruz. Enveredou pela via larga e caminhou pela praia de Botafogo, quando encontrou a Senador Vergueiro. 
O prédio escolhido para a reunião da noite era relativamente novo. Alto, um apartamento por andar, garagem com direito a dois carros por morador. O homem anunciou seu nome ao porteiro, que autorizou sua entrada. O elevador tremia durante a subida. O síndico dizia que era por ser muito novo, mas o homem tinha sua teoria da conspiração: por ser um prédio frequentado pelo alto escalão do governo, um acidente de elevador seria perfeito. Acendeu um cigarro na saída e acendeu a luz do corredor pressionando um pequeno botão na parede. Deu uma baforada forte até que um senhor vestindo um smoking abrisse a porta. 
- Doutor Lemos, o senhor veio! - exclamou o velho. 
- Não poderia deixar de comparecer. O presidente solicitou minha presença. 
Caminharam por um corredor levemente estreito antes de uma ampla sala lotada de estantes, sofás e tapetes se revelar. 
Sentados nos sofás e poltronas enquanto fumavam seus cigarros, algumas das maiores figuras do governo se reuniam naquela noite. O ministro da Segurança, sentado na ponta do sofá, foi quem cumprimentou Lemos primeiramente. 
- Graças a Deus você chegou, Lemos! 
O homem jogou seu chapéu com precisão em cima de um cabideiro. 
- Nunca é tarde, meus amigos. 
Lemos passou os olhos pela sala e reconheceu os outros três senhores. O segurança pessoal do presidente, Gonçalves Neves; o chefe da polícia, Amilton Muniz; e o presidente Vargas, bastante cansado sentado em sua poltrona particular. 
Vargas, erguendo os óculos contra a luz, virou-se para Lemos. 
- Por que demorou? 
- Fiquei retido no palácio, presidente. Peço desculpas. 
Vargas grunhiu qualquer coisa e levantou-se. 
- Muito bem, senhores - disse. - Vamos ao que interessa. 
O protótipo de ditador caminhou pela sala prestando atenção em cada um daqueles homens. Por fim, acomodou-se em uma cadeira larga de couro, onde tinha fácil acesso a um projetor de última geração. 
O presidente deu um gole de sua bebida e começou a falar. 
- Como todos vocês sabem, a capital da nação sofre de ataques lastimáveis, senhores. 
Todos assentiram. 
- Essa espécie de polícia particular, que se intitula Os Aniquiladores, já está indo longe demais. Se fazem passar por justiceiros e assassinam brutalmente subversivos e conservadores pelas ruas do Distrito Federal. Os ataques vêm ocorrendo há três meses, de forma que o ministro da Segurança aqui presente já contabilizou cerca de vinte assassinatos na conta desses homens! E não temos nenhuma pista deles, nenhuma! 
Os outros quatro homens voltaram a assentir com suas cabeças. De fato, os ataques dos Aniquiladores já haviam chegado longe demais. Era um grupo à parte da polícia e da lei. Deixavam apenas bilhetes onde lia-se Os Aniquiladores estiveram nesse corpo. E fim. Nenhum de seus membros havia sido visto, mas sua existência era tão segura quanto a gravidade e a lua. A polícia havia feito um esforço gigantesco para encobrir o maior número possível de informações a respeito do caso, mas era algo que começava a cair na boca do povo. Mesmo com todas as repressões de órgãos como o DIP, uma parcela minoritária da população sabia da existência dos Aniquiladores. 
Vargas deu um gole de sua bebida e pediu para que o chefe da polícia, Amilton Muniz, tomasse a palavra. 
- Com base nos fatos apresentados pelo presidente Vargas e nas contas feitas pelo ministro da Segurança, creio que teremos de atacar com força máxima. 
Lemos revirou-se na cadeira. Terminou o cigarro e depositou-o no cinzeiro. Acendeu outro em seguida. 
- Tenho aqui - continuou Amilton -, um novo projeto! É algo revolucionário, senhores. 
O chefe da polícia inclinou-se na mesa onde estava o projetor e inseriu dois pequenos cartões dentro do aparelho. Pediu ao mordomo que apagasse a luz e aguardou. Foram diversas reações à projeção. O ministro da Segurança estava abismado; Lemos demonstrava alguma inquietação; o segurança do presidente não compreendia muito bem. 
- O que é isso? - perguntou Lemos. 
- A Balança do Horror! - respondeu Amilton Muniz. Tomei como modelo um projeto implantado em Kansas City, nos Estados Unidos. Trata-se de um dispositivo muito simples, é bem verdade. Mandaremos, sem licitação, uma empresa confeccionar uma balança e pesos com formato de gente. Em um dos pratos, teremos os pesos correspondentes aos Aniquiladores. No outro prato, teremos os pesos correspondentes às vítimas dos Aniquiladores. Adotaremos um esquema simples de medição, uma escala nossa, que não deverá de forma alguma ultrapassar os limites deste apartamento. Quando o peso das vítimas ultrapassar um grau X em nossa escala, saberemos que é hora de agir. Dá muito certo, podem confiar. 
Permaneceram em silêncio por cinco minutos. Refletiam com seus botões a ideia apresentada. A Balança do Horror! Seria aquele artefato algo capaz de controlar os impulsos daquela polícia paralela? Resolveram tentar. 
O presidente Vargas tomou a palavra. 
- Senhores, temos de tentar. Eu mesmo não confio nos benefícios imediatos de tal artefato, mas julgo ser a última medida cabível...
Lemos disse: 
- O senhor disse que não haviam pistas contra os Aniquiladores. 
- E não há, Lemos. Não há a menor pista. Os melhores agentes do Brasil já analisaram os corpos das vítimas, assim como o fizeram com os bilhetes. Não há a menor pista acerca deles. 
- Então como sabemos que existem? - indagou o ministro. 
- Não pode ser coisa de um homem só - retrucou Lemos. - Isso é coisa planejada. O problema é que não temos um motivo para isso; não temos absolutamente nada. 
Conjecturaram por mais vinte minutos, quando o presidente decidiu interromper a reunião. Despediram-se do mandatário, deixando que ele partisse com seu segurança. 
A sala do apartamento era fria como uma montanha nevada. Lemos começou a perceber que era até mesmo estranha, que os livros não ofereciam aconchego algum. 
- De quem é esse apartamento, afinal de contas? - perguntou ele. 
- Oh, é meu - respondeu o chefe da polícia. - Um certo bicheiro andava devendo uns favores para mim, consegui o apartamento. 
Ele exibia um sorriso no rosto, algo muito peculiar. Lemos e o ministro da Segurança também sorriam. O mordomo apareceu em seguida e começou a sorrir também. Subitamente, cessaram. Foram todos os três ficaram paralisados, exceto o homem que atirara contra eles. 
- Não tentem se mexer, não vão conseguir. Importamos esse soro diretamente dos Estados Unidos. É muito eficaz. Age nas células do corpo, desintegrando-as lentamente. Daqui a uma hora vocês tombarão mortos no chão. 
- Você é um Aniquilador? 
- De fato. Acho que já posso fornecer explicações necessárias para vocês, vão morrer mesmo! 
O homem deu uma gargalhada gigantesca. Todos os outros três permaneciam calados. 
- Não somos porra de patrulha paralela nenhuma, meus caros. Trata-se de um grupo de cinco pessoas que deseja eliminar aqueles que fazem o mal à sociedade, só o Vargas imbecil que não percebe isso. Observem comigo: qual a diferença de um travesti do Mangue para um diretor de colégio que abusa das estudantes? Nenhuma, ambos ameaçam o bem estar da sociedade. Devem ser eliminados. 
- Todos eles? - indagou o homem que caíra no chão. 
- Não, lógico que não. Nós queríamos apenas matar umas sete pessoas, mas o Vargas mandou os crimes serem encobertos. Nosso objetivo é alertar a população, fazer uma espécie de revolução. 
- Então vocês são conservadores? 
- Altamente conservadores, meu caro. Altamente conservadores. Mais alguma coisa? 
Nenhum dos três conseguiu responder. O Aniquilador presente foi até a cozinha e apanhou uma pequena balança dentro do armário. Diante dos olhares pasmos, distribuiu os pesos de forma desigual, apontando uma desproporcionalidade grotesca, algo capaz de atingir os níveis máximos da nova escala proposta mais cedo. Era a primeira Balança do Horror! 
Os momentos finais daqueles três homens foram torturantes. Cuspiam sangue involuntariamente, tremiam de dor e medo, tudo sob os olhares atentos do Aniquilador. Assim que a morte dos inimigos foi constatada, ele levantou-se da cadeira onde estava e colocou na boca de cada um deles uma pequena folha de papel. Caminhou até o aparador, ao lado da porta de entrada, e observou-se no espelho. Fingira muito bem ser um mordomo. Ficava tão belo quanto o era na juventude metido naquele smoking americano. Sentia-se um astro do cinema. O Vargas maldito que fosse para o raio que o parta! 
Entrou no elevador. Quando estava no terceiro andar, os cabos se romperam, jogando aquela caixa pesada e folhada a ouro contra o fundo de um poço. O Aniquilador ainda estava consciente quando a portinhola no teto do elevador se abriu. Uma figura vestindo preto e uma máscara de pano com dois furos nos olhos, a qual cobria-lhe o restante da face, contemplou-o. 
- Realizou o serviço? 
- Você armou tudo isso? 
- Compreenda, velhote, você está velho para o serviço. Por mim eu o tirava do grupo há muito tempo, mas as ordens superiores não deixavam. 
O Aniquilador, deitado no chão do elevador, não reagiu à bala que perfurou-lhe o peito. Deixou que a morte chegasse lenta e agonizante. 
O segundo Aniquilador, o que derrubara o elevador, retornou ao apartamento do chefe de polícia Amilton Muniz, e jogou o conteúdo de um frasco de gasolina nas prateleiras, cortinas e tapeçarias. Acendeu um cigarro, deu uma tragada e jogou-o contra o líquido. O fogo alastrou-se rapidamente, consumindo três andares do prédio. Os Aniquiladores haviam realizado seu último serviço. A informação da Balança do Horror! havia mexido com seus espíritos aventureiros. Não conseguiriam manter o ritmo, acabariam derrotados. Seus serviços só retornariam em agosto de 1954, quando vingaram-se de Vargas de forma magistral. 

 

Neologismos

 

Ao tédio dos sábados à noite.



Eu sou escritor. É, daqueles que escrevem livros que pessoas minimamente cultas leem. Mas eu poderia ser advogado, pedreiro, vendedor, garçom, publicitário, jornalista, designer, palhaço, criminoso. Podia estar roubando, matando, sequestrando, enfim, regendo uma vida totalmente diferente da minha; mas não, estou aqui, parado nessa droga de festa observando as pessoas andando de um lado para o outro. Eu odeio festas. 
As festas, segundo remontam meus pensamentos que ainda permanecem sóbrios, surgiram em algum reino da vida, mais ou menos trocentos anos de Cristo nascer, e serviam para homenagear os deuses do reino. Uma das minhas teorias é que alguém estragou a festa, causando a fúria dos deuses. Não preciso dizer que o resultado foi um continente perdido no fundo do mar, e que o nome do danadinho é Atlântida. 
As mulheres dessa festa são muito bonitas, é bem verdade. Já passaram por mim algumas ruivas, duas morenas e uma loira espetacular. Mas eu não gosto de comer mulher. É, eu tenho um lance meio voyeur com relação a sexo. Sou o cara mais punheteiro do mundo - mesmo no auge da fama e dos trinta anos, onde eu poderia estar comendo quem eu quisesse, ainda insisto em bater umazinha pelo menos duas vezes por dia. Sim, essa prática inclui dias em que eu estou acompanhado. Normalmente a cena se dá na cama, dez minutos após a sexta trepada. Estimativa minha. 
Você está cansado, diz ela. 
Impressão sua, respondo. 
Começo então uma sessão de masturbação só para provar à minha companheira casual que nada me excita mais do que quartos espelhados de motel, com aquelas camas vermelhas de lençois imundos. 
Você se masturba? 
Olho para ela com certa curiosidade. 
Você não?, pergunto, incrédulo. 
Ah, eu acho masturbação muito careta. 
Qual o ponto que te dá mais prazer?, pergunto, na lata. 
O clitóris. 
Quando uma mulher disser que é o clitóris que dá mais prazer à ela, você saberá que ela não se masturba, tem horror a isso e não pretende mudar suas concepções. É óbvio que o clitóris vai dar mais prazer, eu quero saber o ponto em que eu te toco, aquele ponto W por assim dizer, que quando tocado te deixa mais molhada que mar em dia de chuva. 
Eu não sei, é o clicli mesmo, diz ela, sorrindo. 
Clicli. Que palavra ridícula. Clicli. 
Retribuo o sorriso. 
Voltando à festa. 
Eu não me divirto nas festas. Aquele negócio de requebrar num piso quadriculado, parecendo um peão de jogo de xadrez, não me diverte. Mas eu rio. Eu rio demais daqueles caras da mesma idade que eu, casados inclusive, que insistem em ficar dançando como adolescentes. Música de festa me irrita. Ninguém toca rock nas festas. É sempre sertanejo, pagode, funk. É verdade, os tempos são outros, mas o gosto atual é muito ruim. As mulheres com quem eu saio me dizem que curtem esses ritmos novos. Outro dia perguntei a uma moreninha, a Márcia, se ela conhecia Led Zeppelin. 
Aquele dirigível que caiu na Alemanha?, pergunta ela de forma quase retórica. 
Você conhece o Hidenbury mas não conhece Led Zeppelin?, digo. 
Ah, não. Quem é? 
Expliquei. Ela não deu a mínima. Virou e começou a cavalgar em mim. Depois dessa experiência eu resolvi rever meus conceitos sobre festas. 
Anda, vamos dançar. Essa é a aniversariante. Amanda, 35 anos. Parabéns. 
Não, obrigado. 
Você nunca dança! 
Tadá! 
Amanda sai de perto de mim. Fico de lado no banco, virado para a pista. Levo uma mão à cabeça, apoiando-a na palma. Observo todos dançando animadamente, enquanto alguns adolescentes riem das músicas. Babacas. As mulheres são más, dizia meu pai. Uma mulher está me olhando. Peitos grandes, decote ousado. Carente. Doida para dar. 
Oi, posso sentar aqui? Também gosto de ver os outros. 
Hã? Ah, sim, lógico. 
Afasto uma almofada laranja que nos separa. 
Qual o seu nome, pergunta ela. 
Deixa em off. E o seu? 
Você tem medo de dizer seu nome? Michele. 
Apertamos as mãos. 
Não é que eu tenho medo de dizer meu nome, só não acho válido. 
Por quê? 
Eu acabei de te conhecer, não vou dizer meu nome. 
Michele se levanta e não olha na minha cara. Eu menti, e deveria me sentir minimamente mal por isso. Acontece que se eu dissesse meu nome para ela, seria capaz de Michele reconhecê-lo das páginas do jornal. Ah, o grande escritor. Aprendi a ser discreto. 
Michele volta cinco minutos depois. Duas taças nas mãos. 
Estende uma para mim e fala. 
Para você. 
Ah, obrigado. Eu não bebo. 
Não bebe?, a garota está surpresa. 
Tampouco fumo. Ainda quer algo comigo? 
Quem disse que eu quero alguma coisa contigo, seu escritorzinho presunçoso? 
Você já leu meus livros? 
Quem nunca leu um livro seu? Deixa disso, eu sou casada e aprecio sua literatura. Na verdade, eu só queria um autógrafo mesmo. 
Sabe, digo eu sorrindo com todos os dentes, minha cabeça de cima não tá batendo bem. Posso assinar com a de baixo? 
Michele sorri e me pega pela mão. Estamos no banheiro, acabamos de transar. Ela manda bem, devo admitir. 
Você é gostoso. 
Mamãe fez bem. 
E convencido. 
Eu sou modesto, deixa disso! 
Rimos. 
Deveríamos repetir a dose, proponho. 
Pode ser. Não se esqueça que eu sou casada. 
Não foi um joguinho?, indago. 
Você achou que foi? Bem, não foi. Eu sou mesmo casada, olha a aliança. 
De fato, é uma aliança muito bonita. Por que eu só me envolvo com mulheres comprometidas, isso não é legal. 
Ok, e o que você sugere? 
O dono da ferramenta aqui é você, querido. Quando você quer me comer de novo? 
Seu marido está em casa? 
Qualquer dia menos hoje. Eu não transo mais que uma vez no primeiro dia. 
Uau. Mulher de respeito, essa. 
Toma meu telefone, é mais fácil. Liga quando precisar de uma variação peniana. 
Gostei, variação peniana. 
Neologismos é uma arte, amigo leitor. 
Sou bom com neologismos. Enfim, me liga quando quiser. 
Entrego um papel com meu telefone. Michele desaparece do meu campo de visão. De fato, não existem pessoas honestas nesse mundo. É óbvio que o nome dela não é Michele, assim como seus cabelos não são loiros. Na verdade eu só quero comer ela novamente para checar esse detalhe. Deduzam vocês mesmos como eu farei isso. Aviso: é sacanagem.

 

Pulsação

   Pra Bugs. Bunny. Barbara. Heeyzer. Enfim.

   Foi quando eu dei duas batidas na porta do diretor.

- Queria me ver? - sorri. 
- Entra, Larinha - disse ele. 
O diretor é um gordo safado que dirige a produtora. É que eu sou atriz pornô, sabe? Mas para todos os efeitos, atriz de filmes adultos. Soa melhor e não me veem como uma puta. 
- Diga lá - falei. 
- Trabalho novo. Amanhã. 
Ai, céus. Cada vez que um trabalho novo surge eu tremo. A indústria anda muito competitiva, logo, os melhores filmes possuem os melhores atores, as melhores atrizes e as melhores perversões. É aí que o bicho pega. Ou come. 
- Ai, meu Deus... 
O diretor segurou na minha mão com firmeza. 
- Relaxa, Lara. Você vai filmar com o Tião Sucuri. 
Porra, o Tião Sucuri é sacanagem. 
- Diretor, o Tião Sucuri é enorme, eu não aguento. Eu sou uma menina, er, apertada. 
Por mais que eu conviva com esses termos chulos, falar para uma pessoa que não seja seu ginecologista, eu sou apertada, é complicado. 
O diretor sorriu e me mandou relaxar mais uma vez. 
- Você sabe que o salário é bom, deixa de frescura. 
De fato, o salário é excelente. Cinco mil por cena. 
- Ok, eu faço. Quantas cenas? 
Ele ficou vermelho. 
- Porra, Lara, tu acha que minha grana é capim? Uma cena e ponto. Tu fazia três cenas quando tinha site dos Estados Unidos pedindo pelo seu cu, aí sim tu mandava 15 mil meus. Agora é maré mansa. 
Vale ressaltar que quando o diretor fica puto, xinga feito uma piranha. Ele mesmo é o presidente, diretor, tesoureiro, enfim, tudo da produtora. 
- Vai por mim - continuou ele -, a Pussy Entertainment ainda vai dar certo. Já deu, mas perdemos atrizes boas. 
O diretor fez uma pausa, me olhou e continuou. 
- Eu agradeço de coração por você ter continuado comigo, Lara. Desculpa se eu me estresso às vezes, mas é porque eu realmente não quero te perder. Cinco mil é muita grana, atualmente só vendemos filme para sex shop e temos o apoio de um site americano que eu nunca tinha ouvido falar. Mas os caras colocam oitenta mil por mês, dá pro gasto. 
Cinco mil não é nada, diretor! Fiquei quietinha, na minha. Agradeci a oportunidade e fui para casa. No banho, com a porta aberta e olhando para o espelho, contemplei meu corpo. Será que eu merecia mesmo ser atriz pornô? Peitos médios, um pneuzinho leve, apertadinha, uma máquina de dar prazer aos atores. O diretor ficava puto com isso. Pagava o Viagra dos atores, mas não me dispensava, o que teria sido bem mais econômico na atual conjuntura capitalista. Sim, eu sei economia. 
Voltei no dia seguinte às duas da tarde. 
- Ah, Lara! 
Sorri amarelo para o diretor. O Tião Sucuri estava atrás dele vestindo o roupão preto da produção. 
O diretor caminhou pelo cenário - uma cama vermelha e uns espelhos simulando um quarto de hotel - e mandou eu me aprontar. Quando voltei, ele disse: 
- Tião, vem cá. Ok, agora, vocês dois. O cameraman faltou, aquele filho da puta. Desgraçado do caralho, vai ver só. 
- Diretor... - falei. 
- Ah, sim, desculpem. Enfim, vocês vão deitar na cama como um casal chegando no motel. Lara, você paga um boquete pra ele; ele te chupa, vocês fodem. Simples, não?
Já estávamos na cama quando o diretor cortou. 
- Só pra avisar: Lara, querida, você vai ter que dar o cu. 
Tirei o Tião Sucuri de cima de mim e dei um pulo. Contornei a cama e vesti o roupão. 
- Mas o que é isso, porra? Ficou maluca, Lara? 
- Foi mal, diretor, mas o cu eu não dou nem fodendo. 
- Porra, Lara, qual o problema? 
Eu não curto dar o rabo, é isso aí. Não sei como ainda duro nessa indústria. Porra. Já esfolam minha xota e ainda querem meter no meu rabo? Não fode. Ok, fode, mas não lá atrás, por favor. 
O diretor tentou por vinte minutos me convencer. Lara, Larinha, Larona, Deusa, você tem que dar o cu, só o cu. Eu aumento o cachê. Não rola. Eu já estava colocando a calcinha quando ele sorriu para o Tião Sucuri. 
- Mudança de planos, Tião. Agarra ela e mete vara nesse rabo. 
Fodeu. 
O Tião veio por trás e me agarrou. Senti ele entrando, não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser chorar. Quando ele se acalmou e tava quase gozando, e aí nós já estávamos na cama, eu dei um soco no saco dele. Apanhei um abajur que servia de iluminação e quebrei a lâmpada na cabeça dele. Toma, filho da puta, falei. 
- Você está maluca, Lara! - disse o diretor enquanto olhava o Tião desmaiado na cama. 
Sorri e parti para cima daquele gordo nojento. O estúdio era tão ruim que tinha umas vigas pontudas de madeira jogadas no chão. Vamos reformular isso aqui, dizia o diretor. Porra nenhuma. Apanhei uma das vigas e acertei o peito dele. Cambaleando, o filho da puta ainda tentou me acertar. Desviei e dei uma porrada na cabeça dele. Ninguém me estupra, porra, ninguém. Continuei a bater na cabeça dele até sentir que estava morto. 
- Caralho, Lara, que porra é essa? 
Olhei para trás. O Tião Sucuri se mexia na cama, quase levantando e me atacando, agora com um soco. Merda. Acertei a viga no rosto dele. Toma, filho da puta nojento! Acertei o saco dele duas vezes até que caísse no chão. Dei mais uma paulada na cabeça e observei o sangue escorrendo. Não daria dez segundos e ele morreria. Vai pro Inferno, seu merda. 
Fiquei contemplando os corpos. Agora tinha os dois só para mim. Primeiro, montei o diretor. Cavalguei ele até cansar. Em seguida, peguei outra viga e afundei cinco vezes naquela cara. O Tião ainda estava vivo. Desacordado, porém vivo. Mesmo mole, aquele membro servia. Bati com a tora várias vezes até o imbecil parar de urrar, sem força alguma. Repeti as estocadas na cabeça dele. Sangue. Subitamente, um remorso tomou conta de mim. Lágrimas rolavam e eu já não sabia mais o que fazer. Tinha dois corpos e nenhuma ideia de como ocultá-los. Merda. Fui até a cozinha do estúdio e apanhei uma faca e quatro sacos pretos de lixo. Cortei os corpos e joguei dentro dos sacos. Em seguida, chorando muito, sentei na cama e observei a mancha de suor que a cena tinha produzido. Parecia um coração. Emocionante. Olhei a lâmina e tive certeza. Foram dois golpes secos nos pulsos que me derrubaram para sempre. 
- Você está bem? - pergunta o médico. Uniforme branco, bonitinho. 
Grunho e tento mexer a cabeça em afirmação, sem sucesso. 
- Você consegue me ouvir; compreender o que falo? 
Grunho e mexo a cabeça em afirmação. Sucesso. 
- Ok, você perdeu muito sangue, suas funções estão severamente comprometidas. 
Em outras palavras, estou condenada à cadeira de rodas. O médico se despede, eu giro a cabeça e olho para o lado. Um aparelho com tela de LCD monitora minha oxigenação, meus batimentos, minha pressão. Eu ainda pulso, ainda respiro e ainda tenho oxigênio no sangue. 

Mas quem foi que disse que precisa-se morrer para perder a vida? 

A puta com a rosa na carteira

 
  Aos mais púdicos, minhas desculpas pelas palavras desse texto. 
 
Eu estava no motel com a Sandrinha, metendo vara na bunda dela, quando o celular tocou. 
- Vai atender agora? - perguntou ela, gemendo entre uma palavra e outra. 
Tirei meu membro daquela bunda arrebitada e estiquei o braço até a mesinha do lado da cama. 
- Alô? 
- 38. Cama. 
Ouvi o clique após o filho da puta do Lucio desligar na minha cara. Viadinho. 
Pow pow pow pow pow pow. 


Caminhar pelo calçadão nunca foi dos meus esportes prediletos. Sempre preferi ficar dentro de casa, deitado na cama fudendo alguém. Quando isso não acontecia, colocava em prática os meus aprendizados e descia chumbo nas vítimas dos contratantes. 
Matador de aluguel é uma expressão babaca perante a grandiosidade do meu serviço. As pessoas costumam retratar nossa classe como babacas sem escrúpulos e sentimentos, gente sem coração. Não é verdade. 
Olho pro lado e vejo minha esposa, ela está deitada na cama comigo. Alicinha tem trinta anos, é bem querida na sociedade - assim como eu - e sequer desconfia das minhas atividades paralelas. É levemente loira, seus peitos são duas circunferências perfeitas e não-siliconadas, uma maravilha anatômica na atual conjuntura social. O sexo é bom. Alicinha fode bem, creio que um completa o outro na mistura de suor. Nosso filho, Eduardo, estuda em Londres, volta ano que vem. Viro para o lado e dou um beijo na minha esposa, aproveito a deixa e enfio a mão por debaixo da calcinha dela. Água. Dois segundos depois começa a brincadeira.
A primeira vez que eu matei alguém foi há dois anos, quando um cara tentou me assaltar. Roubei a faca dele e soquei seu estômago até que o ácido escorresse junto com o sangue. Soberbo. Me observando atrás das sombras de um edifício, surgiu o Lucio.
O Lucio era um policial corrupto de mais ou menos trinta anos de idade. Gordinho, com uma voz pachorrenta, lembrava muito o Feola, era também hábil estrategista. Sua especialidade era a estratégia de sobrevivência. Morou no morro a vida toda, desceu graças à polícia. Agora ele mora em Copa. Cara esperto. Viadinho, babaca, porém esperto. 
 O que aconteceu no motel foi o melhor e mais perigoso caso em que eu já me meti. Foi o fim de uma história que só terminou na rua. 

1 de Junho de 2011. 

O sol batia forte na cabeça dos competidores. As toucas se misturavam conforme os olhos das pessoas nas arquibancadas acompanhavam a corrida. A água batia nas bordas da piscina e João Sette mantinha a cabeça focada no competidor número 10. Seu filho. 
André Sette era o que a sociedade chamava de prodígio. Algum dia seria o melhor empresário e estrategista do país, um consenso que até os gigantes da Bolsa admitiam. O garoto nadou até a borda e girou rapidamente, levando consigo um jato d'água com a potência de um soco. Dezessete anos. 
João Sette não percebeu quando o projétil cortou a água, transpassou o cloro e acertou em cheio seu filho. Seu corpo ficou paralisado durante dez longos segundos, o tempo de uma lágrima curta e seca despejar um turbilhão de sentimentos. 
A perícia concluiu no levantamento primário que o tiro fora dado das arquibancadas. Dois homens de branco analisavam o corpo e a angulação, medida a partir de uma fina linha esticada desde um dos bancos da arquibancada até o fundo d'água, onde era presa a um peso de chumbo. 
- Olha - disse um policial que acompanhava a cena -, o assassino ainda deve estar no clube. As saídas foram fechadas, ninguém entra e ninguém sai. Dá uma olhada no perímetro. 
João Sette não se manifestou. Passou a mão sobre a cabeça do filho e desviou o olhar. Saiu sem falar com ninguém. 
O vestiário era uma sala branca bastante ampla. Quando entrou não havia ninguém, apenas ele e o barulho fumacento do chuveiro. O vapor subia alto, produzindo uma atmosfera altamente viciante. 
Se postou à frente do armarinho onde os atletas guardavam seus pertences. Tirou uma pequena maleta de ferro onde estava escrito André Sette. A 38 era envolta por um plástico negro, o silenciador apoiava-se sobre a arma. Quando ouviu os primeiros passos se aproximando, entrou dentro do chuveiro e calou-se. 
Observou atento à figura de João Sette. Executivo, bem-querido na sociedade. Admirava também a mulher dele, Alice Sette, ou Alicinha para os íntimos. A noite de núpcias fora a melhor de sua vida. Pensava na buceta dela balançando contra seu pau, pensava na beleza daquele corpo. Tudo roubado pelo João. João filho da puta. 
Saiu de trás da cortina de fumaça e apontou a 38, com silenciador e tudo, contra o corpo imóvel de seu algoz. 
- Muito bom revê-lo - disse ele. 
João Sette falou: 
- Foi você? - duas lágrimas molhadas escorreram. 
- E se foi? O que você vai fazer? Me matar? 
Enquanto falava, ele abaixava o queixo, apontando para a arma. Ninguém seria louco de confrontá-lo. 
- Você - continuou - roubou minha mulher. Você destruiu a minha vida. 
- Ela te trocou, você sabe muito bem disso. 
- E seu filho te trocou pelo Além. Babaca. 
João Sette ensaiou um avanço furioso, mas a bala foi mais rápida. Caiu sangrando no chão branco. Bela cena poética. 
- Eu vou te achar, Munhoz! Eu vou te achar! - bradou. 
O homem da 38 sorriu com seus dentes amarelos. 
- Eu sei que vai. 


4 de Junho de 2011. 

O enterro de André Sette fora acompanhado por pelo menos três representantes de cada família da elite carioca. Comoção geral. João Sette saiu do enterro às lágrimas, amparado pela esposa e pela ex-mulher, mãe do filho assassinado. Rogéria e Alicinha travavam uma batalha particular. Não que a primeira ainda fosse apaixonada pelo ex-marido, mas não gostava de vê-lo com uma mulher mais nova e gostosa do que ela. Sentia uma leve raiva, rapidamente dispersada no enterro. 
Mesmo urrando de dor, naquela tarde no clube, João conseguiu disfarçar a bala na perna. Queria transformar aquela caçada em algo particular, longe dos holofotes da polícia. Mentiu para o guarda que havia caído. Foi levado para o hospital e cedeu uma grana para o médico nao mencionar a bala. 
- O que você vai fazer a respeito? - perguntou Alicinha, pouco antes deles dormirem. 
João respondeu pensativo: 
- Não sei ao certo, só sei que vou destruir esse corno. Ouve o que estou te dizendo, meu amor.
- Mas você tem que esperar primeiro a polícia pegar o cara... 
Ele balançou a cabeça positivamente. Só ele e Lucio sabiam a identidade do assassino. O homem a ser morto, o algoz, o nêmesis. O filho de uma puta. 
João Sette virou para o lado e dormiu. Só foi acordar de madrugada, quando Lucio telefonou. 

5 de Junho de 2011. 

- Que foi, porra? - balbuciou João ao atender o telefone. 
- Descobri uma pista quente sobre o paradeiro do cara. 
Ele estava de frente para a janela, observando a lua. A noite nunca esteve mais bonita. 
João falou: 
- Ok, dá o papo. 
- Quem sabe é a Sandrinha, uma puta lá da Vila Mimosa - disse Lucio. 
- Porra, Lucio, e eu lá tenho cara de quem vai até a Vila Mimosa, caralho? 
- Estamos falando do assassino do seu filho. 
João respirou e reconsiderou. Valia a pena. 
Encontraram-se meia-hora depois na calçada da Vila. Imersos naquela lugubridade insana e publicamente escancarada, procuraram pela Sandrinha durante vinte minutos. 
Sandrinha era uma puta das mais famosas - e bonitas. Cobrava cento e cinquenta reais pelo programa, um roubo, considerando-se os padrões do lugar. Não dava para qualquer um, selecionava a dedo os clientes. 
- Hum, você é bonitinho... - disse ela, alisando a gravata vermelha de João. 
Lucio pediu licença e deixou os dois a sós na calçada. Ao fundo, uma batida compassada e uma letra altamente erótica projetavam-se para os ouvidos das pessoas ali presentes. 
João Sette, ansioso por respostas, disse: 
- Cadê o cara? 
- Que cara? - respondeu Sandrinha. 
- O Munhoz. 
- Ah, o Munhoz? Eu ando meio esquecida hoje, sabe? 
Ela mordeu o dedo indicador enquanto sorria maliciosamente. 
João entregou-lhe uma nota de cinquenta reais. 
A prostituta abriu o bico: 
- Motel Chin, avenida Brasil. 
- Quarto? 
- 102. Eu te levo lá se quiser. 
- Eu vou sozinho. 
Sandrinha puxou a mão dele e cravou-a entre seus peitos. João aceitou. 

O motel Chin era mais um motelzinho barato, cujos preços não incluíam roupa de cama e nem ar-condicionado. 
João Sette pagou por ambos e subiu com Sandrinha para o quarto. Começaram a foder em cinco minutos - ela seduzida pelo dinheiro dele, e ele querendo que Munhoz aparecesse. 
- Anal é mais caro - disse ela quando o pênis do homem começou a brincar com aquele bumbum de fazer inveja a qualquer Sargentelli da vida. 
- Eu pago. 
Seguiu-se uma orgia a dois, onde o empresário alternava as estocadas entre o pedaço abaixo do monte de Vênus depilado dela e a porção pós-esfincter, tão apertada quanto a boca de uma garrafa d'água. 
Lucio telefonou no meio da brincadeira. João interrompeu a foda e atendeu. Com um gesto rápido, tirou um 38 que havia colocado ao lado da cama e disparou cinco vezes contra o corpo da prostituta. O sangue se misturou aos restos amarelados de silicone que se espatifaram na parede bege e suja do quarto 102. 
João Sette se vestiu e guardou o 38 no vão entre a cueca e a cintura. Inspecionou o cadáver de Sandrinha e pegou sua bolsa. Retirou a identidade e a chave da casa dela, além do dinheiro que havia gasto no programa e o celular. Os demais documentos e uma pétala de rosa foram deixados dentro da carteira. O cheiro era insuportável. O ar-condicionado fazia questão de jogar todos os cheiros possíveis para o ambiente. 
João Sette tirou a chave da porta e trancou o quarto. Ainda teve tempo de cruzar com um funcionário do motel antes de ganhar a rua. 

Conclusão. 

Saí do motel Chin com a arma na mão. No estacionamento escuro, iluminado apenas por duas lâmpadas, encontrei Lucio caído no chão com um tiro na base do crânio. Seu sangue de guerreiro havia se espalhado por toda a risca amarela que demarcava as vagas. Avistei dois ou três funcionários batendo em disparada, assustados com os eventos anteriores. 
Munhoz apareceu em seguida, mas daquela vez eu estava preparado. Apontei o 38 na cara dele, enquanto sua arma mirava meu peito. 
- Foi uma pena ter matado o Lucio - disse ele. - O cara sabia encontrar as pessoas. 
Não disse nada, fiquei marcando meu território com o olhar. 
- Como você entrou para essa vida de merda, hein, João? 
Ele fez uma pausa e continuou: 
- Ser matador de aluguel não muda nada, só tira o seu sentimento, seu babaca. Tu foi mega otário, perdeu o filho, o parceiro e vai perder a mulher. Além da vida, lógico. 
Fiquei puto, pensei em atirar, mas me contive. 
Eu falei: 
- Se você encostar um dedo na Alicinha eu te mato, seu puto! 
- Então mata, porque ela já é minha, playboy. 
Surgindo das sombras, no mesmo esquema do vestiário, Alicinha apontava uma arma curta para mim. Traído por todos, pensei. 
O tiroteio não demorou muito. Com um golpe rápido, atirei contra o peito do Munhoz. Tomei um pipoco no braço. No meio da confusão, Alicinha estava decepcionada com as balas de festim. Ela foi até o Munhoz e chutou a cara dele. Fiquei admirando. 
Depois que os ânimos se acalmaram, ela veio correndo para mim. 
- Desculpa, meu amor, desculpa. Ele me iludiu, eu não sabia de nada, eu juro! 
Sorri para ela. 

Conclusão número dois. 

Acabei de foder a Alicinha. Comi a xota e o cu, mas ainda prefiro o rabo da Sandrinha. Sei lá, puta tem mais experiência. A cachorra gemeu pra caralho, consegui fazer ela gozar. 
- Seu safado... - diz ela, mordiscando os lábios vermelhos e passando os dedos pelo bico do peito. 
Caminho até a cozinha e volto, mantenho as mãos atrás das costas. 
- Pegou o sorvete? - pergunta ela, abrindo a perna e apontando para o vão entre suas coxas. Nua. Perfeita. Gostosa. 
- Peguei - respondo. 

Pow pow pow pow pow. 

Novidades no front

 

A todas as vítimas do Holocausto. 
A Lewis Milestone, diretor de All Quiet In The Western Front, Oscar de 1930 

O professor LaGualle certa vez me ensinou que os corpos devem estar sempre em paralelo, nunca um sobre o outro. Mais que um sinal de respeito que demonstra a individualidade nítida em cada ser, essa técnica facilita o meu trabalho. Isso antes do coronel Schoelm aparecer, digo. 
- Hans! - grita ele. Coloca a mão na cintura e olho para aquele ser parado à minha frente. Ele diz: - Você deve jogar os corpos uns sobre os outros, seu animal! Nenhum deles será reconhecido após a queima. 
- Se você diz... - respondo com certa ironia. O coronel Schoelm resmunga qualquer coisa e vai embora. 
O sol está forte demais para minha cabeça, coberta por alguns fios bastante ralos, e tento me desconcentrar da visão pavorosa do campo. O cheiro dos corpos brancos e cortados penetra meu nariz desconcertantemente, aumentando o asco que sinto daquele amontoado de cadáveres. Busco terminar meu trabalho o mais depressa possível, de modo que possa ver minha mulher ao cair da noite. Auxiliado por uma pá de aço, pego um corpo fedendo a gás e jogo-o dentro do caminhão. Repito o procedimento mais duas vezes. Paro e relaxo os músculos, que, sinto eu, vão se atrofiando lentamente. Nenhum sinal do coronel Schoelm, a bruxa má do nosso campo. Ao final do dia, são mais de quarenta cadáveres atirados por mim no caminhão. É isso ou a minha morte. 
Bum! Bum! Bum! 
Três vibrações no chão foram suficientes para saber que um ataque estava sendo levado a cabo. Coberto por uma mistura de terra e sangue - incluindo o meu -, sou arremessado contra o chão viscoso do semi-pântano formado após as chuvas de anteontem. Me acomodo com dificuldade ao lado do capô do caminhão, destruído por completo após a onda de choque varrer os ares. Faço uma estimativa rápida do número de guardas mortos dentro do campo. Contabilizo cinquenta. Olho para os dois lados e observo o coronel Schoelm me encarando, a face coberta de sangue sujo de culpa e desonestidade. Maldito rato branco. Espero quinze minutos e me arrasto até ele, meu ombro dói. No pequeno caminho, encontro um oficial da SS caído no chão. Ainda respira inconsciente. Sua arma está jogada a trinta centímetros do seu braço magro e encardido. Helmut, conheço esse puto. Confiro se a arma está carregada e aponto, enfiando-a por debaixo do lamaçal, contra a cabeça do coronel Schoelm. Ele pensa que eu vou ajudá-lo. Sorrio e disparo. no meio da correria ele é só mais um morto; para a posterioridade, é um sem coração que tirou a vida de quinze mil judeus. Atiro novamente. 
Conforme o tempo passa, você percebe que no meio da guerra sua alma não vale mais que uma formiga. Melhor dizendo, seu corpo não vale nada. Passei duas noites e três tardes coberto por uma nuvem espessa  que se formou após o bombardeio. Ao meu lado, corpos em degradação - ao final do terceiro dia os músculos do coronel Schoelm já eram visíveis. Um tapa na cara do Führer. Judeus e alemães amontoados nos caminhões ao final do quinto dia de de sobrevivência. Assisto à operação bastante cansado, sentado numa tenda montada pelo capitão Hastings, do exército inglês. Aos poucos, o céu começa a clarear. 
- We'll win! - diz ele. 
Sorrio e masco violentamente minha bisnaga. Uma formiga percorre minha perna, e ao invés de matá-la, valorizo seu pedaço ínfimo de carne. Um minuto depois ela pula para o chão. Giro o pescoço e vejo o corpo do coronel Schoelm ser colocado no topo de uma pilha composta de uns quinze cadáveres. Um rapaz vestido de branco despeja gasolina sobre o grupo uniformizado. Todos são membros do exército alemão. Eu sou o único judeu que sobreviveu. Garantir a confiança do coronel Schoelm, devo admitir, não foi tarefa das mais fáceis, mas eu consegui. O fogo queima de baixo para cima, finalmente chega ao topo. Observo o rosto do coronel se desfazer em meio à brasa turva. Só eu sei quem ele é.

 

O caso do corpo na cachoeira

 

Sebastião largou a pá no meio do asfalto e pousou a mão sobre a cintura. Deixou o suor escorrer pelo rosto cinzento e sentiu a brisa das árvores congelarem o semblante. Permaneceu daquele jeito por alguns minutos. Olhou para os dois postes que iluminavam muito mal a estradinha. Só ouvia o barulho dos pássaros voando sobre sua cabeça. Suspirou forte.
Caminhou pela terra até chegar à margem do laguinho resultante da queda d'água mais adiante. Escuridão quase completa. Retirou as luvas e jogou-as no chão. Abaixou com dificuldade até que seus dedos suados tocassem a superfície da água. Não levantou mais.  


A viatura subiu até o topo da estrada asfaltada com a sirene ligada. A revoada dos pássaros assustados com o ruído anormal era evidente. Os pneus cantaram quando o motorista freou. Da porta do carona desceu um homem de aparência sisuda, rosto levemente comprido e olhos negros. 
- Onde está o corpo? - perguntou o homem ao policial que ficara dentro da viatura. 
- Caminha por essa faixa aí. Você vai encontrar o pessoal - disse o policial, apontando para uma pequena clareira na mata. 
O homem agradeceu e seguiu o caminho indicado. 
- Ah, Bennett! 
Ele olhou. Arthur. Perito. Porre. 
- Grande Arthur - disse Bennett. - Tudo bom, rapaz? 
O perito sorriu com satisfação. 
- Tudo ótimo. Virou detetive, hein. Não nos vemos desde aquele porre no Baixo Gávea, né? 
Bennett sorriu. 
- Onde está o corpo? - perguntou ele. 
- Ainda não mexi, esperei você chegar - respondeu Arthur. - Está ali, no meio do lago. 
O detetive agradeceu. 
Parado na beira do espelho d'água, Bennett suspendeu as calças e tirou o tênis e a meia. Arregaçou as mangas da camisa social e entrou na água gelada, caminhando devagar até o corpo. 
Após dar uma olhada, ele se virou para Arthur e disse: 
- Homem, branco. Deve ter uns cinquenta anos. Nordestino. 
Bennett saiu da água e se enxugou com uma toalha oferecida pelo policial que atendera ao chamado. O perito repetiu o mesmo processo que o detetive e entrou na água munido de uma pequena prancheta. Olhando para Bennett com sua pele enrugada, ele falou:
- Como você sabe que é nordestino? 
- O cara tá usando o uniforme da prefeitura. Devia fazer a pavimentação daquele trecho ali em cima - respondeu o detetive, enxugando o rosto com a toalha. - Cariocas são garis, nordestinos pavimentam as ruas. 
- Você é muito preconceituoso - retrucou Arthur. 
O mundo é preconceituoso, meu caro. Guarde isso. Descobriu mais alguma coisa? 
A cada fala de ambos o tom de voz subia e causava mais uma revoada dos pássaros. 
- Levou uma pancada na cabeça. Um tiro seria muito barulhento, mesmo com silenciador - respondeu Arthur. - Provavelmente o assassino usou uma pedra.
- Ele não pode ter sido atingido durante um banho de cachoeira?- perguntou Bennett. 
- Impossível. As pedras não rolam desse ângulo, e tampouco havia clima para elas rolarem. Provavelmente ele foi assassinado premeditadamente. 
Seguiu-se uma pausa e o perito voltou a trabalhar no cadáver. Bennett virou-se para o policial: 
- Quem achou o corpo? - àquela altura ele já estava completamente vestido.  
- Um corredor. Recebi o chamado há umas duas horas atrás. 
- E cadê esse cara?
- Está esperando na delegacia. Achei melhor não soltar. 
Bennett sorriu e disse: 
Você achou melhor não soltá-lo? 
- Bem, o delegado Funchal, mas... 
- Da próxima vez - Bennett olhou o nome do policial -, Almeida, você fale corretamente. 
O homem sacudiu a cabeça e olhou para cima. Bennett, por sua vez, se despediu do perito e pediu que ele lhe telefonasse assim que descobrisse algo sobre a vítima.

Rogério Scaravan não fazia o tipo advogado. Baixo, levemente atlético e pele bem lisa. Bennett encarou aquele sujeito por um ou dois minutos antes de se aproximar. 
- Bom dia - disse ele com uma pasta nas mãos -, eu sou o detetive Bennett, encarregado do seu caso. O senhor é advogado, certo? 
- Correto. Olha, eu... 
- Deixa que eu conduzo isso aqui. 
- Mas... 
- Cala a boca e só responde às minhas perguntas. Que horas você viu o corpo? 
- Sete e meia. 
- Você corre todos os dias no Horto? 
- Sim. Desde o ano passado, quando descobri que tenho hipertensão. 
Bennett olhou desconfiado. O homem não deveria ter quarenta anos de idade. 
- Hipertensão? Você? 
- É. Minha família tem histórico, aí já viu.
 - Ok, que seja. Já tinha visto esse homem antes? 
Rogério Scaravan permaneceu pensativo por um minuto, mais ou menos. Então disse: 
- Acho que uma vez só. Eu sei que ele fazia a pavimentação do asfalto, mas nunca tinha reparado muito bem. Não é o tipo de coisa que você pára e olha. 
- Comparável a um mendigo, então - retrucou Bennett. 
- Talvez. 
Bennett grunhiu e fez mais uma ou duas perguntas. 
Assim que dispensou o advogado, ele entrou na sala do delegado Funchal. O ato de abrir a porta provocou um estrondo que ecoou por toda a delegacia. 
Funchal, apavorado com as circunstâncias, disse: 
- Ah, secretário, detetive Bennett, um de nossos melhores homens. 
Sentado em frente ao delegado, um senhor de têmporas brancas girou o pescoço na direção do detetive. O delegado prosseguiu: 
- Bennett, acredito que você já tenha ouvido falar do secretário de segurança pública, doutor Carlos Paiva. 
Ignorando a hierarquia, ele respondeu: 
- Já tive o desprazer - olhou para o secretário. - O senhor é tão desprezível quanto a gravidade em um exercício de Física. Mais um corrupto cínico e ladrão na corporação. Isso é uma vergonha. 
Antes que Carlos Paiva respondesse com uma medida drástica, Funchal disse: 
- Desculpe-me pelos modos do meu subordinado, secretário. O Bennett é um dos nossos melhores homens, certamente anda muito estressado - ele completou com um olhar gelado. - Você deseja alguma coisa, detetive? 
- Uma puta, uma cerveja e os arquivos do cara encontrado na cachoeira do Horto agora. Como eu sei que você não vai levantar essa bunda gorda da cadeira, me contento com os arquivos. 
Funchal sorriu para o secretário. 
- Detetive Bennett, o senhor tem ciência dos delitos que cometeu nestes dois minutos no recinto? - indagou Carlos Paiva, sério.
- O senhor tem ciência dos delitos que comete desde que entrou para esta corporação, secretário? - retrucou Bennett. 
O delegado havia levantado da cadeira para pegar os arquivos. Antes que um bate-boca generalizado se instalasse naquele cubículo, ele entregou duas pastas para Bennett, que saiu rapidamente. 
Bennett analisava os papeis em sua sala quando o celular tocou. 
- Alô, Bennett? É o Arthur. 
Arthur. Perito. Porre. Escrotinho de merda. 
- Grande Arthur. Conseguiu alguma coisa? 
- Achamos a arma do crime, estava escondida atrás de uma moita. Tem uma mancha considerável de sangue nela, mas nenhuma digital. 
- Entendo. 
- E você Alguma coisa? 
- Olha - disse Bennett -, consegui os arquivos do cara. Ex-presidiário, integrado ao programa de socialização. Botaram o cara para trabalhar pavimentando estradas. 
- Você acredita em retaliação? - perguntou Arthur. 
- Talvez. É a hipótese mais provável. Ele tem um filho, mas o moleque anda internado numa clínica de desentoxicação. Filho de pai viciado dá nisso. 
- Mas esses caras são pobres, não? 
- Claro. Uma tia ajudou o garoto. Eu vou dar uma passada lá. 

Clínica de Reabilitação Doutor Mendes era localizada em uma viela estreita da Tijuca. O céu começava a escurecer quando Bennett chegou ao local. Foi recepcionado por uma loirinha que disse ser psicóloga. 
- Agora está explicado por que eles saem felizes daqui... 
- Hã? - perguntou ela. 
- Nada, estava falando sozinho - disse Bennett. 
Alguns pingos de chuva começavam a limpar o chão. Enveredaram por um corredor até chegar a uma pequena sala com uma mesa no centro. Um rapaz negro e bastante magro estava sentado na ponta oeste. 
- Evite assuntos pesados - advertiu a enfermeira. - Estarei aqui caso você precise de alguma coisa. 
- Não se incomode, eu sei lidar com essa gente - respondeu o detetive. 
Ele deu duas batidas na porta de ferro e entrou na sala. Lucas observou-o sem mover uma pálpebra. A boca seca e roxa se misturava à pele, formando um forte contraste com o avental fino de tecido branco. 
- Boa tarde, Lucas. Eu sou o detetive Bennett. 
Nenhuma reação. O garoto não se mexia, parecia estar imerso num transe profundo. 
- Aconteceram algumas coisas com seu pai, preciso de algumas informações. 
- Hum... 
O som quase gutural que Lucas emitira não ajudara muito. Preciso investigar essa clínica depois, pensou Bennett. Ele disse: 
- Seu pai está metido em coisa braba, complicada. Eu preciso saber algumas coisas, ou ele pode morrer. 
Lucas encarou o detetive e murmurou: 
- Ele está morto, não está? 
O choque fora grande. Por aquela Bennett não esperava. 
- Como você sabe? - indagou. 
- Depois de três meses internado nesse lugar horrível, você aprende um pouco de psicologia. É um processo autodidata. 
Ficaram se olhando por um bom tempo. Os segundos pareciam ser horas. O garoto disse: 
- Mas o que você quer saber sobre meu pai? 
- Ele era ex-presidiário... 
- E mentiroso. 
- Como assim? 
- Eu nunca fui viciado em droga alguma. Ele me internou aqui porque saía com uma mulher e eu pressionava para saber quem ela era. 
- E conseguiu descobrir? - perguntou Bennett. 
- Não. Cheguei a ver os dois juntos, mas sou míope e não enxerguei ela direito. 
- Hum...Tirando isso, ele tinha alguma atitude suspeita? 
- Suspeita não é bem o termo, porque eu sabia muito bem das tramóias dele, mas sim, tinha. 
- O que ele fazia? 
- Vendia mercadoria apreendida pela polícia. Ou pelo menos parecia ter sido apreendida. Eram coisas bonitas. Relógios, celulares, aneis... 
- Ok, está de bom tamanho. 
Bennett se levantou depressa e deixou o garoto sozinho na sala fria. 

O Instituto Médico Legal estava fedendo mais naquele dia do que da última vez em que Bennett estivera lá. O cheiro de corpos e dejetos correndo pelas ruas era insuportável. Na recepção, algumas famílias choravam a morte de seus entes. Bennett não deu bola. Passou correndo por aquelas manifestações açucaradas e sentimentais e virou à direita em um corredor mal-iluminado. A temperatura caíra bastante durante a noite, e o ar pesado do IML contribuía para a mistura de sensações desgostosas. 
Ele cruzou uma sala e poucos metros depois estava na sala dos peritos. Um homem bem alto trabalhava um bisturi reluzente sobre um corpo pálido. 
- Arnaldo? 
O homem se virou para Bennett. Largou o bisturi, retirou as luvas azuis e cumprimentou-o. 
- Bennett, meu camarada, quanto tempo. O que te traz aqui? 
- Uma pergunta. 
Uma? - o perito sorriu sarcástico. 
- Só uma. Ok, na verdade duas. 
- Ah, bom. Se fosse só uma não seria o Bennett que eu conheço. 
Eles riram e o policial falou: 
- Onde ficam os pertences das vítimas? 
Arnaldo apontou para uma bancada cheia de saquinhos transparentes devidamente identificados com nome, identidade e CPF dos cadáveres. Bennett examinou-os e agradeceu. 
- Ei, você disse que tinha duas perguntas. 
Ele voltou até o homem alto e disse: 
- Onde está o Arthur? 
- Acabou de sair. Ia resolver coisas importantes. Por que? 
- Nada não. 
Nunca antes na História daquela sala uma pessoa passara tão rápido pela porta. 

O sedã vermelho corria pelo asfalto do Horto perseguido pela viatura. Acelerava mais e mais a cada segundo, cortando sinais vermelhos e enveredando por ruas esburacadas da paisagem do Rio de Janeiro. A ladeira do Horto, a mesma que desembocava na cachoeira, não possuía luz alguma. O mapa dos motoristas era formado conforme os farois relampejavam no asfalto selvagem. Após dois minutos de subida, a viatura parou. O homem saltou e prosseguiu caminhando por dez minutos. 
A clareira da cachoeira não era iluminada. Os passaros já não piavam mais, o único som audível vinha do impacto da cachoeira no lago. Subitamente, uma luz irradiou no local. Um homem de roupa laranja com letras pretas grafadas nas costas estava ajoelhado na borda do lago. Uma figura aproximou-se de um conjunto de pedras e retirou a mais pesada de todas. 
Bennett, marchando lentamente até a luz da clareira, tremendo de frio, tirou a arma do coldre e posicionou-se para atirar. Não poderia errar. Ajoelhou-se no chão e mirou a perna da figura. Atirou duas vezes, provocando um agito entre os habitantes da mata. Correu pela borda do asfalto até enxergar o corpo gemendo no chão. Mais adiante, jogado no lago, um homem de camisa laranja se escondia dos tiros. 
- Pode sair daí, está tudo bem - disse Bennett, apontando a arma para a figura. 
O homem saiu da água e correu até o asfalto, sumindo na escuridão. Bennett se aproximou da figura e chutou a lanterna para longe. 
- Eu soube que era você depois do que o Lucas me contou. Bastante engenhoso da sua parte, se aproveitar dos benefícios que tem. Digo, tinha, porque depois dessa vai ser mais difícil manter o emprego, certo? 
O cheiro do verde invadia suas narinas. Ele prosseguiu: 
- O ciúmes pode ser muito útil, mas também pode se transformar numa arma quase letal. Você forçou o pai dele a interná-lo na clínica para que vocês dois pudessem ser livres. Mas aí a rotina se desenvolveu e você percebeu que era o Lucas a pessoa especial; que depois de sair da cadeia o pai dele não poderia corrompê-lo mais. Não foi o pai quem mentia, era você que dizia que ele era drogado. E eu imagino. Conviver no meio de tantos remédios alguma hora te fez provar algum deles. E o viciado era você, não o Lucas. Bastante engenhoso, devo dizer. Quando soube que o pai dele havia sido libertado, correu contra o tempo para evitar o encontro dos dois. E conseguiu, meus parabéns. Mas o depoimento do garoto te sujou. 
Bennett fez uma pausa e, mantendo a arma apontada para a figura, apanhou a lantera. De uma só vez, o facho amarelo iluminou os cabelos louros da psicóloga da clínica. Toda a confirmação da teoria de Bennett virou realidade em segundos. 
- Você ia matar o outro rapaz, não ia? Você é doente... 
- Ele não merecia tomar o lugar do Antenor! Não merecia! - bradou ela. 
- Você ainda por cima amava ele? 
- Claro. Mas o Lucas era especial. Muito especial. Eu amo o Lucas. 
Ela chutou a perna do detetive e tentou tomar-lhe a arma. A luta foi brava, socos e chutes foram trocados. Ambos caíram n'água. Dois minutos e três tiros. 
Puf. Puf. Puf. 
Bennett olhou para o corpo com nojo. Guardou a arma no coldre e voltou ao asfalto. Seriam dez longos minutos de caminhada até a viatura. 

 

A morte da prostituta azul

 

  Bennett desceu da viatura um tanto contrariado. As gotas de chuva pingavam de modo irregular, bastante carregadas. A viagem até aquele casebre, cerca de 20 km, foi marcada principalmente pelo barulho sufocante das gotas no teto do carro. O detetive foi na frente, reclamando a todo momento com o guarda Oscar, eleito o motorista. Bennett olhou para o céu negro e denso, suspirou e pediu para que o policial conduzisse ele e o delegado Funchal até a cena do crime. 

- Odeio esses fodidos que resolvem matar gente quando chove. Odeio! - bradou ele. - Nego acha que minha paciência é casa da mãe Joana. 
- Você anda muito irritado, Bennett - retrucou o delegado, caminhando lentamente com as mãos no bolso. 
- É porque você não passa o que eu passo... 
- Que seria? 
- Aturar o seu chefe falando no seu ouvido você anda muito irritado, Bennett. 
O delegado não respondeu. Não valia a pena. Se limitou a desviar o olhar e marchar. 
Um minuto depois, irritado com o silêncio, ele disse: 
- Ok, que se dane. Você já veio aqui antes, não veio? - o delegado falou olhando para as paredes roxas, onde as costas de sofás vermelhos e a decoração brega se misturavam. 
- Trocentas vezes - respondeu Bennett. - Uma conhecida trabalha aqui. 
- Conhecida? - havia um sarcasmo perceptível na voz do delegado. 
- Olha aqui - o detetive se virou para Funchal -, eu não cultivo amizade com putas pelo mesmo motivo que você não cultiva amizade com flores. Você pode admirá-las, se sentir encantado, o caralho todo; mas amizade? Não, isso não existe. Negócios à parte. 
- Então por que você vem aqui? 
- Vinha. 
- Que seja... 
- Eu costumava aparecer pra pegar informações. E comer a Lucia, é obvio. 
- Lúcia? 
- Na verdade o nome é Maria Elisa, mas ela prefere ser chamada de Lúcia. 
- Bizarro... 
- O mundo é bizarro, meu caro. 
Oscar apareceu em seguida. Saiu detrás de uma porta alta e branca, cuja maçaneta era de um dourado fajuto. A porta se esgueirava pela parede e terminava quase no teto. 
- Está tudo pronto para vocês - disse ele. 
Bennett olhou para o delegado e foi na frente. 

O corpo estendido no chão não deixava dúvidas de ser um assassinato. Gotas de sangue vazavam pela testa e uma tira grossa de couro envolvia o pescoço da mulher. As pernas, bem torneadas para o padrão atual, estavam dispostas em forma de S, completamente despidas. No corpo, ela só tinha um biquíni mínusculo todo preto. 
O delegado se aproximou e falou com o legista, um negro forte que trabalhava junto ao corpo. Voltou alguns segundos depois e pediu a Bennett uma opinião. 
- Aí, eu vou virar a cabeça dela, pode? 
O legista fez um sinal positivo. 
- Puta que pariu! - bradou Bennett. 
- Que foi? - perguntou o delegado. 
- É a... É a... 
- Lúcia? 
- Sim. 
Ele não demonstrou o menor abatimento. 
- Quem foi o filho da puta que fez isso? - perguntou o delegado. 
- Se nós soubéssemos não teríamos vindo, você não acha? 
Mais uma vez, Funchal não respondeu. Disse ao legista para que o acompanhasse até a porta e aguardasse do lado de fora com o policial Oscar. 
- Pronto, estamos sozinhos - disse ele. - Olha, eu sei que é difícil pra você; perder informante não é uma coisa boa, ninguém gosta... 
- Não é isso - cortou Bennett. - Você não entende. Não, eu não tinha relacionamento com ela, mas, sabe, eu fodi ela muitas vezes. 
- Para de mentir. 
- Não estou mentindo. Você sabe quando eu minto. 
- Ok, eu sei. 
- Então pronto. 
- Curiosidade minha: qual o interesse nela? Digo, esse bordel é relativamente famoso, se é que eu posso dizer assim. 
- Primeiro: você falar em bordel famoso é hipocrisia, tu é um delegado. Segundo: ela tinha uma característica peculiar. 
- Não me diga que - - 
- Não, ela não tinha um pau. Ela tinha um detalhe interessante. 
- Qual, porra? 
Bennett deu um leve empurrão no delegado e se agachou ao lado do corpo. Suspendeu com a mão esquerda as costas do cadáver e abaixou a parte de baixo do biquíni. O que se revelou foi uma genitália incomum. Um pequeno agrupamento de pelos pubianos de coloração azul-escuro percorria todo o morrinho que ali se formava. Estupefato, Funchal se limitou a dizer que compreendia. 
- Vamos aos suspeitos? - perguntou Bennett. 

Sentados em uma sala localizada cinco metros corredor adentro, cinco figuras se espremiam em um sofá amarelo-claro. Os contrastes fortíssimos existentes entre as diversas tonalidades de cada ambiente do bordel deixavam o delegado e o detetive igualmente atordoados. Um terceiro guarda, de nome desconhecido, fazia a segurança dos suspeitos. 
Uma vez que o guarda estava dispensado de suas funções, Bennett ficou de frente para o sofá amarelo e disse: 
- Eu sou o detetive Bennett, e infelizmente trabalho para a polícia desse Estado. O cadáver naquele quarto costumava fazer programas comigo, de modo que eu estou extremamente interessado em saber quem assassinou Maria Elisa. 
Ele fez uma longa pausa e olhou para cada um. Sentado na ponta direita estava um rapaz jovem, não devia ter mais que vinte anos. Seus cabelos eram espetados e uma camisa vermelha bastante justa se comprimia em seus braços. 
- Ei, você, o viadinho sentado na ponta. Sua versão, faz favor. 
- Você me respeita, hein - disse o moço, com uma voz afeminada. - E meu nome é Adolfo. Pra você, Dolfinho. 
- Se ficar com essa boiolagem pra cima de mim vai pro zoológico ficar com os golfinhos. 
- Ai, credo... 
Funchal, bastante impaciente - e curioso -, ordenou que o rapaz falasse. 
- Ai, tudo bem. Eu sou primo dela - ele apontou para uma garota sentada ao seu lado -, e ela trabalha aqui. Assim que eu cheguei tava um rebuliço danado, aí eu entrei para ver o que era, né? Foi aí que eu soube que a Maria tinha morrido. 
- Você se dava bem com ela? - perguntou o delegado. 
- Eu sou amigo de todas elas, delegado. Eu trago almoço, lanche, cafezinho... 
O delegado chegou a ensaiar uma pergunta, mas Bennett o cortou. 
- Agora você, queridinha. Tira esse cabelinho vermelho escroto da cara e fala pro papai o que aconteceu. 
A garota não tinha mais que dezoito anos. Os cabelos vermelhos ligeiramente aguados desciam por sua testa enorme, parando nos ombros. Ela deu um sopro na porção esquerda dos fios e disse: 
- Meu nome é Isabele. Eu atendo com o meu nome verdadeiro. 
- Quantos anos você tem, Isabele? - perguntou Bennett. 
- Dezoito. 
- Não mente... 
- Ela tem dezoito sim! - gritou Adolfo. 
- Você cala a porra da boca. Ninguém te perguntou nada - ele olhou na direção da garota. - Então, me conta o que houve. 
- Eu saí do banho enrolada na toalha e fui falar com a Lúcia. Quando abri a porta ela estava com um negócio na cabeça... 
- Era um buraco de bala - disse o delegado. 
- Não, era um negócio mesmo. Tipo um galo. Acho que foi uma porrada que ela tomou, sei lá. 
Isabele puxou do bolso da pequena saia vermelha que usava um maço de cigarros. 
- Guarda isso - ordenou Bennett. 
- Não posso fumar? 
- Não enquanto estiver sendo interrogada. 
A prostituta olhou para a outra mulher e riu. 
- Que mais? - perguntou Bennett. 
- Então, como eu dizia, eu cheguei e vi ela com um negócio na cabeça. 
- Mas ela tomou um tiro, cacete. 
- Tiro? 
- Sim, tiro - disse Funchal. -  Você não viu a testa dela? 
- Olha, eu não sou maluca. Não teve porra de tiro nenhum. 
Os dois homens se olharam e esperaram algum tempo. Foi o delegado quem falou: 
- Será que ela tomou o tiro depois? Digo, bateram nela e depois mataram? 
- Pode ser - respondeu o detetive. 
- Mas ninguém aqui tem arma, seu delegado. 
Eles pensaram mais um pouco. Bennett mirou a outra mulher. 
- Seu nome. 
- Bruna. 
- Nunca te vi por aqui. 
- Mas eu já. Você aparece aqui de vez em quando, não é? 
- Pode ser. 
- Conheço o seu tipo. Fode e vai embora. Sabe, a Maria gostava muito de você. 
- Bom pra ela. 
Bruna se calou. Olhou para a filha, uma garotinha loura de olhos negros, sentada no seu colo, brincando com um chicote pesado de couro. 
- Quantos anos ela tem? - indagou o delegado. 
- Dois, faz três mês que vem. Linda, não? 
- Quem é o pai? - perguntou Bennett. 
- Sei lá, também não quero saber. Só sei que vou criá-la com muito carinho. 
- A senhora, só por curiosidade, acha justo deixar uma menina sem o pai? Hein? Acha? 
A mulher desabou. Começou a chorar compulsivamente, soluçando a cada dois segundos. 
- Eu não quero perder ela, doutor, eu não quero! Ela era tudo pra mim! 
- Ela está no seu colo, minha filha. 
- A Maria Elisa, delegado, a Maria! Ai, meu Deus, por que isso acontece só comigo? 
- Não estou entendendo. 
De fato, Bennett não entendia. Ninguém entendia. Ele resolveu arriscar. 
- Vocês eram muito próximas? 
- Demais - respondeu Adolfo, soltando um risinho metálico em seguida. 
Bennett olhou para ele de soslaio e voltou a Bruna. 
- Há quanto tempo vocês se conheciam? 
Ela enxugou as lágrimas e disse: 
- Ah, mais de dez anos. Ela é madrinha da Luisa - a prostituta olhou para a filha e completou: - Ela era muito querida, não sei quem gostaria de matá-la. 
Bennett respondeu que ele e Funchal já retornariam. Os dois saíram pela porta e bateram com força. 

No corredor mal iluminado, encostados na parede, eles conversavam, preocupados com o rumo das investigações. 
- O que você acha? - perguntou o delegado. 
- Está tudo muito mal iluminado. É um caso nebuloso. Veja bem, analise comigo: nós temos uma prostituta antiga na casa, certo? Ela é assassinada, mas existe um detalhe que complica tudo. 
- Qual? 
- A cabeça. Por que ela teria uma porrada na cabeça, tão forte a ponto de matá-la, e depois levaria um tiro? Não tem lógica. 
- Vai ver foi pro assassino se certificar. 
- Aí que está o negócio. Se certificar do que? Não tem o que se certificar. Ela não tinha inimigos, putas nunca tem inimigos, aprende isso. Eu não sei, é tudo muito complexo. 
- E se houver duas soluções? - Funchal olhava atento para o rosto de Bennett. 
- Como assim? 
- E se tiverem duas soluções? Digo, e se tivessem dois assassinos? Um primeiro vai lá, acha que matou. O segundo acha que ela ainda está viva e dá o tiro. 
- Talvez, mas... 
- Vale a pena arriscar, não acha? 
- Pode ser. 

- Ok, vamos lá - disse Bennett. - Ela estava sozinha? 
- Sim - respondeu Bruna. 
- Algum de vocês falou com ela antes da morte? 
- Eu - respondeu Isabele. Eu falei com ela rapidinho, coisa de cino minutos. 
- Sobre? 
- Olha, eu vou falar, mas não fui eu quem matou ela, eu juro! 
- Fala logo. 
- Ela tinha roubado um cliente meu. Essas coisas acontecem no nosso meio, é inevitável. Eu fui tirar satisfações e pronto. Mas eu não matei ela, juro por Deus. 
- É um fator que pende bastante contra você - pontuou Funchal. - Essas declarações sempre fodem o suspeito. 
- Ela está falando a verdade - disse Bennett. - Conheço o tipo. Jovem, gostosinha, pouco tempo de profissão. Mas eu percebo um medo na sua voz, garota. 
- Não tem medo nenhum. 
- Ora, é claro que tem - o detetive deu um risinho de escárnio. - Sempre tem um medo na jogada. De quem? Ou do que? 
- Não estou com medo, que saco! 
- Só está piorando... 
- Eu já disse que não estou com medo, caralho. Vai fazer o que, me bater? - ela ia ficando cada vez mais acuada no sofá, se espremendo contra Bruna e a criança. 
- Você tem medo dele, não é? - perguntou Bennett. 
- Dele? Do Adolfo? - ela riu histericamente. 
- Mas é lógico que tem. Você poderia se acuar nele, e não na Bruna. Você tem medo dele, e eu vou chutar que é porque ele não é seu primo porra nenhuma. 
- Você está maluco, rapaz - disse o jovem, mantendo a vozinha afeminada, o que irritava Bennett profundamente. 
- Podem parar com o joguinho. Funchal, chama o Oscar, vamos precisar de reforço aqui. 
Os três tentaram protestar, enquanto a garotinha ficava mordiscando seus dedos rechonchudos. Assim que o delegado saiu, o detetive falou: 
- Vocês três são uns mentirosos do caralho. Tu não é primo dela coisa nenhuma. Admite, porra. 
Assim que Bennett se aproximou para dar um tapa violento em sua cara, Adolfo chutou-lhe na altura do saco. Maquinalmente, puxou um pequeno revólver e apontou contra a cabeça de um atordoado detetive. 
- E daí? Vai fazer o que comigo? - o tom de voz mudara, adquirira uma característica masculina, pesada. - Sou eu que mando nessa porra, ouviu bem? Eu, porra. 
Adolfo voltou-se contra Isabele e puxou-a pelo braço. Envolvendo seu pescoço fino com o braço, arrancava-lhe lágrimas e súplicas. Bennett assistia a tudo sem saber o que fazer. O chute acertara em cheio seu saco escrotal, seus movimentos estavam momentaneamente limitados. 
- E ela vai morrer - continuou Adolfo - se eu não sair daqui vivo, ouviu bem? 
Ele deu dois tiros para o alto. Bennett rezou internamente, pedindo alguma ajuda dos céus. E a ajuda, coincidência ou não, chegou. Funchal entrou com Oscar atirando contra tudo e todos. O detetive deslizou a arma do coldre para a mão e atirou também. Adolfo, acuado na parede, mirou a cabeça de Isabele e disparou três vezes. Conforme o sangue se espalhava, a consciência também se esvaía. Ninguém sabia para onde atirava. Foi Oscar quem acertou uma bala no crânio do homem e encerrou os disparos. 

Do lado de fora do bordel, observando os corpos serem removidos pelo carro do IML, Bennett e Funchal procuravam se abrigar da chuva. O céu havia desanuviado, mas os pingos continuavam fortes e pesados. 
- E então? 
- E então o que? 
- O que você acha, Bennett? 
- Eu tenho uma teoria, mas, veja bem, são apenas suposições.
- Não tem problema, suas suposições sempre estão corretas. 
- Adolfo devia ser o cafetão daqui, certo? Provavelmente ele tem um caso com uma das duas e uma resolve ir cobrar. A outra descobre e começa uma briga generalizada. Alguém dá uma pancada na cabeça da Maria Elisa e ela cai no chão. 
- Quem? 
- Impossível determinar. 
- Mas e o tiro, porra? 
- Aí sim, eu consigo determinar. 
- Não foi nenhum dos três, isso eu posso te garantir. Considerando-se que Maria Elisa caiu no chão, o tiro, para acertar a testa, deveria partir do chão. Levando-se em conta, ainda, que todos estavam de pé, só resta a garota. 
- Que garota? 
- A filha da Bruna. 
- Você é maluco. 
- Pensa comigo, caralho. Tentando acalmar os ânimos, Adolfo puxa o revólver, sem intenção de atirar. As duas avançam nele e a arma cai no chão. Um dos dois golpeia em seguida a vítima e a garotinha, como toda criança, tem uma imediata curiosidade em ver como é a arma. Ela aperta o gatilho despretensiosamente e dispara, acertando a testa da Maria. 
- Eu vou perguntar só de sacanagem, ok? Como você chegou a essa conclusão? 
- Isso é ridículo. Quando a Bruna depôs, falou que não queria perder a amiga, aquele choro todo, uma boiolagem do cacete. Sendo assim, eu posso deduzir que ela não queria matar a amiga, que só deu uma porrada pra ela ficar quieta. E aí eu esclareço, também, quem golpeou ela. Faz sentido. Ela não se sentia culpada porque não foi culpada. A culpa não é dela, é da filha. 
- Inacreditável. 
- O nome disso é lógica. 
- Ainda assim, inacreditável. Como você consegue? 
- Conseguindo. 
Um homem vestido de branco desceu a maca onde estava Bruna. Durante o tiroteio, ela fora atingida no ombro, mas não corria risco de morte. A criança estava em outra maca, em estado de choque. Sua roupa estava coberta de sangue. 
Aos poucos, as nuvens se dissiparam e a temperatura aumentou. Ao final daquele dia tenebroso, o crepúsculo iluminou as últimas gotas visíveis de céu com um vermelho alaranjado. 
 

 

Senhor Mojo Raiando

 

Para Jim Douglas, por ser mais que um gênio. 

Saí do banho quando o relógio bateu cinco e vinte da tarde. Eu estava visivelmente irritado, não queria assunto com ninguém, ou pelo menos assim desejava. Puxei a toalha do suporte e me enxuguei. Admirei no espelho esfumaçado minha imagem distorcida. Drogas. Drogas me lembram Pamela. 
- Ei, te amo! 
Olho pro lado e vejo Pam parada na porta com a mão apoiada na parede do corredor. Ela exibe seu sorriso branco e só veste uma camisola. Paris nunca esteve tão quente, mas ela insiste em ficar assim só para me provocar. Combina. 
- Ok. Deixa só eu ficar um pouco sozinho e já falo contigo. 
Eu realmente precisava ficar sozinho. O estresse subiu um pouco à mente, mas Pam parecia não acreditar - e se o fazia, não demonstrava. Tinha todo um senso peculiar de me contradizer, mas sempre vou amá-la. O amor é sublime. 
- Que merda, você nunca está aí pra mim. Só fica cantando e se drogando e pensando nos seus indiozinhos. 
Abstraio as palavras de Pam. Ela fica falando sozinha na porta enquanto eu me admiro no espelho. Não gosto quando criticam os índios, eu gosto dos índios. Algumas pessoas me estranham quando saio vestindo uma calça de couro bastante colada ao corpo. Não ligo, não preciso da opinião delas. Eu já sou famoso, eu já fui preso, eu já tenho minha cota de celebridade. 
Fecho a porta na cara dela sem me importar com sua reação, preciso me preparar. Sairemos do apartamento dentro de duas horas e roubaremos o mercado da esquina. Iremos a pé. A polícia francesa nos chama de Os novos Bonnie and Clyde. Somos idolatrados, já vi gente sendo presa porque se passou pela gente. Na verdade, eu odeio Bonnie e Clyde, somos melhores que eles. Quase ninguém tem nossa audácia, e não creio que vamos morrer tão cedo, tampouco com uma rajada de balas, encurralados feito dois imbecis dentro de um carro. Se morrermos, que seja com estilo; mas procuro não pensar nisso por ora. Ajeito meus cabelos e saio para o corredor. 
- Até que enfim! - diz Pam, visivelmente mais calma. Ela cheira um pouco. Não ligo. - Onde vamos hoje? 
- Sei lá. Preciso de adrenalina. 
- Então vem cá - ela diz, olhando para o sofá. Não quero trepar, sexo não é adrenalina. 
Sacudo a cabeça em negação. Pamela concorda e me olha de cima a baixo. Estou vestindo uma calça marrom de couro e uma camisa negra de mangas compridas. Levo no bolso esquerdo da calça um par de luvas e o revólver. Minha namorada (apesar dela se apresentar com o meu sobrenome) me olha e diz que eu estou bonito. Damos uma rapidinha no sofá. It's showtime. 

Estamos no mercadinho da esquina. Observamos alguns preços, o rapaz que comanda o caixa eletrônico não está na sua devida posição. Acenamos com a cabeça. Toco Pamela, conforme ela pede. Sabe, temos esse ritual. Antes dos atos, um toca o outro em sinal de profunda comunhão espiritual, como pregavam os índios. Ainda sobre os rituais, eu sempre uso a mesma roupa, e assim faz minha parceira. Ela é mais moderna, veste uma roupa azul que encontramos num casebre à beira da estrada. Excitante. 
Quando o caixa enfim resolve aparecer, saco a arma. A essa altura já estamos devidamente encapuzados, mais ou menos como a Danica, uma prostituta que eu comi antes de conhecer a Pam num prostíbulo de New Orleans. O nome do lugar era poético: A casa do sol nascente. Sempre que passava por New Orleans eu ia lá. 
- Anda, passa a grana - brada ela. 
Minha mão segura o revólver com força, qualquer movimento em falso por parte do rapaz uma bala é atirada contra sua cabeça rotunda e gordurosa. Odeio franceses. 
O rapaz, segundo o crachá preso em seu peito ele se chama Cedric, me olha assustado. Me reconhece. Começo a ficar com medo, mas procuro não demonstrar. 
- Onde fica o cofre? - pergunto. 
- Ali. 
Seus dedos quadrados e deformados apontam para uma portinhola de ferro que está encostada. 
- Fica aí - ordeno a Pam. 
Surpresa. A porta tem um ferrolho em cima, não está encostada, está trancada. Mandar Cedric se locomover é muito arriscado. Olho para Pamela e ela me entende, como eu disse, estamos em comunhão espiritual: vou com tudo até o outro lado. Quebro a porta com força e vislumbro o cofre. Meus dedos suam e molham minhas luvas. Abaixo a arma. Abro o cofre e pego a grana. 
- Pronto. 
- E agora? - pergunta ela. 
- Segue a tradição - ordeno. 
Seguir a tradição, em nosso dialeto, significa Pam terminar o serviço. Ela é de Los Angeles, cresceu imersa naquela degradação toda, códigos irônicos e subjetivos. Adoro. 
Viro de costas para o balcão e cruzo a porta de vidro. Uma fina garoa começa a cair na rua, a tempestade aumenta gradativamente até estarmos juntos, abraçados, na Rue de sei lá o que. Somos dois viajantes sob uma tempestade de verão no meio do continente europeu. Mais romântico, impossível. Enquanto sou envolvido pelos braços firmes dela, sinto meu fogo acender levemente. Meu cérebro ordena uma reação biológica intensa e ela percebe. Dá um risinho. Não há uma alma viva sequer na rua, é perfeito. 
- Preciso beber - comento. 
- Eu também. 
Um mendigo, agora claro como a neve, nos observa ao longe. 
- Devemos? - sugiro. 
- Por que não? 
O velho fuma um cachimbo enquanto nos admira. Não queremos matar ele, seu corpo lotado de pecados não merece a morte. Os traços de seu rosto revelam que ele já fora desejado na juventude, mas isso não parece ficar muito evidente para Pam, que pede a ele o caminho mais próximo para um bar. 
- Anda, me mostre o caminho. 
- Mas eu não sei... 
- Anda, porra! 
Mando ela se acalmar e tiro uma nota de cinquenta dólares do bolso. Aperto a mão dele envolvendo a nota e lhe entrego. Observo seu sorriso e faço um gesto com a vista. Ele não vai agradecer, pois sabe que Pam não pode saber. Ela me mataria se soubesse que eu dei cinquenta dólares para um mendigo. 
Bebemos até cair e voltamos para o apartamento. No caminho pedimos fogo a uma mulher que passava; vimos um grupo de cinco jovens se picando. Heroína na veia. Vão morrer cedo, mas eu espero que o mesmo não aconteça comigo. 
Enquanto Pam desce para tomar um ar - ela sempre faz isso após os roubos -, eu ligo a torneira. Observo a banheira de mármore se encher lentamente. Tiro minha roupa e fico nu em frente ao espelho. Novamente meus cabelos cacheados. Novamente minha voz. Novamente eu. Sinto uma pequena dor no peito, mas não creio que vá aumentar. O vapor no banheiro cresce em progressão geométrica, com o tempo eu não enxergo mais nada. Guiado pela memória, abro o basculante e observo, já dentro da banheira, afundado na água, os restos de fumaça se esvaindo. Respiro. A dor no peito começa a aumentar, mas não luto. Algumas pontadas. Sensações diversas se misturam, sinto falta de Pam, do Almirante, dos rapazes. Quero fazer mais bagunça, ainda tenho muito a contribuir. Uma leve melodia assola meus ouvidos. Ela é pausada, mas produz um som bonito, agradável. Alguns diriam que é bastante confuso. Déja vu. A saudade e a dor aumentam mais ainda. Inclino a cabeça e respiro fundo. Firme. Forte. Estou suando. De tudo que ainda fica, o fim. Adeus, Pamela, linda amiga, o fim. 

 

Um, dois, afivele meus sapatos

 

À falta de cultura das massas. 

 
Repórter: Bom dia, falamos aqui com o diretor de teatro e escritor de livros policiais Amilton Bertaldo (câmera fecha na repórter) Boa tarde, Amilton. 
Amilton: Boa tarde. 
R: Fale sobre seu novo livro, Morte na Televisão 
A: (respira fundo) É uma trama policial bastante complexa, cheia de referências a novelas, séries, livros 
R: (cortando-o) Seu detetive é o Teófilo. De onde surgiu a ideia do nome? 
A: (indiferente)  As referências buscam fazer um paradoxo entre a alma e o ser. Um troço meio metafísico. 
R: (constrangida) Fale sobre o Teófilo, Amilton. 
A: (lacônico) Otoni? 
R: (embaraçada) Não, digo... Quem? 
A: Teófilo. Otoni, certo? 
R: Ér, sim. 
A: Não sei quem é esse. 
R: Seu detetive é ele! (repórter olha para a câmera como se pedisse auxílio) 
A: Meu detetive é o Almirante Teófilo.. 
R: Então fale sobre o Almirante... 
A: Tamandaré? 
R: Qual o seu jogo, Amilton? 
A: (sorrindo. Mistura de ironia com certeza) Ahá! Chegamos ao ponto crucial! 
R: Não estou entendendo. 
A: Vim aqui criticar o Sistema. 
R: Estamos no Rio, não em Brasília. 
A: Mas a catraca permanece igual em todos os lugares. Até no sertão, onde um fodido de merda é entrevistado e nem água ganha! 
R: O senhor está na televisão, diretor! Tenha modos (olha novamente para a câmera. Sacode a cabeça em desaprovação) 
A: Por isso mesmo. Estamos nos entendendo. Eu venho aqui falar sobre meu livro, logo exponho o que devo expor. Não concordo em seguir regras. 
R: (firme) Então por que resolveu participar? 
A: Todos nós, em algum momento da vida, temos que nos submeter às exigências da sociedade. Algum dia nos livraremos disso. 
R: (enfática) Já voltamos. 
Vinheta musical. Volta do intervalo 
R: Estamos aqui com o diretor teatral e escritor policial Amilton Bertaldo. Amilton, como é o seu livro? 
A: Na festa de uma grande emissora, um repórter é morto a tiros por uma apresentadora. Aí ela resolve 
R: (cortando-o novamente) O senhor entregou o final! 
A: É o início. É um livro complexo, eu já disse isso. 
R: Qual o nível de complexidade? 
A: É uma fusão, entende? 
R: Entre? 
A: O Caso Morel e Agatha Christie. Conhece? 
R: Só a mulher. 
A: Admiro sua sinceridade. 
R: Obrigada. Continuando... 
A: (se contorce na cadeira) Aí entra em cena o Almirante Teófilo, meu detetive. Ele é filho da faxineira. 
R: Da faxineira? (surpresa) Você curte uma crítica social, certo? 
A: Tudo é crítica. Quando você me pergunta se eu curto uma crítica social, está criticando eu criticar a sociedade, entende? 
R: (confusa) É, isso... (puxa uns papeis e lê para a câmera) Esse foi o diretor e escritor Amilton Bertaldo para o Jornal Cidadão. Agora você assiste à Correntes Paralelas, uma novela de Celso Talmado. 
A: (levanta e se põe na frente da câmera) Eu ainda não terminei. 
Ouve-se a voz do diretor ao fundo mandando o programa continuar. Zoom out. 
A: Essa sociedade está condenada à destruição! Não temos mais cultura, mais conhecimento! (vai ficando vermelho) Ninguém lê, ninguém vê! Somos contaminados por uma sonda que a mídia nos obriga a engolir! Ninguém sabe mais porra nenhuma! 
Câmera mais afastada. Repórter no sofá. Amilton caminha até sua poltrona e senta 
R: Fale sobre seu livro, mais um pouco sobre ele... 
A: Claro, com certeza. Temos uma preocupação; uma necessidade de expor as deficiências de cada ser. 
R: E como isso se dispõe no seu livro? 
A: Uma alta descrição das personagens, tipo P.D.James. Cada um tem uma limitação. A resolução dos casos se dá a partir de pequenos detalhes pessoais. 
R: Casos? 
A: Ah, sim, casos. Nós temos a solução de casos. 
R: No livro? 
A: No geral. Meu livro é uma resma de papel. Apenas engloba todo o contexto policial. 
R: Ah, sim. 
A: Agatha Christie provou melhor do que ninguém essa teoria. É humanamente impossível advinhar os criminosos. 
R: Há quem consiga. 
A: Você já leu algum livro dela: 
R: (enrubescida) Não. Já ouvi falar, mas não li. São fáceis? 
A: Em que contexto? 
Ruídos ao fundo. Diretor briga para deixar o programa no ar. Entrevista para. Câmera corta por um segundo e volta para Amilton. 
A: Especifique o contexto. 
R: Leitura. 
A: Todo livro é fácil. Basta você querer ler, é preciso dedicação acima de tudo! 
R: Qual você recomenda? 
A: O Caso dos Dez Negrinhos. 
R: Ela era racista? 
A: (leva a mão à testa) Não é possível... (aponta para a câmera) Diretor, dá um pulinho aqui! 
Zoom out. Diretor aparece. 
A: Diretor, como essa mulher é repórter? É uma imbecil! 
Diretor: Fátima é nossa melhor repórter. 
R: (levanta. Fala para o diretor) Nosso horário acabou! Zé, desliga a câmera! 
Diretor: Desliga não! Temos um surto de audiência, oitenta por cento dos televisores estão sintonizados em nós. Obrigado, Fátima, eu conduzo a partir daqui. 
O diretor senta na poltrona da repórter. Coloca os óculos. Tem a pele enrugada, é um velho. 
A: Você já leu Agatha Christie, não? 
Diretor: Claro que já li. Murder On The Orient Express é sublime, maravilhoso. 
A: Você leu em inglês? 
Diretor: Certamente. By the way, já li Rubem Fonseca. E chandler. E Aristóteles. 
A: Você mistura inglês nas frases? Gostei disso. 
Diretor: De vez em quando. Já leu Chandler? Aristóteles? 
A: (levemente confuso) Raymond? Não. Aristóteles é divertido. 
Diretor: Divertido? (espantado) Aristóteles é essencial! 
A: Discordo. 
Diretor: Só para quem não leu. 
A: Eu li. 
Diretor: Duvido. 
A: Então duvide. 
Diretor: Vamos fazer uma pausa. Já voltamos. 
A: (nervoso ao extremo) Olha o Sistema aí! Continua, arrega não! 
Diretor: Nós temos patrocinadores. 
A: Eles que esperem. Morte na Televisão é mais importante. 
Diretor: Este título é batido. Seu livro deve ser tão ruim que ninguém vai ler. Título apelativo ao extremo. 
A: Meu livro é ótimo. Compre e leia! 
Diretor: Título bom é aquele que demonstra conexão alguma com o conteúdo. Na linha de One, Two, Buckle My Shoes, da Agatha. 
Fátima invade o cenário. Porta uma Glock na mão direita. Se aproxima da câmera e dá um sorriso. Mira o peito dos dois homens sentados no cenário. Atira. Se aproxima dos cadáveres, ficando parada no vão entre eles. Se abaixa. 
R: Metalinguagem, seus putos. 

 

Eleonora

 

Pra Paula Lanzillotti. Chata, soulmate e aproveitadora. 
Pro Rubem Fonseca. O melhor de todos. 

O x da questão não era, ou não deveria ser, Eleonora me perdoar. É bem verdade que eu tinha feito muita merda, que eu não sabia porra nenhuma da vida; mas agora eu sou outro, mudei de vez. Segurando um saco que transbordava cocaína, eu choro olhando a cena da novela. Eleonora é a protagonista, e no capítulo 59 está brigada com Gervásio, seu pai. Ele tem dúvida se ela o perdoa ou não. Apertando as bordas do controle remoto, enfio o indicador da outra mão no saco e cheiro o pó que vem grudado na minha pele. O efeito das drogas no meu cérebro já não é mais o mesmo, eu já não sinto o impacto. Ao contrário dos outros viciados escrotos que circulam pelas ruas, eu só preciso ter a droga em mim, e não mais sentir o barato. Barato é coisa do passado. Odete, minha mãe, que diz que eu devo procurar um otorrino e cuidar ''desse nariz fungando aí''. Respondo, cortês, que vou mensalmente ao escritório - eu teimo em falar escritório, talvez por ser advogado - do doutor Epaminondas. Mamãe acredita. Sinto meus poros abrindo e um leve trincar na mandíbula. Pó de pirlimpimpim penetrando no meu cérebro tão pesado quanto minhas pernas grossas. A novela não é boa, mas a atriz é gostosa. Mais uma dedada no saco e dois minutos de Eleonora. Como eu dizia, mudei de vez. Antes eu era só mais um junkie fodido emergido daquela geração oitentista que só comia/bebia/fazia merda. Porrada de Ferris Bueller sem consciência; por mim eu matava eles. Larguei a vida junkie e o terno. E o jeans. E o fast food. Só visto camisa de time, bermuda e como coisas gordurosas feitas a longo prazo. Em outras palavras, neojunkie. Mudo de canal tentando desobstruir a dureza da mandíbula. A evolução tecnológica me deu o relógio digital, e o caixote de plástico marca cinco minutos para o total cozimento das minhas batatas. Minha vó me ensinou que primeiro cozinha-se para depois fritar. Até que fica bom. Começo a sentir saudades da Eleonora, mas não culpo as drogas, e sim a Tina, que me largou para ficar com um alemão de Stuttgart. Volto alguns canais e Eleonora cavalga um homem de cabelos negros e olhos verdes. A câmera mostra só sua cabeça subindo e descendo, os cabelos esvoaçando pela minha tela. Fico assistindo até o final do capítulo - que termina com um mendigo sendo assassinado embaixo do prédio de Eleonora. Última dedada no saco. Percebo que as batatas cozinharam demais. O vapor da panela jogou a tampa no chão e a água escorre pela bancada da pia. Pego a tampa, seco o chão com um pano branco e vou até a geladeira - pela manhã eu jogo os jornais em cima dela. Olho a parte de televisão, anoto na mente o horário de exibição de '' Bodas Torturadas''. Uma súbita sensação de raiva se apodera de mim. Jogo a panela fervendo no chão e quebro alguns pratos que estavam apoiados no escorredor enferrujado que herdei da minha tia. Com os joelhos ardendo de dor e ódio, caminho até a sala e jogo o saco de cocaína no chão - piso, chuto, esmigalho e odeio o pó espalhado pelo meu tapete. Vai dar um trabalho da porra limpar tudo isso, mas eu não ligo. Telefone em punho. Alô, alô, queria uma modelo gostosa, seu nome? Adolfo, endereço, eu dou meu endereço, quinze minutos e a garota está aí, obrigado. A menina que surgiu na minha porta atendia por Aparecida. Branca, baixa, cabelos na altura dos ombros, olhos azuis falsos (lente de contato) e um sorriso lindo pra caralho e peitos tão gostosos quanto sua genitália desmatada. Fodo ela e puxo a navalha que eu guardo dentro da mesa de cabeceira. Eu vou embora, diz Aparecida. Espera, peço eu. Dou um último beijo e cravo a navalha no pescoço dela. No banheiro, seco o sangue e conto o dinheiro da putinha. Duzentos reais, cem são do meu programa. Só de pirraça, ligo pro puteiro e solto uma risada contagiante e estridente, desligando em seguida. O corpo de Aparecida é carregado para os fundos do quintal, onde eu enterro ela. Puxo o caderno branco e marco mais um pontinho na quinta página. É minha vigésima vítima, número redondo pede comemoração. No bar do Adolfo, meu nomer é uma incógnita e ele será punido pelo meu crime, bebo uma cerveja e peço a conta. Comento com um cara sobre futebol e a novela - ele também assiste. Cruzo a rua e entro em casa. Tranco o portão. Ligo para Chicão e digo que não quero mais pó. Está bem, foram bons tempos, diz ele. Não corro risco de morte. Vou dormir tranquilo. Antes de pegar no sono, ligo para minha mãe e desejo boa noite. Acordo às duas da tarde do dia seguinte. Às sete da noite ligo a televisão. A porta se abre e Eleonora desce uma escadinha. Observa com nojo o corpo do mendigo estirado na frente de seu prédio. Capítulo 60. Merece comemoração. Leio que o elenco vai comemorar numa churrascaria da Zona Sul. Dedo o saquinho com o resto de cocaína e visto uma roupa chique. Vou pegar o autógrafo da atriz gostosa na churrascaria.

 

O caso das mães

 

Para minha mãe, por tudo.E esperando que entenda as referências misturadas nesse texto.


- Ah, sim, claro. É, é exatamente como eu disse: elas estão por toda parte. 
- Como assim? - me pergunta o doutor. 
- Elas estão por aí, simplesmente para reger a sociedade. Por sociedade o senhor pode entender como os filhos. Sabe, é uma coisa de instinto. 
- Tipo Sharon Stone? 
- Não foi nesse sentido. Quer dizer, a minha é mais bonita que a Sharon Stone. Aliás, ela dá de mil na Sharon Stone. 
- Queria ter uma assim. 
- E não teve por que? 
O doutor me olha um pouco enfurecido. Consegui constrangê-lo e inverter a conversa. Agora eu estava no controle. Ele disse: 
- Não tive porque ela era um inferno. 
- Todas elas são. 
- E daí? Comigo, justamente comigo, ela não poderia ter sido. 
- Mas a minha também é. Comigo. Mas só comigo, porque todo mundo ama ela. 
Ficamos quietos por dois minutos, mais ou menos. Respiro fundo e falo: 
- Mas eu sei que é pro meu bem. Ou pelo menos deveria ser. 
- É o que elas dizem. 
- E cabe a nós acreditarmos ou não. Se eu não acreditar nela, em quem eu acredito? 
- Em você? 
- Sou tão imbecil que consigo mentir pra mim mesmo. 
É verdade, eu consigo mentir para mim mesmo. E ainda acreditar. Obrigado, meu Deus, por esse cérebro. 
O doutor resmunga qualquer coisa e fala que meu tempo terminou. Eu tento retrucar, sabe, eu ainda tenho mais coisas para falar. Seu tempo acabou, ele diz. Eu agradeço de má vontade e bato a porta de madeira completamente destruída. A gente sofre. 
As ruas do Rio ficam cada vez mais sujas, imundas, fétidas. Cadê o Nelson Rodrigues para colocar ordem nessa porra? Assim fica difícil... Saudades da época em que eu não tinha preocupações. Ficava a tarde toda jogando futebol feito um retardado, mas era legal até. Ninguém poderia me mandar sair dali, era a minha infância.
Ela dizia que eu tinha de fazer o que eu tivesse vontade, o que me fizesse sentir bem. O problema é que eu sou meio impulsivo, e curto dar aquela jogadinha maneira com as palavras. Fica um negócio meio assim: Aquela move em L, Jogadinha come As, fico cara a cara com Palavra. Espero meu oponente dizer qualquer coisa e me aproveito para dar o golpe certeiro. Xeque-mate e mais uma discussão ganha. Funciona mais ou menos assim. 
Uma água fina começa a pentelhar o meu braço, desconfio que seja do ar-condicionado. Não é. O céu se curva e vira uma massa disforme - negra e dura, pronta para desabar sobre os meus poucos fios de cabelo. Estresse da vida. Calvície é resultado do estresse. Mas se todos se estressam, eu devo ter um ''Rei do Estresse''  tatuado com tinta invisível na minha testa. Tomo de refúgio uma marquise no meio da Nossa Senhora de Copacabana. Aos poucos, a água inunda as ruas e as calçadas. Quando me dou conta, estou dentro de uma lojinha bastante simpática. Espero um taxista passar - ele joga água em cima de uma velhinha. Eu rio - e me concentro nos artefatos. 
Entrar na lojinha me fez perceber que eu ainda não tinha comprado o presente dela. Presentes me irritam, mas eu nasci assim. Acontece. Começo olhando uns bibelôs. Bibelôs me lembram a delicadeza dela, bastante aflorada por sinal. Acho que puxei esse lado da família. Mas certeza que é bom, nada. Corro os olhos contra o painel negro cheio de imãs. Me lembro daquele magnetismo que nós temos, um se preocupando com o outro telepaticamente. A gente sabe quando o outro está triste, e eu acho isso uma das melhores coisas da vida. Imã me lembra a preocupação dela. Aquela marcação cerrada e violenta em cima de mim, estilo Junior Baiano. Só que no jogo dela as voadoras são substituídas pelos abraços e beijos cada vez que eu cruzo a porta de casa. 
Encaro a balconista. Loira, baixa, olhos profundos - não consigo distinguir a cor. Miopia é um problema sério. Sorrisos de ambas as partes. Foco, foco! Volto a olhar os presentinhos. Tenho um relógio em minhas mãos. Ele é vermelho, cilíndrico. Não possui despertador. Seria um presente ideal para ela. Simbolizaria toda aquela preocupação maravilhosa que ela tem comigo, e que nunca terminará, porque o despertador, tomara Deus, nunca tocará. Não tem despertador. Serei objetivo ad eternum e ad infinitum da preocupação dela. Lágrima de orgulho escorrendo. A balconista olha e sorri. Me acha fofo. 
Não entendo por que essa gente me acha fofo. Digo, eu faço tudo para não ser fofo. Eu xingo, eu desprezo, eu mato. É, mato. Mato com minha Glock. A história da Glock também é interessante. Eu  costumava matar as pessoas com um facão branco, mas um dia deu problema. Quase que meu apelido de Jason vai por água abaixo. O Tião disse que tinha uma Glock sobrando e me deu. É, ganhei a arma. Gente querendo se livrar do passado é outra história. Por falar em história, não terminei a minha. 
Peguei o telefone da balconista quando fui pagar. Comprei para mim uma calculadora verde - acho que estão me passando a perna na hora de pagar - e para ela, sempre ela, o tal relógio. Mas preferi levar um relógio maior, em que os números não existem. Você vê apenas os ponteiros se mexendo ao redor daquele círculo negro. Ponteiros vermelhos, cor de sangue, sangue esse que simboliza todo o amor que ela tem por mim. E que eu não faço por merecer. Ok, eu faço, mas dou aquelas derrapadas usuais. Invariavelmente. Guardo o cartão da balconista no bolso esquerdo da calça. A chuva diminui, mas ainda molha. Bastante. 
Subo até o meu apartamento e caminhho até a gaveta da mesinha. Contemplo a Glock e miro contra um pôster do governador. Me sinto o Robert DeNiro. Um táxi, por favor. Próximo plano: matar o governador. Não que eu o odeie, mas é um desejo antigo o de matar um governador. Fetiches. Fetiche me lembra Bruna. Entro no boxe para tomar um banho e vejo Cindy sentada no chão. Ela está chorando, mas eu não ligo. Levanto ela e constato a marquinha vermelha no pescoço. O puto do Leporace apareceu aqui e matou ela. Que se dane, eu não vou ficar correndo atrás de cafetão. Deixo o corpo no chão e tomo meu banho. Ligo para o Leporace. 
- Porra, tu deixou o corpo no meu boxe, é isso mesmo? 
- Que corpo, cacete? 
- Da Cindy. 
- Eu n-- A Cindy morreu? Como assim, porra? - coisas quebrando do outro lado da linha. - Vai ver foi o governador. 
- Ele não iria fazer isso. 
- Você tava comendo a ex dele. 
É verdade. 
- Foi um programa - minto. 
- Mais de cinco. 
- Ok, vinte. Foi o governador, então? 
- Foi. 
Peço desculpas ao Leporace e desligo. Alegria momentânea ao saber que o governador matou a Cindy. Agora sim eu tenho um motivo para matar aquele desgraçado. Odeio os Tomasson. Bicheiros desgraçados. Acham que podem ficar dando o nome de governador aos filhos? Sempre quis matar um governador. E eles não governam nada! 
A noite cai na cidade. As luzes acendem nos quadradinhos da grande maquete de pedra e asfalto. E fios. E cabos. E gente. Abraço ela com força, equilibrando a sacola no vão entre o indicador e o médio da mão esquerda. Beijo sua bochecha bem forte, para ela sentir que eu senti sua falta. Grande trocadilho, especialidade da casa. Abro a sacola e espero ela sorrir. Vem uma enxurrada de sentimentos. Alegria, emoção, risos. Explico toda a metáfora do relógio para ela. Lágrimas. Começa o jantar e eu não estou nem aí. Só quero saber dela. Que me criou, botou no mundo e sofreu. Ainda sofre, eu não sou fácil. Vivo estressado, culpa dessa tatuagem. Qualquer dia eu tiro satisfações com o doutor que fez o meu parto. Mas essa é outra teoria minha, a das tintas invisíveis de cada testa. Termino de comer. Agradeço, ainda que não demonstre, a cada segundo por ter ela. Não preciso demonstrar para que as pessoas sintam e saibam. Digo que amo ela de vez em quando, para não cair na pieguice. Ao meu modo, tento fazer o meu melhor. Algum dia isso será reconhecido. O melhor dela nunca acontece. É um melhor hoje, outro melhor amanhã. Depois de amanhã é um melhor muito melhor. E assim vai. 
- Quer mais macarrão? - ela pergunta. 
- Quero. 
Um minuto depois eu tenho o melhor macarrão do mundo no meu prato. 

 

 

O assassinato da senhora Lund

 

 I 
  Prólogo 


Removi o corpo da senhora Wilma Lund três dias após matá-la. Carreguei o saco pesado com os  ossos grandes até a beira do riacho. Antes de dar aquele presentinho à natureza, deslizei o zíper com cuidado até revelar o rosto dela. Branco, pálido e morto. Fiz questão de cortá-lo com uma lâmina cinzenta que eu trouxera. Admirei pela última vez o rosto daquela velhinha. 


II 
Wilma Lund 

Conheci a senhora Wilma Lund na recepção do meu dentista. Havia um certo tempo que eu decidira matar alguém - mais por curiosidade mesmo, e esse desejo surgiu após um sonho bem, hum, funesto. Naquela tarde ensolarada de maio eu vi a velha senhora sorrindo para mim ao colocar a revista de fofocas no suporte prateado. A recepcionista havia saído e só nós estávamos na sala. Retribuí o sorriso um tanto quanto confuso, nunca havia me acontecido situação parecida. 
- Você é novo com o doutor Stenio, não é? - perguntou ela. 
- Sou sim - respondi, sorrindo com o canto da boca e cada vez mais confuso. 
- Sabe, meu filho - continuou Wilma Lund -, na minha idade essa é a única diversão. 
Fiquei mais chocado ainda. A voltagem no meu sangue aumentava a cada segundo. Talvez por isso eu tenha fechado minha revista com um golpe rápido, focando na velhinha imediatamente após jogar a revista no banco. 
- A senhora vem sempre aqui? - é, eu estava visivelmente nervoso. 
- Toda semana. Sabe, eu tenho meio que uma fobia, um transtorno pequeno, mas suficientemente grande para me fazer temer algo. 
- Um sexto sentido? - sugeri. 
- Não. Quer dizer, talvez - ela olhou o relógio e disse, mudando de assunto: - Ondina não apareceu. 
- Quem? - indaguei, bastante assustado. 
- Ondina, a secretária do doutor Stenio. Até agora não voltou. Oh, que distração a minha, esqueci que você é novo por aqui. 
- Deve estar com alguém no terraço - respondi. - Vi uma mulher subindo com um faxineiro um pouco antes de chegar. 
- Copulando? - perguntou Wilma, lotada de receio. 
- Talvez - respondi. Wilma Lund me intrigava bastante. - Prazer, Augusto. 
- Oh, claro, prazer. Wilma, wilma Lund. 
Ficamos conversando por mais alguns minutos até o doutor me chamar para a consulta. Na semana seguinte, retornei. Obtive mais alguns detalhes sobre a vida dela. O processo continuou por mais três semanas, até que eu juntasse informações suficientes para o meu plano benignamente maligno. 


III 
O Crime  


Conforme o tempo passava, as visitas ao consultório do doutor Stenio se fizeram necessárias apenas para o preenchimento de lacunas, tudo para que meu plano ficasse perfeito. Àquela altura eu já sabia que Wilma morava sozinha e que meu dote para a imitação era excelente. Duas lacunas preenchidas. As outras foram se completando até o dia do crime, uma quinta-feira. 
Eu havia prometido um livro de viagens a ela, mas frisei que só entregaria caso pudesse levá-lo até sua casa. Cometer um crime na própria residência é suicídio. Ela concordou. Enquanto Wilma Lund, filha de alemães, folheava meu livro, segurei o saco de terra - tirada do meu quintal - com força e bati contra sua cabeça. Desmaiada, foi cortada pelo meu estilete até que o sangue cobrisse o carpete da sala. Pus o livro no bolso da calça e chutei com o bico do tênis seu crânio velho. Dei a ela um pouco de ácool para cheirar antes de matá-la. Olhei em seus olhos cheios de lágrimas e pedi mil desculpas pelo meu egoísmo. Wilma não respondeu, permaneceu incrédula até o estilete entrar pelo seu olho direito e arrancar um grunhido de dor. Saí daquela simpática casa e deixei o corpo lá. 
Na rua, disquei para a polícia. Forneci endereço, etc. e pedi sigilo. Tomei um táxi e voltei para casa. 


  IV 
      Epílogo 


Estou às margens do rio. O corpo já correu pelas águas caudalosas imerso no saco preto. Assim que eu terminar essa carta-confissão, estarei pronto para entrar no rio e deixar a corrente me levar até a pequena cachoeira que se forma a trinta metros à frente. Foi um dia agradável, tirando a parte em que me passei por funcionário do IML. Com essa vigilância toda, ficou complicado de remover o corpo. Não vou me perder em detalhes da operação, apenas asseguro que deu tudo certo.  Ok, o plano não era eu me suicidar, mas me parece ser justo. Não posso tirar uma vida e ficar impune. Já que a polícia é incompetente a ponto de me prender e tomar meu depoimento - mão acharam uma digital sequer - , me suicido como punição. Adeus, Terra. 


   Narrativa fora da carta-confissão do assassino de Wilma Lund 

O corpo boiou até a distância de trinta metros - contados a partir do ponto em que ele tocara as águas verdes do rio pela primeira vez. Se embolou na queda d'água e esperou calmamente até que a cabeça se chocasse contra uma pedra pontuda. Uma tinta vermelha se misturou à coloração original da água, mas nada muito perceptível. 
Abaixo do rio, num parque municipal, cerca de trinta famílias faziam pique-niques. A alegria no local era visível. Foi um menino louro, no auge dos seus sete anos de idade, que viu o saco preto cair no lago. 

 

O Iluminista

 


Helga desceu a escadaria de mármore de olho em Alcides, parado a dez metros dela. 
- Boa tarde, madame - disse ele, encarando aqueles olhos verdes. - O doutor Osmar me enviou até aqui. 
- Ah, que gentileza da parte dele. Qual seu nome? 
- Décio. 
- Imagino que você saiba o destino, certo Décio? 
- Certíssimo. 
O diálogo se seguiu antes dos dois entrarem no carro, um sedan preto bem comprido e confortável. Helga tirou casaco de pele que vestia e jogou-o sobre o banco de couro, deixando o tronco pender e jogá-la naquela superfície. Olhava fixamente para os lados, como se vigiasse algo ou alguém. Os últimos cinco meses haviam sido difíceis para ela e o marido. Enfrentavam a pior das crises, e o casamento de vinte anos definitivamente iria ruir. Finalmente havia conseguido um advogado competente, alguém que lhe encorajasse a pedir o divórcio, dando a certeza de que ela sairia por cima. 
O doutor Osmar era um homem forte apesar dos cinquenta anos de idade. Não era a dita figura pública, mas possuía um prestígio inabalável no meio jurídico. Trinta anos dedicados exaustivamente ao Direito e algumas centenas de vitórias depois, já cuidava dos preparativos para se aposentar. O processo de encaminhar clientes a advogados e escritórios de sua confiança já estava no fim, e ele já enxergava a luz no final do túnel. 
O sedan preto passou por uma pequena estradinha de terra, virando à esquerda, onde já era avistada a entrada de um pequeno lote de terra, cuja placa de identificação tinha inscrito em letras garrafais CAMPO DA LUZ. 
Durante todo o percurso, Helga sequer prestara atenção aos detalhes, se concentrava em manter os olhos fechados enquanto afundava-se no mais profundo sono. 
O motorista deixou a chave na ignição e abriu a porta. Acordou a mulher com uma cutucada no braço direito e informou que já haviam chegado. 
A primeira visão que Helga teve do Campo da Luz foi a de uma planície vasta, verde, com alguns pequenos montes de terra cor-de-cobre se estendendo ao longe. O céu azul recobria todo o plano superior de sua vista. O forte calor era contrastado por uma brisa leve que passava pelo seu rosto. 
O doutor Osmar apareceu logo em seguida. Vestindo uma calça branca e uma camisa xadrez e carregando uma pasta marrom na mão esquerda, ele disse: 
- Lindo dia, não? 
- Sim, muito agradável - respondeu Helga. Ela hesitou por um instante e disse: - Pensei que fôssemos até seu escritório. 
O advogado sorriu e explicou: 
- Oh, perdoe-me a mudança brusca, Helga querida, mas tivemos um contratempo no Rio, por isso transferi nosso encontro para cá. 
- Que lugar é esse? 
- Digo, ainda estamos no Rio de Janeiro - desculpou-se ele - , mas em um lugar distante. Jacarepaguá, para sermos mais exatos. O Campo da Luz é um local que eu reservo para os clientes mais importantes. O Décio fará o favor de levar você de volta. Fica tranquila. 
Ficaram conversando ali por mais alguns minutos antes do advogado propor que eles fossem até o ''escritório'', que se situava cem metros adiante do ponto em que se encontravam. Uma pequena casinha se erguia, e era fácil perceber que não devia possuir mais que três pequenos quartos. Entraram Helga e Osmar, uma vez que o motorista voltou para desligar o carro. 
- Sente-se - convidou o advogado, estendendo o braço. - Vamos tratar de negócios. 
- Sim. 
- Eu tenho aqui algumas petições do seu marido, um resumo do processo e o valor dos honorários - ele riu nessa última parte. 
- E então? - perguntou ela. 
- Eu tenho uma dúvida: quando seu marido e você começaram a brigar, qual foi o motivo? 
- Isso é importante? 
- Importantíssimo - frisou Osmar. 
- Bom, eu peguei ele na cama com outra. 
- Não foi o que ele me contou. 
- Vocês estiveram juntos? 
- Helga, querida, você entende que existem duas versões de todos os fatos? Pois bem, eu tive de comprovar sua teoria. 
- E? 
O doutor Osmar moveu ligeiramente a mão direita e Alcides pressionou contra o nariz de Helga um pano branco entumescido de clorofórmio. Sem que ela percebesse, o motorista havia entrado por uma pequena passagem existente entre o vão de uma estante e a janela. 
Os dois sorriram e arrastaram o corpo da mulher para fora da casa. 


II  

Helga estava estendida na grama verde, sobre a qual se erguia um céu negro e estrelado, com uma corrente de nuvens cortando a lua invariavelmente. O vento soprava forte, levantando com força seu vestido amarelo. Enlaçadas, três grandes cordas brancas cruzavam aquela superfície branca escultural, como se ela fosse um animal prestes a ser abatido no matadouro. 
De pé, Osmar e Alcides observavam a respiração dela - simples e contínua. 
- Quanto tempo você dá para ela acordar? - perguntou o motorista. 
- Quinze segundos - respondeu o advogado. 
- Valendo dez reais? 
- Cinco. 
- Dois. 
- Valendo nada então. 
- Um maço de cigarros, então? 
Alcides tirou um maço vermelho e branco do bolso da calça e jogou-o para o alto. Antes que sua mão se fechasse sobre a caixa, Helga acordou, desviando completamente a atenção dos dois. O maço caiu no chão. 
Ela abriu os olhos devagar, a respiração começava a ofegar ritmadamente. Viu os dois homens encarando-a a disse, ainda com a voz sonolenta: 
- Onde eu estou? 
- Deitada na grama - respondeu Alcides. - Não é uma visão bonita? - ele olhou para o amigo em seguida. 
- Sim, linda - respondeu Osmar. 
- Ei, me soltem, né? 
Eles não deram ouvidos a ela. Alcides tirou do bolso uma pequena ampola e espetou-a numa agulha transparente, injetando seu conteúdo na veia da mulher. 
- Sabe, Helga - disse Osmar - , no início eu realmente acreditei que você havia pego seu marido na cama com outra, de verdade mesmo. Tanto acreditei que fui confrontá-lo. Qual não foi minha surpresa ao saber que você tinha o traído com outra. Sim, com outra. Ele me mostrou a fita que ele gravou e... 
- Ele gravou uma fita? - perguntou ela, ainda atordoada, mas visivelmente chocada. 
- Ele não, o atendente do motel que você foi. Continuando, você não quis incluir ele na brincadeira. A culpa foi toda sua, sua piranha! 
- Não, não foi! - ela começou a se exaltar. 
- Claro que foi. Tanto foi que eu vou recuperar a honra deste homem sofrido. 
Alcides observava a tudo mantendo uma posição ereta, os pés afastados. Gostava daquilo.
- O que você vai fazer? - perguntou Helga. Sua voz aumentava conforme os segundos passavam. 
Osmar não respondeu. Agachou e, valendo-se da momentânea invalidez dela, cortou o vestido com uma faca, deixando-a completamente nua. Os seios não apresentavam qualquer sinal de excitação, passando a mão por entre as coxas dela (agora vestindo uma luva de látex), ele constatou que seu sexo também não facilitava as coisas. Tirou um pacote de preservativos do bolso e se preparou para o ato. Alcides, enquanto o patrão ajeitava seu pênis, botou um pano branco na boca de Helga, que tentou espernear, sem sucesso. Osmar e Helga foderam por quinze minutos, ele com bastante vontade; ela se contorcendo, contando os minutos para que aquela tortura terminasse. 
Calmamente, ele tirou o preservativo, com cuidado para que seu gozo não caísse na grama, e colocou-o dentro do carro, estacionado a cinco metros da cena. Dentro do automóvel, pegou uma pequena maleta branca, de onde tirou um conjunto de lâminas afiadas. Calçou um outro par de luvas e pediu a Alcides que aguardasse ao volante. 
Começou pelo rosto dela. Cortou primeiro as órbitas oculares, cobrindo aquele par de olhos verdes com sangue. Com uma segunda lâmina, arrancou a ponta do nariz, deixando-o escorregar pela face. Os lábios foram esfolados pela mesma faca, que os cruzava em golpes precisos, quase cirúrgicos. Helga emitia rugidos abafados, sem esperança alguma. Guardou as armas brancas na maleta e puxou uma terceira lâmina, bem maior que as outras. Com sua ponta, cortou os bicos dos seios medianos da mulher, permitindo que o sangue corresse por cima da pele, em contato livre com o ar. Encravando-a dentro da genitália de Helga, ele foi subindo o corte até alcançar o púbis, jorrando hemoglobinas na grama verde. Com um último golpe, cortou a garganta. 
Se levantou e, aparentando cansaço, guardou a lâmina na caixa. Foi até o carro e pegou um pedaço de pau com um corte na ponta. Fez alguns movimentos com ele na terra e retirou o lenço que cobria a boca de Helga, ainda viva. Deu uma última olhada no fluxo de sangue que saía de sua garganta e calculou quinze minutos para a hora da morte. 
- Toca pra Vila Mimosa, Alcides. Hoje é dia de farra - ordenou, já dentro do sedan. 
Enquanto Helga falecia, podia-se observar ao seu lado a seguinte inscrição: 

Iluminai-vos, mortais! 
                                                   O iluminista

 

A morte do Copromanta

 

PARTE I

O delegado entrou na sua sala e avistou o preso sentado na cadeira. Se aproximou e deu-lhe dois socos na boca do estômago. Eram duas horas da manhã e a delegacia cheirava a mofo, cigarro e cerveja. Dialogaram por quinze minutos, o suficiente para o preso dizer que só falaria na presença de um advogado. O delegado, muito contrariado, pediu que ele esperasse. Consultou dois inspetores e um detetive. Após uma espécie de votação, concordaram que seria melhor seguir o protocolo. Abrigaram o rapaz numa cela separada das demais. Três horas da manhã e nenhum ruído se fazia ouvir na delegacia. 

Vargas almoçava com Caio Borges, um dos três sócios do escritório, em um restaurante relativamente chique. Enquanto comia um pedaço de bife, observava o olhar perdido do ''chefe''. Alguma coisa (ruim, pelo visto) iria acontecer. 
- Você está quieto - disse Caio. 
- Eu? Impressão sua... Aconteceu alguma coisa? 
- Estive pensando aqui... 
- Em? 
- Olha, ainda pode ser muito cedo, Vargas, mas eu prevejo um bom futuro para você em nosso escritório. 
- Bondade sua. 
Caio mastigou cinco batatas-fritas e disse: 
- Que bondade o quê; eu estou falando sério. Você é competente, sabe das coisas. 
Vargas agradeceu, disse que só fazia o que sua intuição mandava, etc. Estava morrendo de vergonha, para ser mais exato. 
O telefone vibrou dentro do paletó de Caio. 
- Caio Borges falando. 
- Caio, aqui é o delegado Maurício Eiras. 
- Sim... 
- Nós temos um preso aqui, ele solicitou a ajuda do seu escritório. Não possui família, nem nada. 
- Quem é o homem? 
- É o Copromanta. 
Caio congelou. Disse que iria para lá o mais depressa possível. 
- Que foi? - perguntou Vargas, apreensivo. 
- Vou te dar um caso. Vai para a 10ª DP agora. Coisa importante, anda, vai! 
- Mas eu... 
- Vai logo, Vargas. 

No trajeto até a delegacia, cumprido em menos de quinze minutos, o advogado tentou voltar à verdadeira realidade. Não compreendera qual era o significado daquele envio tão urgente, tão inesperado. Só sabia que Caio Borges tinha pressa, tinha apreensão, tinha incerteza. 
O delegado Maurício Eiras recepcionou-o em sua sala. 
- Você que é o Caio Borges? - perguntou, bastante impaciente. 
- Não, não. Eu sou o Vargas, o caso é meu, por assim dizer. 
- O doutor Caio sabe disso? 
- Foi ele quem me enviou. 
- Ok então. Seu cliente está na cela 4B, vou pedir a um dos policiais que o coloque numa cela privada. Vou dar meia-hora para vocês conversarem. Está bem? 
Vargas anuiu com a cabeça. 
O Copromanta estava sentado atrás de uma mesa preta bastante baixa. Era branco, loiro, tinha olhos verdes e vestia uma camisa polo azul. 
- Você é o meu advogado? - voz macia. 
- Eu mesmo. Vargas, prazer. O doutor Caio me passou o seu caso, pode ficar tranquilo. 
- Eu espero. 
- Você é o famoso Copromanta... 
- Me chame de Marcelo, meu nome verdadeiro. Copromanta é muito sujo, literalmente. 
- Você faz por onde - respondeu o advogado. 
- Posso te contar a história? 
- Não tenho objeções. 
- Eu era só um ladrão de casas, mas um dia resolvi assaltar uma mansão. Cinco ricos numa casa de campo, perfeito. Deu a maior merda, eu tive que matar geral. O problema é que naquela correria toda, me deu vontade de ir ao banheiro. Eu estava tão perdido naquele lugar que acabei cagando em cima do dono da casa, a três centímetros do furo da bala. Foi um prato cheio pros sensacionalistas. Antes eu não tinha nem nome, minhas vítimas eram tratadas como pessoas ordinárias, casos simples no cotidiano carioca. Mas depois dessa, um colunista me apelidou de Copromanta. Aí pegou, não teve jeito. 
- Foi aí que você resolveu cagar em todas as vítimas? 
- Só nas mais importantes. Contribuir com a lenda. 
Era um preso dotado de um singular modus operandi. Não tinha o estereótipo dos grandes assassinos; era sereno, não inspirava medo. 
- Você parece não ter medo - disse Vargas, num misto de pergunta e afirmação. 
- E realmente não tenho. Pensa comigo: um cara do meu porte, com todos os contatos que eu tenho, não pode ter medo. Minha vida vale muito para muitas pessoas, assim como as informações que eu sei. Aposto meu cu que ninguém me mata. 
- Não parece ser uma aposta sensata. 
- Confia em mim... 
 
 PARTE II 

Já haviam se passado dois dias desde a primeira entrevista entre Vargas e o Copromanta. Sua prisão havia sido efetuada numa terça-feira chuvosa, quando o assassino fora preso em flagrante após assaltar uma casa na Barra. Trinta policiais fortemente armados o esperavam do lado de fora depois de um denunciador anônimo ligar para a central avisando que ouvira tiros na casa ao lado, além de '' um forte cheiro de fezes ''. Ponto para Maurício Eiras. 
Vargas acordou por volta das seis horas da manhã naquele sábado, onde o tempo estava um pouco melhor, mas ainda causava certo nervosismo em quem se atrevia a sair de casa. Abriu a janela do quarto, sentiu a brisa forte bater em seu rosto e voltou-se na direção do banheiro. Estava debaixo do chuveiro, encharcado numa mistura de sabonete, shampoo e água corrente, quando o telefone avermelhado da sala tocou. Desligou a torneira, apanhou a toalha no suporte ao lado do boxe e se enxugou rapidamente. Caminhou a passos largos até a sala, iluminada por pequenos fachos de luz que saíam detrás de nuvens cinza. 
- Alô? 
- Vargas, aqui é o delegado Maurício Eiras. 
- Ah, bom dia, delegado - a voz do advogado sofrera uma queda no percentual de animação após ouvir a palavra ''delegado''. 
- Preciso que você venha até a delegacia. 
- Aconteceu alguma coisa? 
- Infelizmente. 
- Que horas o senhor prefere? 
- Agora. 

O corpo do Copromanta estava jogado em sua cela isolada das demais. Um buraco de bala formava-se dois dedos abaixo do peito, denunciando uma bala encravada no coração. Alguns filetes de sangue escorriam do buraco envolto em pólvora. As calças haviam sumido, ele estava completamente nu. Em cima do pescoço, uma porção de fezes cobria a garganta quase toda, deixando apenas algumas frestas entre uma ponta e outra do bolo fecal. O cheiro vindo da degradação natural do cadáver se misturava com as fezes e o pouco de urina derramado no chão, cujo percurso começava no final do pênis do Copromanta e terminava perto de seus pés. 
Vargas olhou àquela cena aturdido. Em toda a sua breve carreira como advogado, nunca vira um cenário tão complexo e elaborado. 
- A que horas foi isso? - perguntou ele ao delegado, que também se esforçava para não olhar. 
- Eu não sei. O Almeida, delegado do plantão, me ligou às cinco e meia da manhã. Parece que ele passou mal, está no hospital. 
- Imagino. A perícia chega que horas? 
- Eu liguei tem dez minutos. Daqui a pouco eles estão aqui. Pedi para escalarem o Tebas para o serviço. 
- Tebas? 
- Nosso melhor perito. 
- Entendo... Se você não se importar, eu gostaria de acompanhar as investigações. 
Maurício fitou-o, agora com seriedade. Aguardou um pouco e disse: 
- Pelas regras, você não tem acesso por enquanto. Mas eu posso abrir uma exceção, desde que mais ninguém saiba. 
- Pode deixar. 

Tebas vestia um jaleco branco com suas iniciais bordadas em azul. Usava óculos de grau feitos numa armação preta de contornos grossos, cuja forma realçava as sobrancelhas espessas. 
- Complexo, muito complexo... - disse ele após alguns minutos analisando a cena. - O assassino usava arma da polícia, isso é certo. As fezes e a urina são da vítima, acredito que não encontraremos a luva utilizada de jeito nenhum. Foi um crime premeditado, podem ter certeza. 
Vargas e o delegado se aproximaram do perito, que já guardava seus instrumentos em uma mala preta. Os três trocaram meia-dúzia de palavras e se despediram. Antes que o advogado fosse embora, Maurício Eiras se aproximou. 
- Olha, eu sei que vocês nem chegaram a firmar acordo, etc. mas eu tenho que te dar alguns arquivos do Copromanta. Eu juro que não sei por que estou fazendo isso, mas é melhor você aceitar. 
- Negar é que eu não vou. 
A pasta que Vargas recebeu continha cinco envelopes de papel pardo, cada um com pelo menos cinquenta folhas. Eram autuações, registros, endereços, xerox e documentos que ajudavam a compreender o perfil e a carreira criminosa de um dos mais perigosos bandidos que a cidade já tivera. 
Sentado em sua sala, já no escritório da Borges, Santos e Marc Advogados Associados, ele analisava cuidadosamente cada palavra daquele monte de papeis, que iam se acumulando sobre sua mesa uns em cima dos outros, sem o menor princípio de ordem. Caos completo. 
Após mais de duas horas lendo páginas e mais páginas, anotou em num bloquinho branco três nomes que achara essenciais para começar uma investigação particular, na qual apenas ele seria delegado, policial e advogado. 
A primeira pessoa que visitou morava no Méier. Era uma casa de cimento e tijolo, com janelas mal colocadas, em níveis diferentes e tortas. Um cheiro de churrasco vindo detrás da casa invadia suas narinas, mas preferiu se ater ao que deveria ser feito. 
Deu duas batidas na porta de ferro, onde um vidro ordinário se erguia atrás de uns desenhos de aço, e aguardou. Foi recebido por uma senhora de cabelos negros misturados a alguns fios brancos, vestindo uma camisola amarela. Um hálito forte saía de sua boca. 
- Sim? 
- Oi, boa tarde. Meu nome é Vargas, eu sou advogado. 
- Tem ninguém querendo comprar nada aqui não, moço. 
Apesar de desconcertado com a ignorância da resposta, ele seguiu em frente e disse: 
- Eu procuro pelo senhor José da Silva, ele é marceneiro, pelo que me falaram. 
A senhora se virou para dentro da casa e deu um grito. Em instantes surgiu um homem na casa dos trinta anos que carregava um martelo na mão direita e mordia alguns pregos com o canto da boca. 
- José da Silva?  
- Eu mesmo. 
- Meu nome é Vargas, sou advogado do Marcelo. 
O homem deu um passo para trás. Pediu para que ele aguardasse enquanto trocava de roupa. Surgiu mais limpo. Foram até um pé-sujo na esquina da casa. 
- E então, o que houve com o Marcelo? - indagou José. 
- Foi preso. 
- Novidade... 
- E depois assassinado com um tiro no peito. 
- Hã? Que porra é essa? 
- É o que eu estou tentando descobrir - respondeu Vargas. - Cagaram na cara dele também. 
- Eu sabia, eu sabia... 
- Sabia? Sabia do quê? 
- Esse negócio de Copromanta não ia dar certo. Ele fazia negócio pesado, cara.
- Que tipo de negócio? - Vargas se inclinou, apoiando os cotovelos na mesa de plástico. 
- Isso não sai daqui, sai? 
- De forma alguma. 
José fez uma breve pausa, tomou fôlego e disse: 
- Ele ia até Ipanema de vez em quando. Na Vieira Souto tem um homem que dava os serviços para ele. O Marcelo ia lá e fazia. Dava uma boa grana. 
- Você pode me dizer o nome desse cara? 
- Agenor. Agenor Barreto, mas todo mundo o conhece como O Traça. 
- Compreendo. Se não for demais perguntar - disse Vargas calmamente -, eu queria saber como vocês se conheceram. 
- Ih, estudamos juntos. Eu continuei marceneiro, ele virou criminoso. Mas sempre jogávamos sinuca no bar do Justino. 
O advogado agradeceu e antes de ir embora mostrou a José o papel em que anotara os três nomes. Ele disse que não conhecia eles, mas que com certeza a pista para achar o assassino estava com o Traça. 


PARTE III 

As primeiras investigações da polícia estagnaram com três dias. Como o caso não havia sido divulgado, portanto a imprensa acreditava que o Copromanta estava enjaulado numa cela qualquer, a falta de provas (evidências, digitais, gravações, etc) não resultou em grandes complicações. O delegado Maurício Eiras já voltava à rotina normal quando recebeu uma visita inesperada de Vargas. 
- Boa noite, delegado. 
Já passava das sete da noite quando o advogado resolveu aparecer na delegacia. Coincidência do destino, pois Eiras apenas ficara no distrito para resolver algumas pendências, uma vez que o delegado substituto ainda permanecia convalescente. 
- Ora, ora, Vargas. 
- Desculpa ter vindo sem avisar, mas é que eu consegui algumas pistas sobre o caso. 
- Como assim? - perguntou o delegado, estendendo-lhe o braço em um claro sinal para que o advogado se sentasse à sua frente. - Você está investigando o caso? 
- O que o ócio não faz conosco. A questão, delegado Eiras, é que o Copromante não agia sozinho. 
- Eu sei disso. Ele tinha alguns cumplices. 
- Sim. O Traça era seu ''chefe''. 
- O Traça? Que porra é essa, Vargas? Andou cheirando, rapaz? 
Ele riu e disse: 
- Vocês podem conhecê-lo como Agenor Barreto, mas a maioria conhece como O Traça. O cara é o bambãbã do Rio, mora na Vieira Souto. 
- Acho que já ouvi falar nesse cara... 
- Eu o conheci. 
O delegado deu um pulo para a frente. 
- Enlouqueceu? Tu tá se metendo em muita merda, cara. 
- Entrei numa das festinhas que ele dá para arrecadar grana. Coisa complexa, mas eu não me ative ao sistema dele, apenas me preocupei em obter informações referentes ao Copromanta. 
- E o que você conseguiu? 
- É aí que eu quero chegar, delegado. Um de seus homens, que por ora eu não revelarei o nome, está metido com o Agenor. 
- Mas é claro que você vai me dizer quem é. 
- Desculpa, delegado, mas que faz as regras aqui sou eu. Vocês não possuem nenhuma pista. O que eu quero é pedir para falar com esse policial sem que você nos interrompa, e tampouco saiba quem ele é. Depois eu revelo tudo. 
- Que se foda, sabe... Como você chegou a tudo isso? 
- Ué, na pasta que o senhor me deu tinha tudo. Eu só dei aquela peneirada básica. Onde estão os policiais? 

A sala utilizada para serem realizados os interrogatórios tinha apenas uma mesa azul, um lustre que pendia até noventa centímetros acima da mesa, e duas cadeiras. Vargas estava sozinho com o policial. 
- Eu sei do seu negócio com o Traça - disparou ele. 
O policial não moveu um cílio sequer. 
- Sabe, é? - respondeu cinicamente. - E o que eu tenho a ver com isso? Se essa informação sair daqui você morre, compreende? - não havia a menor alteração em sua fala. 
- Eu não vou morrer. 
- Foi o que me disse o Marcelo. 
Vargas decidiu entrar no jogo, o que era vital para sua investigação paralela. 
- Então foi você quem matou ele? - questionou. 
- Eu? Imagina se eu vou sujar minhas mãos. 
- Uma bala não sai de um revólver sem uma mão para pressionar o gatilho. 
- E quem disse que é preciso uma mão para pressionar o gatilho? Advogados... 
Era um jogo de egos, onde ambos desejavam triunfar. Vargas tentou uma abordagem mais dura. 
- Eu fui até a casa do Agenor, eu vi. Não adianta você esconder. 
- Admiro sua técnica, mas ainda falta muito para se tornar um policial, doutor advogado. E não tente sair dessa delegacia, o senhor não sobreviverá. Você tem minha palavra. 
- E se eu tentar? - Vargas estava disposto a arrancar alguma coisa. 
- Perdão, eu me enganei. Você pode sair dessa delegacia sim, mas vai ter uma bala encravada nas costas. 
Um forte estrondo se fez ouvir do lado de fora da sala. Os dois se levantaram ao mesmo tempo e saíram um após o outro (primeiro o policial, depois o advogado). Alguns estampidos secos ecoavam nos corredores cinzentos, mas sua origem era desconhecida. Conforme avançava sozinho pelas alas, Vargas sentia os gritos aumentarem gradativamente. A delegacia tinha três pequenos andares, conectados por uma escadaria consideravelmente grande. Vargas subia o segundo lance de escadas quando um corpo fardado, com sangue escorrendo pela têmpora direita, atravessou o vão entre os corrimãos, espatifando-se no chão. 
No terceiro e último andar dois policiais pularam escada abaixo, procurando fugir o mais depressa possível. Conforme o tempo passava, os estampidos iam diminuindo, mas uma leve fumaça se formava, prejudicando sua visão. Chegou a uma pequena sala, onde alguns buracos na porta indicavam corpos no interior. A previsão se confirmara. Dois detetives estavam jogados no chão com seus respectivos distintivos pendurados no pescoço. As balas foram enfiadas pela testa, acusando a habilidade extraordinária do atirador, que teve precisão ao focar longe dos coletes à prova de balas. 
Vargas percorreu a sala em toda a sua extensão, olhando os detalhes dos corpos, checando alguma evidência. A distância entre os corpos não passava de meio metro, coisa pequena. Mais um estampido fez-se ouvir, agora acompanhado de um gemido intenso. Mais dois tiros e alguns gemidos. Ele desceu a escadaria apressadamente. O assassino estava subindo ao seu encontro. Cinco tiros seguidos, nenhum gemido. No caminho, pegou uma arma carregada. 
O caos realmente tomava conta do lugar. O melhor refúgio só poderia ser as celas, pensou. Foi até a Gaiolada, como gostava de chamar a área reservada aos presos. Encontrou o carcereiro tombado no chão com um tiro nas costas. Alguns presos urravam de dentro de suas celas enquanto ele tentava explicar que não tinha as chaves. O cara é maluco, disse um. Vai dar tiro em todo mundo, afirmou outro. Ele diz que é o verdadeiro Copromanta, vociferou outro. Essa última frase repercutiu em Vargas um efeito especial. Então haviam dois Copromantas? 


PARTE IV 

Checou se a arma estava de fato carregada e decidiu ir à caça do tal homem. 
- Eu estou aqui, filho da puta!! Vem me pegar se tu é homem, caralho!! - disse ele a plenos pulmões. 
Se encontraram na sala do delegado, que era feito refém com uma arma apontada para sua cabeça. 
- Vargas, eu presumo. 
- Eu mesmo. 
Era um homem de meia-idade. Alto, cabelos curtos e grisalhos, vestia um jeans e uma camisa social branca. 
- Existem cores mais bonitas que o branco e o azul? - perguntou com voz mansa. 
Vargas não respondeu. Ficou parado na porta com a arma em punho, mirando a cara do homem. 
- Você me acha um maluco, não acha? Pois saiba que eu não sou. Eu sou o verdadeiro Copromanta, deram os créditos para um charlatão. 
- E por isso você decide invadir a delegacia e matá-lo? - o advogado suava frio. 
- Invadir a delegacia, sim; matar, não. Quem matou foi nosso amigo delegado Maurício Eiras. 
- Não acredita nele, Vargas, não acredita nele - gritava o delegado. 
- Aliás, meu nome é Oswaldo - disse o verdadeiro Copromanta, atirando no delegado logo em seguida. - Quer ouvir uma historinha engraçada? 
Vargas anuiu com a cabeça. 
- Tudo começou em 1998. Eu já trabalhava pro Traça, que por sinal está morto naquela piscina escrota dele, e já era viciado em fetiches. Eu sempre fui fetichista. Tinha descoberto a coprofilia havia uns quatro, cinco anos. É uma bela arte, se você quer saber. Assim sendo, passei a defecar sublimemente nas vítimas. Mas como o Traça só me mandava fazer serviço escroto, tudo lá na casa do caralho, ninguém tomou conhecimento da minha arte. Até que o Marcelo resolveu aparecer. O filho da puta me conhecia, mas inventou que tinha ficado nervoso na hora. Mentira, porra! Mentira suja!! Esperei que a polícia o pegasse e dei quinze mil pro delegado matar ele. Como delegado podia ser bom, mas como assassino foi um merda. O outro delegado viu e precisou ser rendido e tomar injeção de remédio pra ter parada cardíaca. Ah, sim, o Maurício era drogado. O resto você já sabe. 
- Que resto? 
- Eu aparecer aqui, sair matando todo mundo. Chega um momento que dá raiva, que você tem que atirar em geral, mandar todo mundo se fuder, ir pra casa do caralho! 
Vargas percebeu que Oswaldo estava mais calmo e havia baixado a arma. Atirou num movimento rápido. 
- Foda-se - disse ele enquanto o Copromanta morria.

 

O caso dos dois réus

 

O doutor Armando Ribeiro entrou esbaforido na pequena sala situada à direita, perto do banheiro, no escritório Borges, Santos e Marc Advogados Associados.
Vargas estava concentrado em alguns papeis, organizando-os em pilhas uniformes de meio palmo de altura. Já haviam sido formadas três delas, todas pressionadas por livros grossos de capa dura - dois de Direito e um romance policial que o médico não conseguiu identificar. 
- Vargas, Vargas!  
O advogado olhou por cima da armação dos óculos e disse, bastante intrigado: 
- Doutor Armando? 
- Desculpa ter vindo sem avisar, desculpa mesmo. Mas aconteceu um problema.
O advogado estendeu o braço esquerdo na direção de duas poltronas de couro defronte da mesa.
- Sente-se.
O médico se sentou e Vargas prosseguiu: 
- O que aconteceu?
- Uma coisa horrível, horrível! Minha mulher, Vargas, minha mulher...
- Sim o que aconteceu? - ele se inclinou, apoiando os cotovelos na mesa enquanto tentava não
olhar para o suor que escorria da careca para o rosto.
- Ela foi... foi... Oh, céus, é horrível, Vargas!
- Conta logo, pára de fazer cena, Armando!
O médico fez uma pausa, passou a mão na testa para tirar o excesso de suor e arrematou:
- Ela foi assassinada. 
 
 
Fórum do Rio de Janeiro. Quinta-feira, onze horas da manhã.
 
 
Vargas estava sentado na frente do promotor. Encarava-o com desgosto. Era um caso difícil, sem muitas chances de evitar uma condenação pesada.O juiz que presidia a audiência era um senhor corcunda, semelhante à uma tartaruga. Vargas lembrou-se parcialmente de Charles Laughton, mas preferiu não criar uma imagem às custas de uma figura conhecida. Em sua mente, apelidou o meritíssimo de Darwin, em homenagem à tártaruga das Galápagos encontrada pelo nobre cientista inglês.  
- A audiência está suspensa. Pausa de duas horasRecomeçaremos às duas horas em ponto. 
Assim que o juiz terminou a ordem de suspensão da audiência, Vargas fechou o processo
contido numa espécie de pasta cor-de-rosa com força e saiu da sala.
Não queria falar com ninguém, tampouco com seu cliente. Ele só tinha duas horas
para convencer um juiz em fim de carreira (o que significava anos de experiência) e um júri
(o que significava vários jovens imbecis no começo de suas carreiras tentando concordar
em tudo com o juiz).  
- Vargas, posso falar contigo rapidinho?
O advogado tornou a olhar por cima dos óculos.
- Não. Me deixe sozinho, sua vida está nas minhas mãos. Fica sentado na sala ao lado, daqui
a pouco eu te chamo.
O doutor Armando se retirou e Vargas ficou ali, sozinho, a prestar atenção no céu azul que cobria
aquela quinta-feira negra, onde sua carreira na Borges, Santos e Marc Advogados Associados
poderia se encerrar.
 
 
Dois meses antes da audiência. Escritório de Vargas. 
 
 
O doutor Armando Ribeiro sentou-se bastante calmo na mesma cadeira de couro. Há duas
semanas atrás ele havia protagonizado uma cena dramática, onde toda a sua energia tinha sido
dissipada. Ficara internado por dois dias em uma clínica particular na Gávea. Infarto do miocárdio.
Vargas fitava-o sem muita pretensão. Conhecia o tipo, e portanto, tentava a todo custo desvencilhar
Armando da categoria de amigo, e rebaixá-lo violentamente à sub-categoria de cliente. Um mero
cliente como qualquer outro.
- Você sabe - disse ele - que eu marquei essa reunião para tentar ouvir da sua boca, sem ter
que consultar atas, relatórios, peritos, etc. os fatos que culminaram na morte da sua mulher. Eu 
espero, de coração, que você me conte exatamente o que se passou. Sua vida agora está nas
minhas mãos, Armando.
O médico prestou atenção em cada palavra que saía daquela boca que nunca se abria por
completo, sempre mantinha uma ponta de cada lábio grudada na outra.
- Eu compreendo.
Fazendo uma breve pausa para tomar um gole d'água, Armando prosseguiu:
- Nós estávamos casados havia quinze anos. Nunca houvera da minha parte, e até então da
dela, algum caso de traição. Nossa vida sexual era boa, nunca caíamos na rotina... Só nos
afastávamos no mês de março, quando eu costumo ir a São Paulo assistir a algumas palestras de
medicina. Sabe como é, nós médicos devemos estar sempre estudando; em dia com a matéria.
- Eu entendo - disse Vargas. - Mas não desviemos do foco, continue.
- Ok. eu cheguei do trabalho por volta das onze horas da noite. Meu prédio não tem câmeras, mas
o meu consultório tem. Caso você queria conferir, eu posso te mostrar a fita com a hora em que eu
saí.
- Depois a gente vê isso. Prossiga.
Armando pigarreou e disse: 
- Encontrei ela e um rapaz que eu nunca vira na minha vida, deitados na minha cama. Nus. 
- Imagino que isso tenha lhe causado um choque monstruoso.
- E causou - ele fez uma breve pausa e continuou. - Eu fiquei atordoado, senti uma leve tontura e
preferi descer. Apanhei minha carteira que estava em cima da mesinha da sala e fui até o bar da
esquina. Pode confirmar com o Elídio, o dono do bar. Quando eu voltei, encontrei ela estirada na
cama.  O peito tinha um corte enorme. Com certeza era uma faca. O rapaz tinha ido embora.
- Não é preciso confirmar nada. Eu confio em você. 
A conversa não passou dali. Vargas apenas ratificou que a culpa estava toda em cima dele, que
as chances de condenação - embora a audiência estivesse longe de acontecer - , eram grandes.
Duas semanas depois, um outro incidente causou uma reviravolta em toda a história. O tal
homem que estivera na cama com Maria Elisa, mulher do doutor Armando, tentou assassinar o
médico quando este saía do trabalho. Munido de uma faca, cortou-lhe parte da região lombar, mas
uma manobra precisa do cirurgião conseguiu salvar a vida do doutor. 
Athayde, o agressor, foi preso em flagrante por um policial que passava no local. Ele também
estava na audiência que decidiria o futuro do doutor Armando Ribeiro.
 
 
Audiência do doutor Armando Ribeiro, acusado de assassinar sua esposa, Maria Elisa, com uma
facada no peito. Meia-Hora antes da suspensão por parte do juiz. 
 
 
A configuração da sala era a seguinte: sentados com seus respectivos advogados, Athayde e
Armando ouviam as acusações da promotoria e as defesas de Vargas e Celso, advogado do outro
réu. O médico foi chamado pelo juiz para se sentar no banco dos réus, posicionado um nível abaixo
do meritíssimo.
- Doutor Armando Ribeiro, o senhor está sendo acusado por este tribunal de assassinato. O
senhor tem noção dos fatos?
- Tenho. A noção que eu tenho dos fatos, é que o senhor está sendo enganado por um filho da
puta, o qual se encontra sentado ali! - ele apontou para Athayde e seu advogado. 
Vargas observou aquilo sem se manifestar. Queria aguardar o momento certo.O juiz pediu para
que Armando se calasse, e que respondesse de forma cordial, mas o médico não acatou. 
- A justiça desse país é uma merda, meritíssimo. Como o senhor quer que eu aceite que estou
sendo acusado de algo que eu não cometi? Minha consciência está tranquila, todos nós estamos
tranquilos! Eu sei do que falo. Não matei minha esposa. Quando voltei, ela tinha um furo do tamanho
da Rússia no peito jorravando sangue. Pelo amor de Deus, eu sou médico, sei das coisas! 
Athayde não se manifestou